Dee Barnes fala sobre Straight Outta Compton

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Quem já ouviu a colaboração entre Eminem e Dr. Dre do primeiro disco do rapper de Detroit, intitulada Guilty Conscience, já deve ter ouvido o nome “Dee Barnes”. Muitos não viveram a época em que ela apresentava o programa Pump It Up! na Fox, e só conheceram ela pela referência solta por Eminem na faixa. Pois bem, Dee Barnes se trata de uma apresentadora de TV que foi fisicamente agredida por Dr. Dre em 1991, em um acontecimento que marcou a carreira de ambos.

Em convite do site Gawker, a jornalista aceitou assistir o filme Straight Outta Compton, que conta a história do grupo de Compton, passando por seu sucesso, queda, suas desavenças, e destino final de algum dos membros. Dee Barnes não está no filme, não é nem mesmo mencionada. Após assistir ao filme ela escreveu o artigo “O que falta em Straight Outta Compton” para o site, onde contou sua experiência com o grupo antes e após o ocorrido. O Raplogia traz algumas partes do artigo traduzidos na íntegra:

“Eu nunca passei por abuso policial até eu me mudar para a Califórnia nos anos 80. A primeira vez que aconteceu, eu tinha recém saído de uma festa que havia terminado em tiroteios. Um policial me parou e mandou sair do carro. Eu tinha 19 anos, eu era ingênua e estava sem calçados. Quando eu me movimentei para pegar meus sapatos, o policial ficou agressivo. Ele me agarrou porque ele achou que eu ia pegar uma arma. Tive sorte por ele não atirar em mim. Ali estava eu, com a cara no chão e o joelho dele nas minhas costas. Em Junho, eu lembrei o que houve comigo quando eu assisti o vídeo de um policial chamado Eric Casebolt abusar fisicamente de uma garota de quinze anos fora de uma piscina comunitária em Craig Ranch, no Texas, batendo o corpo dela no chão e com o joelho nas costas.

Três anos depois – em 1991 – eu iria experimentar algo parecido, mas dessa vez o joelho estava no meu peito. E o joelho não pertencia a um policial, mas a Andre Young, o produtor/rapper conhecido como Dr. Dre. Quando eu vi o vídeo do policial rodoviário Daniel Andrew batendo violentamente em Marlene Pinnock em plena luz do dia em uma rodovia movimentada no ano passado, eu me encolhi. Deve ter sido como olhar Dr. Dre em cima de mim e me batendo sem piedade no chão do banheiro feminino do clube Po Na Na Souk em 1991.

Esse evento não é retratado em Straight Outta Compton, mas eu não acho que deveria ter sido. A verdade é muito feia para a audiência. Eu não queria ver um retrato de mim sendo agredida, como eu não gostaria de ver retratado Dre batendo em Michel’le, sua namorada na época que havia terminado o relacionamento deles por “cansar de ser a namorada que apanhava e era mandada calar a boca.”

Mas o que me ocorreu quando eu estava sentada lá no cinema, e tendo a linha do tempo ignorando o meu ataque sem pestanejar, eu fiquei sem saber o que aconteceu. Assim como muitas das mulheres que conheceram ou trabalharam para o N.W.A., eu me encontrei em um acidente de história revisionista de Straight Outta Compton.”

Mas por que Dr. Dre atacou Dee Barnes? Em 1991 a treta entre Ice Cube e o resto do N.W.A. estava pegando fogo, e em uma entrevista feita por Barnes no set de Boyz N The Hood, Ice Cube ataca o grupo de forma bastante explícita. Os ataques foram ao ar no programa Pump It Up. Dr. Dre não gostou. Parte da entrevista de Cube no programa de Barnes está abaixo, porém, a parte em que ela e o rapper dão indiretas ao grupo não estão no vídeo.

