NAS, Peter Carnavas e a abordagem de um dos temas mais complexos

Falar sobre a morte é certamente uma das coisas mais difíceis de fazer, desde conversar com alguém sobre um ente ou amigo querido que já partiu, e até mesmo reviver os últimos momentos que você passou com a pessoa. Talvez o momento mais complexo seja o dia do velório, o verdadeiro enfrentamento, a hora em que você se depara com alguém que sempre esteve ao seu lado, dentro de um caixão, então ocorre à despedida final, você se aproxima e toca pela última vez na mão da pessoa e depois lhe faz um carinho no cabelo. São poucos segundos, mas que você os levará pelo resto de sua vida, algo assim fica cravado na memória. É exatamente depois do último carinho dado que as lágrimas correm como um oceano, ficar de pé nessas horas é praticamente impossível, você simplesmente desaba num banco próximo com as mãos cobrindo seu rosto, tentando conter as lágrimas. Alguém toca no seu ombro e te chama para carregar o caixão, mas você apenas balança a cabeça em forma de negativa e diz que não está bem, pede desculpas e afirma que realmente não possui condições para esta última missão.  É preciso retomar as forças para se levantar e você consegue, então numa última caminhada acompanha-se amigos e familiares para levar uma das pessoas mais importantes de sua vida até seu respectivo jazigo, e enquanto se segue essa marcha lenta,  milhares de momentos vivenciados no passado surgem em sua mente, até mesmo o perfume da pessoa pode ser sentido,  o calor dos abraços e beijos também é revivido, e por fim, só resta dar força aos seus demais entes queridos que também estão sofrendo.

Mesmo após dias, meses e anos da perda, ainda sim parece que ela não é real, é extremamente difícil se conformar com o vazio deixado, mas ainda se tem as memórias, são nelas que nos agarramos para preencher um pouco desse desconforto, do vazio. Ao mesmo tempo retornar no tempo te traz uma profunda dor, fazer essa viagem é como se a confirmação da perda se concretizasse cada vez mais. É estranho dizer, mas essa ilusão, essa espécie de bolha que você insiste em habitar, te impede de enfrentar a morte de alguém querido. Enfim, todos esses pensamentos e situação definitivamente dependem de pessoa para pessoa, mas provavelmente muitos deles já foram vivenciados pela maioria daqueles que já enfrentaram uma perda em sua vida.

Nessa matéria, pretendo falar sobre dois mestres em suas respectivas artes, Peter Carnavas na Literatura Infantil e Nas no Rap, que abordaram com uma sensibilidade ímpar um dos temas mais complexos de se trabalhar, o enfrentamento da morte de um ente querido.

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Peter Carnavas é certamente um dos melhores escritores de Literatura Infantil, seu olhar sempre se concentrou primeiramente na evolução do gênero literário, ao contrário de tantos outros autores que pensam apenas em questões mercadológicas, utilizando de fórmulas/estruturas narrativas e também temas já conhecidos e que deram “certo”, desse modo, eles e suas respectivas editoras alcançam grandes números de vendas, porém ao mesmo tempo não ajudam em nada para que a Literatura Infantil atinja novos patamares de Arte, sem contar o fato de que após a leitura de tais obras, surge apenas um pensamento na cabeça do leitor assíduo: déjà vu.

Carnavas tem o dom de enxergar poesia nas pequenas coisas da vida e expande isso ao máximo, trazendo para suas obras temas que aos olhos de muitos outros ‘escritores’ passaria totalmente despercebido.  Quem já leu ‘A Caixa de Jéssica’ sabe do que estou falando, afinal falar sobre o primeiro dia de aula de uma criança e explorar do modo como ele fez todos os conflitos internos da menina é para poucos, para realizar um mergulho desses no âmago de um personagem é necessário uma técnica apurada por parte do autor, e isso é uma das grandes habilidades de Peter, a de deflorar a alma de seus personagens e mostrar os mais profundos sentimentos que lhes impregnam, consequentemente causando uma empatia imediata no leitor, afinal temos personagens longe de serem unidimensionais, assim, temos a oportunidade de conhecê-los em sua totalidade.

O autor australiano teve seu nome consolidado de vez como alguém diferenciado através da obra “Coisas importantes”, que trata sobre a perda de um ente querido e como os familiares tentam seguir com suas vidas, cada um lidando da sua própria forma, uns tentam esquecer e se desapegar das lembranças, para que a saudade e a dor da perda não sufoque a alma, enquanto outros se agarram aos objetos deixados pela pessoa que partiu, tentando fazer com que os objetos físicos mantenham sempre viva a imagem da pessoa na memória. A obra literária é, acima de tudo, uma história sensível e reveladora sobre como as pessoas têm diferentes modos de lidar com a perda, sendo que as motivações dos personagens são tão bem construídas que o leitor entende e compartilha da dor de cada um deles, de seus respectivos conflitos, anseios e emoções.

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No rap ‘Dance’, Nas realiza um mergulho em seu âmago para extrair todos os sentimentos interiorizados, como por exemplo, melancolia, saudade, tristeza, dor, desolação etc. As rimas são tão bem construídas que se torna impossível para o ouvinte não se emocionar e compartilhar de todos os sentimentos que essa narrativa musical emana. O próprio Jungle (irmão de Nas) já revelou em uma entrevista a dificuldade que tem em ouvir o som, afirmando que já tentou, mas acaba sempre desligando, pois sabe que no fim ele simplesmente desabaria, devido à dor da saudade.     

A voz de Nas é regada por grande melancolia e a cada verso percorrido o ouvinte entende o quanto sua mãe era importante para ele, o quanto seu caráter foi construído através da educação de uma mulher guerreira que criou dois filhos, sozinha. É possível notar todas essas características nas seguintes rimas: “Pensando em como ela era incrível, um anjo que me deu amor/ Eu sou grato por ter conhecido uma mulher tão verdadeira / Eu oro para que quando eu casar, minha mulher tenha uma de suas habilidades/ Mas mãe, você nunca poderia ser substituída/ Eu daria minha vida, só para te ver mais um dia, para ter…/Só mais uma dança com você, mamãe”.

‘Dance’ explora de modo sutil os pequenos gestos compartilhados entre mãe e filho e que após a separação de ambos pela ocorrência da morte, surge uma saudade que corrói o ser humano e apresenta toda sua fragilidade diante desse vazio. E é nas lembranças que o rapper Nas se agarra para poder continuar com sua vida. A canção funciona como um retrato que é mantido no coração de alguém que enfrenta uma das piores situações da vida, o fato de perder um ente querido e ter de se erguer num mar profundo de solidão.

A música é certamente uma bela homenagem de Nas para sua mãe, além disso, o artista explorou perfeitamente suas fragilidades como ser humano, algo que muitos mc’s preferem não se arriscar com medo de afetar suas respectivas imagens de “homens durões” e outros simplesmente não possuem talento para tais composições, mas é justamente por ser diferenciado e ter uma mentalidade mais aberta que o rapper de Queensbridge explora uma vertente tão reveladora e introspectiva, e o resultado se dá através das lágrimas que ficam difíceis de segurar após escutar ‘Dance’.

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