O blaxploitation e o Hip Hop

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Yeah, I’ll check out a movie/But it’ll take a Black one to move me — Chuck D, em Burn Hollywood Burn

A linha que começa esse texto é dita por Chuck D na faixa Burn Hollywood Burn do disco do Public Enemy, Fear Of A Black Planet, de 1990. Ela mostra muito do que esse post quer passar, que é como o cinema blaxploitation influenciou o Hip Hop em diversas partes. Comportamento, ideias, e é claro a musicalidade, entram nesse leque vasto de influências vindo de um simples gênero de cinema.

Nos anos 70 o cinema passava por uma revolução, os filmes exploitation ganhavam cada vez mais fama. Sem um rosto famoso para estampar, eles apelavam para o sexo e a violência gratuita em produções de baixo orçamento. Havia um grande receio em relação ao custo desses projetos, que eram feitos de formas até que milagrosas pelos produtores. Em 1959 por exemplo, Ben-Hur, da MGM tinha o astronômico – para a época – orçamento de quinze milhões de dólares. A mesma produtora, também trabalhava com os explotaition, afinal, o cenário de filmes B era bastante lucrativo.

Mas voltando ao exploitation, os baixos orçamentos não significavam projetos ruins, existiam filmes que beiravam o ridículo, mas também existem pérolas bem valiosas que influenciaram cineastas de grande porte de hoje, como por exemplo, Quentin Tarantino.

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O blaxploitation era uma vertente do exploitation, que tratava-se de filmes com um elenco composto por negros. O que tornou esse gênero mais aclamado ainda, é que a sua ascensão coincidiu com a ascensão da música negra. Artistas como Curtis Mayfield, Isaac Hayes, Marvin Gaye, Willie Hutch e James Brown, atingiam o ápice em suas carreiras, e usavam todo o seu talento para compor trilhas sonoras para os filmes. Black Caesar tem a mão de James Brown, Shaft tem a de Hayes, já Curtis Mayfield fez a trilha do filme Super Fly. Essa união fez do blaxploitation ser um estouro nos cinemas ditos como “B”.

O tempo passou, e os filmes do tipo foram produzidos cada fez menos. Filmes como Boyz N The Hood e Poetic Justice poderiam até ser considerados blaxploitations dos tempos modernos, mas não são. O gênero ficou pelos anos setenta – com resquícios até anos oitenta. Porém, uma nova cultura chegava, e com ela vimos um certo renascer do blaxploitation. Dessa, por nossos ouvidos.

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Com a cultura hip -hop já estabelecida, e a tecnologia para a produção evoluindo cada vez mais, os rappers dos anos oitenta e noventa foram trazendo inúmeras referências ao blaxploitation em seus atos. A rapper Foxy Brown se chama assim por causa da personagem de Pam Grier no filme homônimo de 1974. Notorious B.I.G. se apelidava de Biggie Smalls por causa do personagem no filme Let’s Do It Again de 1975. Aliás, a persona de cafetão sempre povoou o Rap, certo? Influência do blaxploitation! Principalmente por causa de filmes como Willie Dynamite e Super Fly. É claro que o pai de tudo isso é o cafetão da vida real, Iceberg Slim, que em 1967 lançou o seu livro Pimp: The Story of My Life, e acabou influenciando os filmes e a música (fun fact: Biggie queria formar um grupo chamado The Commission antes de morrer, no grupo Jay Z usava a alcunha de Iceberg Slim).

Além do comportamento difundido pelo blaxploitation que foi adotado pelos rappers, a música também teve grande influência. Até hoje, produtores dissecam as trilha sonoras desses filmes atrás de samples. Clássicos de rap montados com clássicos do soul, funk, R&B, que acompanharam caras como Ron O’Neal em seu Caddilac Eldorado 1971 foram surgindo. E já que falamos de Ron O’Neal, o Youngblood Priest de Super Fly, vamos falar dos samples retirados de faixas da soundtrack. Pusherman de Curtis Mayfield foi muito usada. Em 1988, Ice-T, que foi um dos caras a incorporarem a persona de pimp, lançou o disco Power (aquele da belíssima capa). Nele reside a faixa I’m Your Pusher, um clássico sobre vender música em vez de droga. A faixa contém múltiplos elementos, incluindo vocais de Curtis Mayfield. Ouça abaixo duas faixas.

Outras faixas usaram também samples de Pusherman – dá uma olhadinha aqui no link. Passando por outras icônicas faixas dos filmes de blaxploitation, podemos falar do tema principal de Shaft com seus hi-hats e os vocais de Isaac Hayes. Quando se fala de Shaft, logo me vem essa música na cabeça. Ela tem uma quantidade grande samples por grandes rappers. Em 1998, Jigga usou vários elementos dela para a ótima Reservoir Dogs. A faixa com referência clara à um dos maiores fãs do gênero, Quentin Tarantino, usa múltiplos elementos da música de Isaac Hayes.

