Review: Rodrigo Ogi está de volta com “RÁ!”

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Quatro anos depois de nos trazer histórias do cotidiano da cidade cinza, Rodrigo Ogi está de volta com mais um belíssimo trabalho, RÁ!, lançado no dia 2 de Outubro, com a produção inteira do zika da base, Nave. O segundo disco solo do emcee que fazia parte do grupo Contra-Fluxo é tão bom quanto o primeiro e tem o fator criatividade ao seu favor desde o início.

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Ogi por @thaismarinphoto

Para os fãs, uma escolha dura. Escolher entre Crônicas da Cidade Cinza e RÁ! deve ser dolorido, afinal, são dois projetos distintos tanto como parecidos. A principal técnica de Ogi, a narrativa, continua presente em todo o disco. Porém, o novo projeto apresenta um conceito diferente do seu antecessor que narrava o cotidiano dos cidadãos paulistas mais desfavorecidos. RÁ! leva Ogi até um psicólogo, onde cada música é um desabafo do artista para o profissional. Em Correspondente de Guerra, que tem uma temática parecida com Porque Meu Deus?, do primeiro disco, Ogi fala no diálogo final que tudo o que ele vê é absorvido pela sua mente. Ou seja, o álbum é um retrato de tudo que o rapper viu em seus anos de vida, não é à toa que em várias partes do disco ele foge dos personagens que cria para dar um toque mais pessoal e introspectivo.

19c91eebeb187a79a2e4618bcb7e0d84.960x484x1Assíduo consumidor de cultura pop (filmes, séries, quadrinhos), Ogi usa todas as suas inspirações para retratar cenários dentro do disco. Chico Cicatriz, por exemplo, parece ser uma história de produções antigas no maior estilo policial. As histórias das três Trindades, que estão no meio do disco, também parecem ser retiradas de antigas películas undergrounds e histórias em quadrinhos da Vertigo. Trindade Pt. 3 tem um apelo mais especial para mim, pois a produção é uma das melhores do disco, e a história é uma das mais fascinantes dentro de todo o projeto.

E, por falar em produções, RÁ! segue um estilo bastante interessante. É um boom bap com mais soul, usando ao que parecem ser samples de antigos filmes – Ennio Morricone ficaria orgulhoso, assim como Ghostface Killah – deixando o disco com um apelo mais cinematográfico. Nave escolheu bem, afinal, RÁ! tem um quê de cinema dentro dele, como já citado no parágrafo acima. O produtor usa elementos que transformam os instrumentais parecidos com trilha sonoras, algo extremamente bem feito por Adrian Younge no recente projeto Twelve Reasons to Die II.

Mas é injusto falar do disco sem usar a famosa tática da análise faixa por faixa. E é isso o que iremos fazer:

Intro: Ogi inicia o disco com a sua entrada ao psicólogo, tema que irá ser o conceito do disco, que é uma espécie de desabafo perante vários acontecimentos de sua vida e da sociedade.

Aventureiro: aqui observamos a versatilidade do flow de Ogi. Pela primeira vez ouvimos o flow que o rapper usa como uma espécie de segunda voz, bastante caricato, como se fosse a voz da consciência dele. É marcante também o uso desse flow quando há uma conversação entre o emcee e a outra voz, assim como Biggie fez em Gimme The Loot, quando narra um assalto e interpreta os dois personagens. Na música que fala sobre riscos tomados (se aventurar), existem inúmeras referências culturais, como Wu-Tang, Jeru The Damaja, Kill Bill e o imperador Liu Chang.

Na Estação da Luz: Ogi tem versos curtos e rápidos nessa música que bebe uma influência grande do blues – que é até citada no último verso – e retrata São Paulo de uma maneira bastante crua e sombria, um pouco diferente do ar que ele descreve a cidade em seu primeiro disco. Mao, da banda O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, faz o intenso refrão que serve também de narrativa para a história do personagem principal retratado.

HaHaHa!!!: retratando a vida de um bon vivant, aqui é a primeira vez que Ogi fala com o seu psicólogo após a introdução. Ele diz ao profissional que toda a angústia que tem é transformada em felicidades por algumas horas, pelo menos é o tempo dele aproveitar a vida. A métrica de Ogi nesse som se sobressai, com um batida mais rápida, ele precisa de um pique maior para acompanhá-la. Dito e feito.

Correspondente de Guerra: essa é uma das minhas faixas favoritas dentro do projeto. Como citado anteriormente, ela se assemelha muito com Porque Meu Deus?, do Crônicas da Cidade Cinza, onde Ogi narra uma situação violenta e pede respostas divinas. Com um refrão de Juçara Marçal, a música explora a guerra em que vivemos contra nós mesmos. O diálogo com o psicólogo explica que Ogi absorve o que vê, ou seja, essa música é uma compilação de tudo o que é visto no dia a dia do artista.

