Chegou o momento certo do RAPadura se reinventar como rapper?

RAPA-dura

Quando Rapadura soltou no jogo sua mixtape ‘Fita Embolada de Engenho’, provavelmente não imaginava o tanto de proporção que seu trabalho atingiria não apenas no meio do rap nacional, mas também como o da música em geral, conquistando a admiração e o respeito de ouvintes dos quatro cantos deste país, algo que os mc’s tanto lutam para obter, sendo que muitos deles levam anos para isso e ainda sim grande parte não consegue causar o impacto que Rapadura efetivou, aliás,  bastou lançar seu segundo projeto pra alcançar o pote de ouro no fim do arco-íris. É claro que sua caminhada já era de longa data, afinal começou a compor desde os 14 anos de idade, sempre tendo o Nordeste como inspiração maior para suas letras. Sua primeira participação notável veio em 2006, através da faixa ‘A Quem Possa Interessar’ do projeto ‘Aviso às Gerações’ do veterano GOG. Em 2007 e 2009 também venceu o prêmio Hutúz, na categoria grupo/artista solo norte-nordeste.  Já no ano de 2008 colocou nas ruas seu primeiro projeto: ‘Amor Popular’, que inclusive muita gente não conhece e acha que Rapadura tem apenas o ‘Fita Embolada’ como mixtape. ‘Amor Popular’ é bem curtinho, são apenas 6 faixas, mas as características que marcariam o Fita  e catapultaria o mc para o conhecimento de todos os ouvintes ao redor do país já podia ser vista no projeto de 2008, ou seja, o speed flow e a alma do nordeste como essência de seus trabalhos.

Mas foi no ano de 2010 que todos os olhos voltaram para ele, principalmente para sua levada, ou melhor, “o speed flow”, além disso, o rapper trouxe um conteúdo forte que acabou pegando todos de surpresa, estou falando da essência de Fita Embolada, o ‘regionalismo’. Seu projeto é uma linda homenagem para sua terra, não são muitos aqueles que conseguem tal proeza, o número de referências utilizadas no projeto é absurdo, o mc realmente deu uma aula em termos de transformar sua terra em um personagem, essa que ganha vida, despertando a atenção dos ouvintes para querer aprofundar-se cada vez mais nas raízes de Rapadura, que nasceu em Lagoa Seca, no Ceará.

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Na mixtape o RAPentista abordou temas da cultura nordestina, utilizando expressões, sotaque, tudo regado com batidas que transpiravam o maracatu, o forró, a capoeira, o baião, as cantigas de roda etc. Tínhamos um projeto em que o rap e o repente fundiam-se. Histórias sobre a seca, mulheres rendeiras, agricultores, processos de urbanização também estavam lá. Certamente um projeto diferenciado no cenário nacional e que marcou época. Fita Embolada sempre será lembrada, e além disso, é exemplo a ser seguido pelos artistas que tiverem vontade de realizar um projeto pautado no conceito do ‘regionalismo’. Vale ressaltar também a fala do escritor Ferréz sobre Rapadura e seu projeto: “Rapadura é tudo que existe de moderno e autêntico na nova música brasileira, um rap contundente, ideológico e totalmente mergulhado na rica cultura nordestina. Não dou seis meses para ele estar viajando pelo mundo, por estar à frente do seu tempo, e com certeza ter condições de provar que o Rap Brasileiro tem uma nova cara. A cara do Brasil. Finalmente!”

Ferréz estava completamente certo, já que Rapadura realizou turnês não apenas pelo Brasil, mas também pela Europa, tendo passado por países como Alemanha, República Tcheca, Suíça entre outros países. Parece que foi ontem que a mixtape saiu do forno e pegou todos de surpresa, mas já se passaram 5 anos de seu lançamento. Nesse meio tempo Rapadura dividiu palcos com grandes nomes da música, como por exemplo: Racionais, Lenine, GOG, Maria Rita, Paulo Diniz, MV Bill etc.

Com seu nome concretizado na cultura, o mc assim que mencionado já faz os ouvintes se lembrarem de todas as características que o marcaram desde o começo da carreira.  Sendo que há pouco tempo Rapadura soltou música e clipe novo: O TERROR PARTE II. É então que chegamos ao título do post, afinal a música traz em si uma nova faceta do RAPadura-O-Terror-Parte-2-Lyric-Videoartista, que parece se encaminhar para uma reformulação de estilo, pelo menos em seu conteúdo, dessa vez Rapadura traz inúmeras referências a elementos da cultura dos Estados Unidos, como a festa de Halloween e também personagens de filmes de terror como Jason, Jigsaw e Haniball Lecter. Ainda sobram referências para Tarantino e o filme Seven. Referências a sua terra natal também estão lá. A faixa que ganhou clipe, inclusive carrega essa vibe de terror, algo que causa uma bela surpresa nos ouvintes e

cria expectativas do que Rapadura pode nos oferecer futuramente em seu próximo projeto. Preciso confessar que seria realmente bom se o rapper explorasse novos caminhos, isso não significa que suas clássicas referências ao Nordeste precisem estar de fora, aliás nessa última música o rapper fundiu perfeitamente um tema novo com  algumas referências que sempre efetivou, mas em quantidade menor, para que assim o elemento surpresa (tema de terror – serial killers) ficasse em maior evidência em relação ao regionalismo.