“Eu conheci os caras do N.W.A. anos antes deles estourarem. Conheci Andre (maravilhosamente interpretado por Corey Hawkins no filme) quando ele vivia com o seu primo Jinx, que depois me apresentaria a O’Shea Jackson aka Ice Cube. Eu estava na casa do Lonzo quando Andre e Antoine Carraby aka Yella, estavam no World Class Wreckin’ Cru. Eu trabalhava na rádio KDAY com Greg Mack. Depois, quando eles estavam trabalhando no disco N.W.A. and the Posse, eu iria conhecer MC Ren e Arabian Prince. Foi no estúdio do Lonzo que eu e minha amiga Rose Hutchinson formamos o grupo Body and Soul. Gastamos incontáveis horas na casa do Lonzo e no estúdio dele gravando a nossa demo produzida por Dr. Dre e DJ Pooh. Foi lá onde eu conheci Eric Wright, aka Eazy E. Esses caras se transformaram em meus irmãos.

Eu não estava no estúdio para ouvi-los gravar as nojentas e misóginas músicas como A Bitch Iz a Bitch, Findum, Fuckum & Flee, One Less Bitch, e a mais ofensiva, She Swallowed. Nessa faixa MC Ren narra sobre estar abusando de uma garota de 14 anos: Caralho! É a filha do pastor! / E ela só tem 14 anos e é uma vadia / Mas a mina chupa como uma profissional”. Eu ouvi o material como qualquer um, quando eu estava ouvindo o disco, e eu fiquei chocada. Talvez esse era o ponto de vista deles, talvez eles só estavam dizendo aquilo para chocar. Sempre teve outras garotas em volta deles, como Michel’le e Rose, e elas nunca ouviram eles falando assim. Nunca ouvimos eles falando coisas como, “Vadia, vem cá e me chupa.” Na mente deles, apenas algumas minas eram “daquele tipo” e nós nunca nos apresentamos assim para eles, então, nunca dei razão para eles me chamar de algo[…]

Foi tão cáustico quando Dre estava tentando me enforcar no banheiro feminino do Po Na Na Souk, que um pensamento passou pela minha cabeça. “Meu Deus, ele está tentando me matar.” Ele me trancou no banheiro e segurou a porta com a perna dele. Foi surreal. “Isso está acontecendo?” eu pensei.”

Em entrevistas os companheiros de grupo de Dre na época falaram sobre o incidente, porém, não mostraram o mínimo de constrangimento pelo ato do seu colega. “Ela mereceu,” disse MC Ren em uma entrevista. Dee Barnes processou Dre em 22.75 milhões de dólares, mas o caso foi arquivado. De acordo com um artigo no Newsweek, ela apenas o processou depois ter oferecido o seguinte acordo: não prestar queixa sobre a agressão em troca de um projeto produzido por Dr. Dre, que negou a oferta.

 No artigo para a Gawker, Dee Barnes vai muito mais fundo. Fala até sobre a relação do diretor do filme Straight Outta Compton no caso. Gary Gray era câmera do programa Pump It Up! e nunca falou sobre o caso. Em entrevistas para o filme, o diretor procurou se desviar de perguntas sobre o caso. Para Barnes tamanha esquiva se dá ao fato dele ficar desconfortável em contar a sua versão do caso. Ela ainda fala sobre os ataques físicos de Dr. Dre a outras mulheres que o cercavam, como a rapper Tairrie B – protegida de Eazy E na época -, a qual Dre agrediu em uma festa do Grammy e também a sua namorada na época e já citada em nossa matéria, Michel’le. Recentemente em entrevista a Rolling Stone, Dr. Dre admitiu o ocorrido e pediu desculpas.

Para ler o artigo por inteiro – em inglês – clique aqui. Straight Outta Compton é o filme com maior bilheteria nos EUA desde a última semana, faturando até agora cerca de 60 milhões de dólares.

3 Respostas para “Dee Barnes fala sobre Straight Outta Compton

  1. Sem entrar no mérito moral -de certo e errado- acho bacana essa diferença de discurso que muda de país para país. Tipo pegar NWA ou 2 Live Crew, Racionais e Orishas. Abordam a mesma temática no caso, falando de mulheres… E ainda há os que querem enquadrar o rap dentro de regras, não entendo. O discurso é livre e plural! Rap é lindo! haha ❤
    Só não entendi essa linha: "De acordo com um artigo no Newsweek, ela apenas o processou após oferecer não prestar queixa em troca de um disco produzido por Dre, coisa que ele negou." Quem ofereceu não prestar queixa por conta do quê? rs

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