Trindade Pt. 1: as já conhecidas “músicas Trindade” de Ogi são outro ponto alto do projeto. São fai xas rápidas que contam histórias. Na primeira parte, temos quase que um roteiro Scorsesiano sendo rimado pelo rapper, que incorpora um taxista na cidade de São Paulo – possível referência ao filme Taxi Driver, de Martin Scorsese.  

Trindade Pt. 2: nesse momento Ogi interpreta vários pontos de vista conforme uma ação é feita na música. De início, apresenta-se um rapaz que aparece na festa, ele logo se torna o barman, que vira a mulher que ele serve e logo após outra mulher. No meio da música a estrutura de quatro linhas para cada personagem muda para encarnar o traficante, que é perseguido por policiais até a sua morte. Nessa segunda faixa da trilogia Trindade, nota-se como a habilidade narrativa do rapper é de qualidade. Mas o grand finale está na terceira parte da música…

Trindade Pt. 3: parte final da trilogia, e nela, mais trocas de pontos de vista. Ogi é um personagem que é policial, novamente um taxista, um cachorro e um pássaro. A produção é um quesito grandioso nesse som. Com uma batida rápida, Ogi consegue lançar um flow mais acelerado acompanhando a métrica. Combinação perfeita.

Interlúdico: skit em que Ogi volta a falar com o seu psicólogo. Nela ele fala sobre liberdade, essa liberdade é mostrada na direção criativa do disco, que passa por várias e diferentes fases.

7 Cordas: novamente no maior estilo bon vivant, Ogi celebra a vida com uma faixa inspirada no samba. As sete cordas são as cordas do violão, presente na produção da música. O clima de celebração é um escape do emcee dentro de retratos tão sujos e violentos narrados anteriormente.

Virou Canção: a música mais bonita do disco fala sobre o passado do artista, retratando suas primeiras tags na parede, seus antigos amigos que se perderam na vida. É a parte em que Ogi mais é introspectivo dentro do projeto e em que o personagem narrado mais se parece com ele. Se eu fosse escolher uma música para virar clipe, essa seria a escolhida.

Chico Cicatriz: Nave incorpora DJ Premier em uma faixa repleta de cortes de outros artistas e de um boom bap pesado. Na música, Ogi fala sobre Chico Cicatriz, uma espécie de nêmeses do personagem principal. Flow bem objetivo e métrica na medida são os destaques desse som, que assim como a trilogia Trindade, leva o storytelling ao ápice dentro de RÁ!

Escalada: narrando a ascensão ao sucesso de uma pessoa ambiciosa e sua caminhada para o lado negro da força. Ela tem um tom sombrio, e, pela história, esse clima cai como uma luva. O disco ainda não chegou ao seu final, mas a sensação é que Nave e Ogi formam uma dupla perfeita.

Ponto Final: essa música não é o ponto final do disco, mas é quase o fim do personagem de Ogi. Retratando uma história de vingança, o rapper mostra novamente a versatilidade lírica e de flow. Ele consegue rimar onomatopéias com palavras completas e faz de Ponto Final chegar perto de uma história em quadrinho. O seu verso em Pêndulo, com o grupo Haikaiss, lembra muito o estilo de rima nesse som..

Outro: mais um skit do disco, o final antes da faixa bônus. Ogi questiona o seu dom para o psicólogo, que encerra a sessão antes de uma resposta. Essa é a técnica do cliffhanger, usada em roteiros para chamar o espectador para outro episódio/filme para ver a conclusão do acontecimento. O acontecimento é todo o “problema” que Ogi fala no disco, de absorver, e retratar isso. O cliffhanger dessa vez deixa aberta a possibilidade de um novo disco solo de Ogi, mas isso é ele quem tem de dizer.

Faro de Gol (Bônus): ouvimos uma homenagem ao futebol com a participação de Rael. Influência do samba, música que move o futebol brasileiro por anos, é notável na produção. É rápida e se distingue do resto do disco por ser uma faixa extra, mas espere a mesma qualidade do projeto.

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Ogi e o zika da base, Nave. Por @fabiobitaophotography

O disco RÁ! é o melhor disco de Rap no Brasil no ano de 2015, e se tivesse sido lançado ano passado, também ocuparia esse posto. A evolução de Ogi é bastante notável, seus – já ótimos – flows estão mais treinados e com maior facilidade de serem postos em uma faixa, tanto que boa parte do disco tem uma variação dele.

O storytelling, porém, ainda é a marca registrada de um cara que busca inspirações em diversas mídias. Ogi parece realmente absorver algo muito além do que vê no dia a dia, ademais de absorver técnicas e idéias de tudo que lê, assiste e ouve. RÁ! é uma junção de cultura pop com o hip-hop que deixa nosso imaginário ligado o tempo todo e que deve ficar na história do nosso cenário para sempre.

5 Respostas para “Review: Rodrigo Ogi está de volta com “RÁ!”

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