O Fenômeno 50 Cent: O Que Aconteceu?

O fundo é negro e contrasta com uma brilhante moeda prateada na parte inferior. No centro da figura, capturando a atenção numa montagem chamativa, há o nome “50 CENT” em grandes letras brancas envolvidas em vermelho. Logotipo, aliás, que o rapper jamais iria abandonar. Essa é uma descrição simples da capa do primeiro álbum – oficialmente cancelado pela gravadora Columbia Records – de Curtis Jackson III, o 50 Cent.

Com o nome de Power Of The Dollar (2000), o CD em questão foi pirateado e comercializado à vontade nas ruas e vielas nova-iorquinas. Foram os ouvidos do gueto os pioneiros a testemunhar a faixa “How To Rob, que popularizaria um conceito chamado name calling – que se mantém presente e impactante até hoje, como sabemos bem – e nos mostraria uma produção artística east gangsta rap pura. Diz a letra:

I’d rob ODB but that’d be a waste of time
Probably have to clap him run and toss the nine
I’d follow Fox in the drop for four blocks
Plottin to juice her for that rock Kurupt copped
What Jigga just sold like 4 mil? He got somethin to live for
Don’t want no nigga puttin four thru that Bentley Coupe door
I’ll man handle Mariah like “Bitch get on the ground”
You ain’t with Tommy no more who gonna protect you now?

Em oito linhas do primeiro verso temos referências ao Ol’ Dirty Bastard, integrante do Wu-Tang, ao casal Foxy Brown (Fox) e Kurupt, ao lendário Jay Z (Jigga), Mariah Carey e Tommy Mottola.

Foi um marco, definitivamente. Uma obra que representava um reflexo puro de uma geração do rap que cresceu em meio a brigas e violência. Os assassinatos de Tupac e Biggie estão de prova. Recomendo todos os quatro documentários da série Beef para os interessados em saber mais sobre a história da rivalidade no hip-hop.

Daí para frente o nome 50 Cent passou a valer muito mais do que a quantia que expressa. Foi mencionado por ninguém menos que Jay Z – rapper atravessava um momento muito intenso de ascensão em sua carreira – em shows e teve cada vez mais interessados em seu trabalho e sua história. Pela primeira vez era possível dizer que 50 Cent iria dar certo.

Então tivemos Guess Who’s Back (2002). O álbum chamou a atenção de grandes nomes como Eminem e Dr. Dre. Esse primeiro atravessava um grande momento em sua carreira. Estava no topo do jogo aproveitando os lucros do álbum The Marshall Mathers LP (2000)que ganharia uma sequel em 2013 – e com o lançamento de outro absurdo musical chamado The Eminem Show (2002).

Essa atenção teve como consequência o tão falado contrato milionário – na época, 1 milhão para um contrato de hip-hop era considerado um grande salto – com a Shady Records/Aftermath Entertainment. Tal contrato gerou o álbum que todos nós conhecemos: Get Rich Or Die Tryin’ (2003).

Esse foi o trabalho que deu ao 50 sucesso mainstream. Estima-se que até o dia de hoje o álbum tenha vendido mais de 18 milhões de cópias no mundo inteiro. A lista de faixas tem nomes de peso como “Many Men (Wish Death)”, “P.I.M.P”, “In Da Club” e “21 Questions”. É um clássico do hip-hop sem sombra de dúvida. Em resumo: em 2003, o mundo era de 50 Cent. Até a complex.com concorda. E esse reinado durou um bom tempo. Em 2005, 50 Cent estrelou um drama com o mesmo nome desse álbum: Get Rich or Die Tryin’. Sua história seria mostrada e divulgada na sétima arte pelas televisões do mundo inteiro.

Falando em 2005, é impossível não mencionar The Massacre (2005). Marcado em parte pela briga notória entre 50 Cent e Murder Inc., o álbum contém hits como “Candy Shop”, “Disco Inferno” e “Piggy Bank”. Em apenas quatro dias, foram mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos, a sexta melhor performance da história, de acordo com a lista da Nielsen SoundScan. Até o dia de hoje, estima-se que o trabalho vendeu mais de 11 milhões de cópias.