A recente 40th Street Black / We Will Fight do Wu-Tang, usa alguns elementos da faixa. Confira. O pessoal do Wu-Tang, é mais famoso por samples de filmes de kung-fu setentistas, que não deixam muitas vezes de serem um estilo de exploitation também. Mas existem exceções nos samples, afinal, RZA realmente garimpa discos. Little Ghetto Boy de Donny Hathaway e que está no filme Come Back, Charleston Blue, ganha espaço com seus vocais na faixa Little Ghetto Boys do grupo. The Boss, da soundtrack que James Brown fez para o filme Black Caesar é outra que ganhou bastante popularidade quando se trata de samples. The Boss é sampleada por Nas na faixa Get Down, de 2002. Na mesma soundtrack, temos Blind Man Can See It, que tem múltiplos instrumentos em They Want EFX, clássico do grupo Das EFX de 1992.

Porém usar samples de blaxploitation não é exclusividade da velha escola. Rick Ross usou duas vezes o sample de Give Me Your Love (Love Song) de Curtis Mayfeld: uma na faixa That Way, com Wale e Jeremih, que fez parte do disco Self Made Vol. 1 e em Ashes to Ashes, da mixtape de mesmo nome. Porém as duas faixas contém elementos diferentes.

Algo que me chama a atenção no uso desses tipos de samples, é que eles parecem estar banhados em uma fonte da juventude, atravessando tempo e sendo usados por artistas de diversas gerações. Esse é o caso de Brother’s Gonna Work It Out, de Willie Hutch. Parte integrante da trilha composta por Hutch para o filme The Mack, a faixa foi usada de sample para Dr. Dre, Chance the Rapper e até Chief Keef. Dre a usou em Rat-Tat-Tat-Tat, do clássico The Chronic. Já Chance, a usou em Lost, da sua aclamada Acid Rap. E no ano passado, Kanye West deu uma nova cara a faixa ao colocar ela como sample principal da faixa Nobody, de Chief Keef.

Poderíamos fazer uma longa série de posts sobre isso – porém para isso temos o Sample do Dia -, mas é bom ser objetivo. Quis mostrar como esse gênero de filmes marcou não só uma, mas como duas gerações. De primeiro, eram vistos como filmes baratos e exagerados, porém, que serviram de influência para uma bela quantidade de artistas dentro do Hip-Hop. Como Tarantino já disse, a cultura do blaxploitation dentro do Hip-Hop se deve muito pela a relação que os filmes tem com as experiências dos artistas. Ou você acha que caras como Ice T e Snoop Dogg, que sempre mostraram apreço por esse tipo de filme, não conheceram camaradas pelo menos um pouco parecidos com Youngblood Priest de Super Fly?

“The Mack é um dos meus filmes favoritos. Eu olho para (Julien) como meu padrinho. Algo sobre esse filme, sua ascensão, a sua luta, as coisas em que ele colocou sua família. Eu sempre fui apaixonado por Goldie eu queria ser charmoso e encantador para mulherada, e saber o que dizer”.

“Eu sempre assisti filmes blaxploitation e os meus heróis são caras como Jim Brown e Fred “The Hammer” Williamson e é isso que me fez querer ser uma parte da parada. Eu sou para baixo como The Hammer, porque ele é um gênio. Um monte de gente não sabe disso, mas ele é. Quando estávamos no set de Starksy e Hutch, ele me disse três fatos sobre sua carreira no cinema. Ele sempre vencia suas lutas, nunca morria e fica com a garota no no final, se ele quisesse ela.”

— Snoop Dogg

O blaxploitation ajudou bastante a acabar com o preconceito racial dentro da indústria do cinema, mesmo que ela ainda continua dando seus passos errados sobre isso. Burn Hollywood Burn, a qual postei uma linha no inicio do post, fala sobre isso. Como Hollywood trata os negros, e sobre como eles preferem ver blaxploitation. O exploitation em geral era bastante exagerado, mas não deixa de ter suas doses de realidade. E talvez por isso agradou muita gente, pois eles se assemelhavam com muita coisa. É um gênero divertido, contém pérolas ridículas, e diamantes. De certa forma, abriu caminho para muita coisa quando se trata de cinema. No Rap, tem o mesmo efeito de Scarface – como já escrevi no blog -, que é reverenciado por rappers há muito tempo. Finalizo o post dando play em I Choose You de Willie Hutch, que foi usada pelo Outkast, UGK e Three Six Mafia na faixa International Players Anthem (I Choose You).

Notas: – Caso queiram se aprofundar no blaxploitation, assista alguns filmes citados no post e nessa lista; – Usei faixas que tiveram mais significados por causa de seus filmes, então, alguns clássicos podem ter ficado de fora. O WhoSampled tem uma tag só para o blaxploitation, você pode conferir clicando aqui – de nada produtores; – Caso você não queira assistir todos os filmes citados, assista Black Dynamite de 2009, que é uma ótima homenagem ao gênero; – Dá um confere também nesses posters de filmes do gênero misturado com o Hip Hop; – Ah, esse link também é legal.

3 Respostas para “O blaxploitation e o Hip Hop

  1. Ótimo Post, muitas pessoas não conhecem essas influências! Eu mesmo comecei a ouvir Funk, Soul e Jazz por causa do Rap.

    Sugestão de matéria: falar sobre o disco Doo Bop do Miles Davis que também foi produzido pelo Easy Mo Bee e teve grande influência no Jazz Rap.

    Abs,
    Paulo – N.S.T.V

  2. Pingback: O envolvimento de Miles Davis com o Hip Hop | Raplogia·

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