Raplogia Entrevista: Yzalú

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O RAPLOGIA traz para vocês leitores a entrevista que fizemos com Yzalú, cantora/intérprete natural de São Bernardo do Campo, que sempre se preocupou em mostrar e prestar reverência à suas influências musicais, aos pioneiros do rap nacional que servem como inspiração na sua caminhada. Sabotage, Facção Central, Dexter, Racionais são alguns dos pilares na construção dessa artista musical, que inclusive ganhou muito do seu respeito através das versões que fez de inúmeros clássicos do rap nacional, trabalho realizado com seu fiel companheiro, o violão. A ideia de colocar os vídeos no youtube veio do irmão de Yzalú, a partir dessa iniciativa, o rap nacional ganharia mais um grande nome para seu fortalecimento.  Muitos ouvintes conheceram o trabalho de Yzalú há poucos anos atrás, mas sua caminhada é de longa data, afinal ela compõe desde os 16 anos de idade, sendo que sua paixão pela música é influência direta de sua mãe, como ela mesma já revelou em uma das entrevistas que concedeu: “meu interesse pela música surgiu através dos vinis que minha mãe tinha em casa, enquanto ela saia para trabalhar eu ficava fuçando, tinha muita coisa, eu me lembro, desde Bezerra da Silva a Djavan. O primeiro vinil que coloquei para tocar foi ‘Dignidade’ da Leci Brandão”.

Após muito trabalho, tendo cantado em muitos bares de Sampa, em 2008 recebeu convite do DJ Bola (Grupo Realidade Cruel) e teve a oportunidade de tocar no show de lançamento da sua mixtape, lá tocou antes do Facção Central a música ‘Um Bom Lugar’ do Sabotage, um dia certamente marcante tanto para Yzalú como também para os ouvintes, que naquele momento imaginavam o quanto seria bom se Yzalú presenteasse os fãs com seu álbum, e finalmente chegou o momento que todos aguardavam, afinal nesse ano está pra sair ‘Minha Bossa é Treta’ – álbum de estreia da artista musical, sendo que após o som ‘É o Rap Tio’ sair para as ruas,  a ansiedade dos ouvintes pelo álbum só aumentou. Enfim, vamos à troca de ideias que tivemos com a Yzalú!

1- Yzalú, primeiramente gostaríamos de saber quem são suas influências na música e também como foi seu primeiro contato com o Rap?

R: Eu escuto bastante coisa, muita música brasileira desde Doces Bárbaros, passando por Milton Nascimento, Marisa Monte, Novos Baianos, indo a Clementina, Jovelina, Dona Ivone Lara, Zeca, Zé Ramalho, Raul, Racionais, Facção, Realidade Cruel, C.H, e por aí vai, a lista é extensa rsrsrs! Ainda pequena me lembro da minha mãe cantando o Melô da Largatixa do Ndee Naldinho, “Ó a largatixa na parede, ó a largatixa, ó a largatixa, ó a largatixa na parede”, e das festas na minha vó, todos meus tios e tias dançavam e cantavam muito essa música, rsrsrs, eu adorava tudo aquilo! Mas ainda não entendia que era rap! Depois mais jovem foi nas rádios que me possibilitou um contato maior com o gênero pois, onde eu morava a TV não pegava bem, MTV nem pensar, então a rádio foi a minha informação em relação ao que tava acontecendo na música em geral. E no final de 2002 conheci as meninas do grupo Essência Black e foi lá que a minha história na caminhada do Rap começou.

2- Muitas pessoas têm todo um ritual para compor, algumas só escrevem escutando música e outras precisam de silêncio absoluto, sem contar o fato de que há pessoas que têm até mesmo um período do dia favorito pra escrever. Você poderia nos confessar se você tem seu ritual para compor? Também temos a curiosidade pra saber como ocorre a fusão da escrita com a melodia no violão no seu processo de trabalho? Você os constrói simultaneamente ou em tempos diferentes?