É difícil saber que linha o novo projeto do mc seguirá, e após esse som fica uma incógnita se Rapadura irá se reformular como artista e trará um projeto totalmente diferente de Fita Embolada. Fica-se na torcida para que novos caminhos sejam tomados, para que assim ele possa causar um novo impacto no cenário, assim como causou quando lançou o Fita. Como um ouvinte assíduo dele, acho que seria incrível escutá-lo rimando com um flow mais lento, fornecendo ao ouvinte uma perspectiva mais calma, consequentemente mais nova para acompanhar suas histórias contadas, explorando dessa vez questões de ordem mais pessoal e psicológica, e não tanto a vertente do regionalismo. Seria bom se pudéssemos conhecer de modo mais introspectivo o Francisco Igor Almeida dos Santos. Aliás, alguns projetos me vêm à cabeça quando falo dessa vertente mais pessoal, como por exemplo: God’s Son, The Black Album, The Eminem Show, Me Against The World e Ready To Die.  Projetos que marcaram seus mc’s que em certo momento da carreira resolveram olhar para dentro de si de uma forma mais profunda e transpor para as letras todos seus traumas, anseios, sonhos, desejos, enfim, pintaram a si mesmos como seres humanos dotados por qualidades e defeitos, expondo até mesmo pensamentos que muitos mc’s jamais colocariam pra fora, com medo de afetarem suas respectivas imagens.  Enfim, só o tempo dirá que caminhos Rapadura irá seguir, mas certamente fica-se na expectativa por um projeto que nos cause uma bela surpresa e consequentemente um impacto como aquele em que causou com o Fita em 2010.

11 Respostas para “Chegou o momento certo do RAPadura se reinventar como rapper?

  1. Citando, por exemplo, Tupac, é notório ver que ele explorava, dentro da análise social e antes do Me Against the World, lados mais “intimistas” ainda que de forma bem sutil, exemplo disso é Brenda’s Got A Baby. Nunca vi algum sinal assim do Rapadura, mas concordo que seria bem interessante uma mudança. Até certo ponto, o discurso dele está saturado de “regionalismo x estrangeirismo”. Aguardo ansioso seu novo projeto!

    • pode crer, bro. acho q 1 projeto com o conceito de regionalismo é maneiro, e o rapadura fez isso muito bem e colocou o nome dele no jogo, mas fazer isso novamente desanimaria mto os ouvintes, acho q seria tipo dar 1 tiro no pé, e outra coisa q ele deveria mudar era o speed flow, um album inteiro nesse estilo é cansativo dmais, enfim, fico na torcida pro cara criar algo novo e esquecer o speed flow, ou entao utiliza-lo bem pouco. essa ultima musica dele me deu 1 pouco d esperança p ele fugir 1 pouco da pegada d regionalismo.

      • Ele fala de uma maneira muito autêntica, representa total. Por acaso, eu ouvi o Amor Popular antes do Fita. Se pá é porque eu sou cearense e por aqui teve uma receptividade muito boa. Todo mundo ficou: “Cacete, Luiz Gonzaga do rap!” rs. Tuas críticas são muito pertinentes – aliás, teus textos são muito bons! -, esse cansaço do flow é muito grande, do discurso até certo ponto também. Dá pra ser mais universalista – salve Drummond e Graciliano -, ótimo texto, como disse, e é isso, espero que ele chegue a ler a matéria! 😉 Noiz!

      • Total, esse texto é muito maneiro, uma análise bem sagaz, inclusive sobre as rimas circulares também. Valeu, bro!

  2. Parabéns ao site! Vocês sempre estão de parabéns, mas acabei de ler um dos melhores textos de #RapBR já publicado aqui!
    Assim como o Rapadura, tem algumas outras jóias espalhadas pelo Brasil… Espero vê-las por aqui em algum momento.
    Abraço!

  3. Tava gostando bastante da linha de lançamentos dele no ano passado, uma pena, seja lá qual for o motivo, o projeto não ter sido lançado. Ele tava escolhendo produções com a característica regional dele, mas diferentes de certa forma. E como você apontou bem, a temática mudou um pouco. Além disso, ele parece ter melhorado ainda mais a levada dele. Ele prometeu dois projetos, espero que sai esse ano sai pelo menos um, é um artista que sempre promete e tem tudo para ser destaque entre os nomes mais falados.

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