O Brasil, segundo os Racionais

Como o maior grupo de rap explica o contexto histórico social do país das últimas duas décadas e o seu legado

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Nasci na década de 90, não tenho uma idade avançada, mas, ao ouvir o último cd dos Racionais, Cores e Valores, foi impossível não fazer a associação com o nosso país e a trajetória do grupo no hip hop nacional. Em muitos momentos, ambas as narrativas e misturam e se confundem e mostram o quão importante é resgatarmos e preservarmos a nossa identidade enquanto país. De Nada Como Um Dia Após O Outro até Cores e Valores muita coisa mudou. Porém, o racismo e a discriminação contra os pobres prevalecem no Brasil. Isso se reflete nas músicas de ambos os álbuns como mostraremos a seguir.

Quem nasceu e viveu a época de 90 pegou um momento conturbado do nosso país. Era comum ouvir a expressão “país de terceiro mundo”. Era o que vivenciamos e o que sentíamos enquanto brasileiros e repetíamos essa frase que ainda ecoa pelos prédios das nossas universidades, mesmo que hoje a inserção de negros e pardos na academia seja muito maior do que há dez anos atrás. O cenário desolador, de estarmos à deriva e jogados a nossa sorte é o que dá o tom nos trabalhos dos Racionais entre 1990 e 2002. O sentimento de depender do destino era ainda maior por retratar a realidade da juventude negra, que, ano após ano, é exterminada nas favelas pela Polícia Militar, independente do Estado.

Músicas como Nego Drama Vida Loka II deixam muito claro isso. Se hoje há uma nova reconfiguração na sociedade brasileira, o racismo velado ainda existe e não irá acabar. Embora os programas sociais tenham dado oportunidade àqueles que nunca tiveram, uma grande parcela do povo brasileiro ainda vê o negro como um intruso, como alguém subalterno. Nas letras das mesmas músicas, a ostentação, que ganhou outros significado com a cena funk, pode ser vista como uma espécie de resposta ao preconceito.

Preto e dinheiro, são palavras rivais?
Então mostra pra esses cu como é que faz

A mesma ostentação que está presente em Cores e Valores, que pode não agradar pelo senso estético musical, mas que ainda traz a mesma mensagem da década passada.

O que todos almejam é patrimônio e riqueza
Pro favela é proeza, ostentar a nobreza
Viajar, conforto, tem que ser primeira classe!
Hotel cinco estrelas em Miami na night gastar
Os nego quer algo mais do que um barraco pra dormir
Os nego quer não só viver de aparência
Quer ter roupa, quer ter joia e se incluir
Quer ter euro, quer ter dólar e usufruir

As letras mostram e explicam uma realidade jovem no Brasil. A classe trabalhadora e os mais pobres ganharam espaço, tiveram acesso a bens materiais, como roupas, dispositivos tecnológicos, mas não aos bens sociais fundamentais, como saúde, segurança, educação de qualidade libertadora. Ou seja, os negros continuam na favela, à merce da piedade do Estado que promove o extermínio da juventude negra. O acesso precário aos bens sociais não permitiu um avanço na discussão sobre o racismo, sobre a violência dos órgãos de segurança do Estado e da melhoria de verdade na vida dos mesmos.

Entra na loja, ver uma nave zera e dizer
“Eu quero, eu compro e sem desconto! ”
À vista, mesmo podendo pagar
Tenha certeza que vão desconfiar
Pois o racismo é disfarçado há muito séculos
Não aceita o seu status e sua cor

Nos últimos 13 anos o país é governado por um governo popular, que, embora tenha boas intenções, não rompeu com as elites e não promoveu reformas estruturais que permitissem algo além de uma melhora na renda da classe trabalhadora e a inclusão de pobres e negros nas universidades. Não rompeu com o pragmatismo que existe na classe política e não procurou construir políticas permanentes de melhoria de vida do nosso povo. Por isso, algum tempo atrás falávamos das UPPs, no Rio de Janeiro e das chacinas (a mais recente aconteceu no mês passado), onde 19 pessoas da periferia foram mortas. Acredito que os integrantes do Racionais compartilham a visão de que, embora muita coisa tenha mudado, os negros ainda estão à deriva da própria sorte e das decisões do Estado.

Ainda que não tenha gostado das batidas e do ritmo da maioria das músicas do último projeto Cores e Valores, Mano Brown e cia mantém a mesma linha, a mesma conduta e pensamento, embora a musicalidade tenha mudado. Desde que ouvi pela primeira vez e vi as primeiras críticas, estive pensando sobre o que, de fato, acho do cd. Ainda que não se compare com Sobrevivendo no Inferno ou Nada Como Um Dia…, preste bem atenção ao que os Racionais dizem.

Por fim, quero dizer que, caso venha a ofender alguma pessoa com este texto, peço minhas desculpas desde já e aviso que não havia intenção alguma de fazer isso.

4 Respostas para “O Brasil, segundo os Racionais

    • Opa! Corrigi esse trecho. Na verdade, o que queria dizer era que, o não acesso aos bens sociais não permitiram a inclusão de negros e pobres a outra classe. Ou seja, houve um estilo muito grande ao consumo, por conta do aumento de renda, mas não houve conscientização sobre como este dinheiro poderia beneficiá-los se investidos em bens sociais. Por isso, hoje há um número muito maior de pessoas com dívidas e também que optaram pela compra destes bens materiais e não no investimento em saúde, educação de qualidade e etc.

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