R: O meu ritual é o silêncio, despretensiosamente, sem forçar nada entende? Tocando o violão e parafraseando até encontrar uma melodia interessante. Quando acho a melodia interessante, eu gravo senão esqueço, rsrs! Depois construo a poesia em cima de um tema que combine com a melodia que fiz. No entanto, tenho composições que saíram simultaneamente, #ÉoRapTio foi simultaneamente por exemplo, mas não é comum isto acontecer, rss!

3- Nesse ano está programado para sair seu álbum, poderia revelar sobre o pessoal que está envolvido em ‘Minha Bossa é Treta’, como por exemplo, produtores, artistas convidados, os responsáveis pela mixagem, pelos beats? Se possível tem como revelar a data em que o projeto saíra para as ruas?

R: O produtor do disco é o guitarrista Marcelo Sanches do estúdio Elefante, um músico maravilhoso, ele realmente levou este trabalho para um lugar que nem eu esperava. A mix e a master ficará por conta do Cássio Centurion, os beats foram feitos por grandes parceiros como: Henrique Jonas, DJ Crick Studio Kasa, Adem Júnior no qual foram reproduzidos pelo Marcelo e gravado pelos músicos que compõe o disco. Em novembro deste ano, com fé, sai! Eu estou muito ansiosa, rsrs!!

4- Como surgiu a ideia para que o nome do projeto fosse ‘Minha Bossa é Treta’?

R: Ainda estava na fase das composições para o disco, e após uma conversa com meu irmão, eu compus uma música que fala sobre a revista vexatória, que inclusive levará o nome do CD, e ficamos fascinados pela música. No dia seguinte ele me mandou algumas palavras e frases, e me disse, “Se te bater inspiração e quiser pode utilizar”, dentre as frases que ele mandou tinha Minha Bossa é Treta, na hora que eu bati o olho eu decidi que este seria o Nome, pela a minha história de vida e pela mulher em que me transformei, onde a arte, a música, e principalmente o rap, teve muita influência nisto tudo!

5- É admirável o modo como você sempre se preocupou em mostrar e prestar reverência à suas influências Yzalu e Sabota Nova 02musicais, aos pioneiros do rap nacional que servem como inspiração. E o clipe ‘Cabeça de Nego’ ficou uma linda homenagem ao Maestro do Canão, que é certamente uma das grandes lendas do rap, gostaríamos de saber o modo como Sabotage te inspira em sua música e também na sua própria caminhada?

R: Nossa, muito! O Sabotage foi o maestro do rap nacional, ele podia criar qualquer métrica que quisesse, com muito alto nível e letras conscientes, vários recados importantes para nossa geração, sem contar a grande facilidade de fazer refrões clássicos e sem igual. Ele me inspirou muito para criar as minhas rimas neste disco assim como outros que admiro também, mas ele foi o principal, porque me identifico muito com o flow dele.

6- Você participa de muitos eventos culturais, entre eles os saraus, que certamente têm uma importância enorme não apenas em termos de descontração e divertimento, mas também para a soma de conhecimentos, descobertas, vivências coletivas, valorização dos artistas periféricos entre tantos outros aspectos. Gostaríamos de saber se a prefeitura de São Bernardo é atuante em relação ao trabalho cultural que tem sido realizado com os saraus? Se sim, que pontos ainda precisam ser melhorados?

R: A prefeitura de São Bernardo tem percebido que os jovens da cidade tem uma voz muito potente e por isto nos últimos anos tenho visto uma abertura maior ao diálogo para uma discussão saudável com propostas consistentes, e isto é muito bom! Os Saraus em São Bernardo tem aumentado muito, o pioneiro é o Sarau do Fórum organizado pelo Felipe Choco grande amigo, outro muito legal também é a Engrenagem Poética que acontece na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, e tem outros que não me lembro agora!

