Immortal Technique, Ícaro e o ‘poder’ como gerador da autodestruição

Na história do Hip-Hop tivemos narrativas musicais que certamente nos fizeram ter a cabeça explodida, causando um espanto imediato e desestabilizando totalmente nossa sensorialidade, dentre tantas músicas, há uma faixa em especial que se destacou pela fusão da genialidade com um conteúdo extremamente forte e polêmico. Estamos falando da clássica ‘Dance With The Devil’, um storytelling perfeito em termos de estrutura dramática (com personagens, ambientação e progressão do enredo com clímax e desfecho), em que Immortal Technique explora o elemento do ‘poder’ como gerador da autodestruição, nos fazendo lembrar o cerne de uma história específica da Mitologia Greco-Romana: ‘As Asas de Ícaro’.

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No mito em questão, Ícaro e seu pai Dédalo se veem presos no labirinto de Creta, encomenda que o rei Minos fizera ao próprio Dédalo para exterminar o Minotauro, flagelo da cidade. O Minotauro é derrotado, mas Dédalo acaba caindo em desgraça com o rei, pois fornecera à princesa Ariadne o fio que ela entregou a Teseu e o qual este usou para fugir do labirinto após ter matado o Minotauro. O rei Minos, que não esperava que Teseu derrotasse o monstro, passou a ver Dédalo como traidor e o fez provar, junto com o filho Ícaro, um pouco do seu próprio remédio.

Dédalo, que era um homem de grande inteligência e poder inventivo, certa vez enquanto contemplava o céu obteve uma ideia de como sair do labirinto junto com seu filho. Então, ele solicitou ao filho que buscasse suas ferramentas, enquanto isso, Dédalo aparecia com os braços repletos de penas de aves, que ele abatera com sua extrema eficiência de caçador. Ícaro observou seu pai serrando pedaços de madeira e construindo uma espécie de esqueleto de asas e colando as penas na armação. No mesmo momento Ícaro entendeu o plano de seu pai, e ajudou ele a colocar a armação de asas nas costas, a ideia dá certo, Dédalo vê seus pés erguendo-se do chão. Depois disso, os dois constroem a segunda armação de asas.

O plano parecia perfeito e a liberdade já não era um sonho distante, mas sim algo que estava prestes a se realizar, porém Dédalo chama a atenção para que o filho não voe muito alto e procure tomar certa distância do Sol, já que o calor poderia derreter a cera que prendia as penas na armação. Após muitos treinos e a realização do aperfeiçoamento das asas, pai e filho decidem partir. Os dois lançam-se ao ar, batendo os braços de maneira ritmada, abaixo deles está o mar que espuma, chocando-se violentamente contra os recifes que pontilham toda a costa. “– Não se esqueça do Sol!” – Alerta Dédalo, ao ver o filho se distanciando e subindo cada vez mais alto.

O jovem muito distante planava nas alturas, seu pai o perdera de vista, sua pele refletia um tom dourado e parecia que ele era o próprio filho do Sol. Enquanto agitava as asas, percebeu que uma pena roçou-lhe o nariz, mas ele continuava a voar cada vez mais alto e para perto do Sol, o jovem se sentia extremamente poderoso, capaz de tudo, mas de repente ele percebeu que um grande número de penas espalhava-se ao seu redor, como se um travesseiro tivesse sido rasgado e esvaziado de todo seu conteúdo. Grossos fios de cera derretida escorriam pelas armações, alcançando os seus braços. A estrutura das asas se desfazia, e o desespero batia em Ícaro, consequentemente não houve mais nada que pudesse fazer, o jovem acabou tendo um fim trágico. Dédalo vagava pelo céu, longe do sol, tentando achar o filho, até que finalmente avistou sobre as ondas algumas penas. Sobrevoando mais um pouco sob o local, ele acabou achando o corpo do filho às margens de uma praia. Depois de tomá-lo nos braços, ficou abraçado ao seu corpo. E com o coração despedaçado, como as asas de Ícaro, Dédalo enterrou o filho no local encontrado, esse mesmo lugar que passou a se chamar Icária em sua homenagem.

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Em ‘Dance With The Devil’, o narrador conta a história de um sujeito que conheceu, chamado William, cujo seu maior objetivo era o de ser um homem poderoso, repleto de dinheiro, bens materiais, sendo reconhecido por seus atos de crueldade, causando temor e ao mesmo tempo admiração e respeito nos demais. Em certa situação em que foi preso, William acaba delatando nomes, consequentemente sua reputação cai no cenário do crime, porém sua ânsia pelo poder e fama eram tão grandes, que ele seria capaz de fazer qualquer coisa para recuperar a confiança dos outros criminosos e atingir o status que tanto sonhava. Immortal Technique evidencia esse forte elemento que consome William nas seguintes linhas: “Ele precisava de fama como viciados precisam de agulhas e cachimbos/ Sentia que tinha que provar para todos que era terrível”.

Na introdução da segunda parte da narrativa musical, conhecemos o codinome pelo qual William é conhecido nas ruas, Billy. A revelação do codinome é feita de forma a evidenciar aos ouvintes a importância que há nesse apelido, sendo que William deixa de existir, o lado emocional e humano é deixado de lado, dando vez a sua parte criminosa, Billy, passando a agir de forma fria e estratégica dentro do cenário da violência, já que o personagem entende que essa é a única maneira de conseguir o poder que tanto cobiça.

Em certo momento, alguns criminosos perguntam a Billy se ele aceitaria cometer um estupro, só dessa forma aceitariam integrá-lo no negócio de vendas de cocaína. Billy aceita e segue com os outros na madrugada a fim de capturar uma mulher, eles escolhem uma vítima a esmo e consequentemente cobrem seu rosto com uma camisa, carregam a mulher até o telhado de um prédio, então, eles a espancam e estupram. Após o crime ser feito, mais um teste é realizado ao Billy, dessa vez, ele terá que executar a vítima. Billy pega a arma na mão e aponta para mulher, mas antes ele retira a camisa que cobre seu rosto, é então que o terror atinge em cheio o personagem, já que Billy reconhece na vítima o rosto de sua mãe, somente nesse momento, que o personagem parece cair em si, sendo que todo seu passado e a vivência que teve com sua mãe é revivida em sua mente através de flashback. Mãe e filho se entreolham e choram copiosamente, Billy finalmente percebe a barbaridade que cometeu e acaba se jogando do prédio, morrendo sem alma.  O destino da mulher acaba sendo o da morte, já que os criminosos não queriam uma vítima/testemunha à solta nas ruas.

Tanto no mito ‘As Asas de Ícaro’ como também na música ‘Dance With The Devil’ temos personagens que são inebriados pelo poder. É interessante notar o modo como o lado racional dos protagonistas é totalmente tomado pelo deslumbramento (Ícaro sentindo-se poderoso com suas asas, voando cada vez mais alto e para perto do Sol como se fosse intocável, esquecendo totalmente dos conselhos de seu pai / William entrando para o mundo do crime para conseguir respeito nas ruas, sendo capaz de cometer qualquer atrocidade para ter o gosto do poder em suas mãos). Definitivamente eles se sentem seres intocáveis, se veem como Deuses, como donos do mundo capazes de fazer qualquer coisa, e por fim, o elemento do ‘poder’ acaba enveredando eles ao fim trágico de suas vidas.

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