Contudo…

Como Jay Z disse em seu álbum de estreia Reasonable Doubt (1996): “I know this game got valleys and peaks”. Eu sei que esse jogo tem altos e baixos. Os conhecidos “ups and downs” da vida. Um dia da caça, outro do caçador. Um dia no topo, outro na lama. Nada mais certo.

Eis que surge, então, a pergunta que permanece até hoje: o que aconteceu com 50 Cent? Quem viveu de lá para cá consegue perceber a nítida caída que o rapper teve em sua discografia. Alguns defendem que a carreira de Jackson pode ser resumida, depois de 2005, como tentativas fracassadas de retornar a um topo no qual nunca mais irá ter o prazer de colocar os pés. Muitos fazem a piada “Got Rich Stopped Tryin’” (Ficou rico e parou de tentar), que vem obviamente de “Get Rich Or Die Tryin’” (Fique rico ou morra tentando). Vejam Curtis (2007), que teve um desempenho e recepção ainda respeitáveis, mas ainda assim decepcionante. Vejam Before I Self Destruct (2009), que foi relativamente mal recebido pela crítica, ainda que contenha faixas interessantes. Vejam o período de hiato de 5 anos do rapper, que limitou-se a lançar mixtapes independentes nesse período. E vejam agora (Sim, ele lançou um álbum esse ano. Impressionante como um número assustadoramente pequeno de pessoas sabe disso) Animal Ambition, em 2014. Tirem suas conclusões. Como será a recepção, só o tempo irá dizer. Até agora o álbum vendeu mais de 100 mil cópias e recebeu críticas bem equilibradas pelo mundo da música. Algumas o rasgam de elogios, outras o amassam e o desprezam. Entretanto, definitivamente não é a performance do 50 Cent que o mundo ficou acostumado a conhecer.

Mas voltemos à questão central: a resposta dessa pergunta é ampla e variada. Muitos entendedores de hip-hop pelo mundo desenvolvem teorias, esquemas e apostas em como se deu essa caída. Duas delas se destacam:

  • O rapper realmente ficou rico e parou de tentar? É uma possibilidade. Depois do sucesso, o sujeito de fato fica menos ativo em suas produções. Talvez por uma sensação de missão cumprida, talvez por falta de necessidade de produzir. O fato é que já vimos isso acontecer com um grande personagem do cinema: Tony Montana. Ele sentiu isso na pele, e isso se materializa na cena em que ele diz: “We’re not fucking hungry anymore.”. Não estamos mais com fome. Fome de poder, fome de sucesso. Já temos sucesso, temos tudo o que sempre quisemos ter. Talvez aí esteja o problema de Curtis.
  • Pode ser também que Curtis tenha simplesmente cansado do rap e teve que fazer álbuns só para cumprir contratos com gravadoras. Daí a mediocridade dos trabalhos pós-The Massacre. Normal, na verdade. O próprio Lil Wayne já manifestou esse sentimento recentemente. E se pararmos para olhar as ações de 50 Cent, faz sentido. Ele tem se comportado como um autêntico empresário, fechando contratos de vitamin water, empresário de boxe e muito mais. Pessoalmente eu não me surpreenderia.

O fato é que o tempo dirá os próximos passos de 50 Cent. Sabemos que ele é um dos rappers mais ricos do mundo, valendo um total de $140 milhões de dólares segundo a Forbes. E talvez essa quantia aumente ainda mais. Quem sabe o traficante de crack de South Jamaica não consegue voltar ao topo do jogo, afinal? Só nos resta esperar.

3 Respostas para “O Fenômeno 50 Cent: O Que Aconteceu?

  1. Acho que o cara ainda manda bem, acho que fez umas más escolhas, o que é normal.
    Nessa “The Kanan Tape” ele mandou muito bem, o que eu acho que falta é uma produção do dr.dre pra ele virar um hit de novo.
    O cenário mudou, ele mudou, mas ele ainda tem o jeito.

    • Mateus, eu concordo. Falaremos sobre a recepção crítica da “The Kanan Tape” e sobre o que ela representa para a discografia do rapper no próximo texto! Um abraço!

  2. Pingback: O Fenômeno 50 Cent: O Que Aconteceu? (Parte II) – Raplogia·

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