7- A música ‘Mulheres Negras’ certamente tem um grande significado na sua caminhada, sendo que em uma de 11348301_1616442445295876_1309792924_nsuas apresentações suas lágrimas vieram abaixo tamanha emoção. Você nos confessaria como foi seu primeiro contato com o Eduardo e também o que representou para você quando recebeu de presente a composição das mãos dele?

R: Sempre que pude, ia nos shows dele, mas quando chegava perto eu não conseguia nem trocar ideia, muito, mas muito tímida, rsrs! Enchia o saco do Carlão do Grupo Dignos pra me apresentar a ele e tal, mas nunca rolava! Foi aí que eu conheci a Fátima (esposa dele), que é uma grande esposa, empresária e mãe, uma mulher essencial de se conhecer, e através dela pude chegar ao Eduardo e ter tido o privilégio de declamar esta poesia cantada chamada ‘Mulheres Negras’ que sem dúvida é a música da minha vida! Por incrível que pareça eu conheci o Eduardo quando fui até a casa dele apresentar o resultado da música, somente após o aval dele gravaria a música, eu e o meu irmão fomos de São Bernardo até a casa do Eduardo falando: “Nossa, não acredito, vamos conhecer o Eduardo”!, rsrsrs, nós não acreditávamos que era verdade! Quando chegamos, tinha uma galera lá, ou seja, além de ter que mostrar a música pra ele eu ia ter que cantar pra todo mundo que estava lá, imagine? Quase morri, rsrsrs! Ao final da música ele disse: “Era isso que eu queria!”, sensação de missão cumprida, rss!

8- Na sua caminhada você já fez parcerias com muitas lendas do rap, tem alguém em especial que queira fazer um som junto futuramente? Ah!Mais uma coisa também, nesses últimos anos quem acompanha a cena aqui e também lá na gringa, sabe que mc’s tem realizados projetos inteiramente em dupla, Kamau e Rashid, Jay-Z e Kanye West, Royce e Shady, MF DOOM e Bishop Nehru, Drake e Future. Gostaríamos de saber se você algum dia tem vontade de embarcar num projeto assim, e qual mc você teria vontade de trabalhar junto (caso queira citar mais de um nome, sinta-se à vontade)?

R: Mano Brown! Acho muito loko esse projeto, eu tenho muita vontade de fazer um projeto desses com o Rael, gosto muito do trabalho dele, toca violão também, e eu tive a oportunidade de conhecê-lo muito brevemente no Projeto “Como Vai Seu Mundo?”, tenho certeza que seria uma parceria linda, mas eu não sei se tenho essa moral toda rsrs!

9- O pessoal aqui do RAPLOGIA curte muito cinema e literatura, poderia deixar por gentileza uma dica de leitura e de filme para nossos leitores?

R: Um filme que mexeu muito comigo foi “I Am Slave” (Sou Escrava) é uma história real sobre a sudanesa Mende Nazer, escritora e ativista dos direitos humanos, relata a escravidão contemporânea ocorrida com Mende no ano 2000, é muito bom, vale a pena assistir. Para quem gosta de música brasileira e sobre a história dela, um livro muito interessante é “Escola de Samba, Árvore que esqueceu a raiz”, de Candeia & Isnard, um livro de 1978, que relata muito bem desde o embrião até o surgimento das Escolas de Samba, onde Candeia expõe sem meias palavras a sua preocupação com os rumos dela, é muito interessante, vale a pena ler.

10- Yzalú, agradecemos pela entrevista concedida ao Raplogia. Desejamos cada vez mais progresso na caminhada! Você gostaria de deixar um recado final ao pessoal que acompanha seu trabalho?

R: Eu que agradeço pela atenção e o convite de vocês, muito obrigada! O meu recado é para que continuem acompanhando o meu trabalho, tem muito mais coisa por vir e acredito que irão gostar e agradecer também por sempre prestigiarem o meu trabalho, vocês são sem palavras <3!

Uma resposta para “Raplogia Entrevista: Yzalú

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