Garimpando #5: 20 anos de Rawkus Records

rawkus4cs

No meio dos anos noventa, o recém desistente de Harvard, James Murdoch, era um jovem interessado em Rap consciente. Ele tinha dinheiro, muito mesmo, afinal, é filho de Rupert Murdoch, fundador do grupo de mídia News Corporation, que foi por muito tempo dona de toda a FOX. James se juntou a Jerret e Brian e fundou a Rawkus, até então, sem nenhum investimento monetário. O próprio Murdoch investiria um pouco depois uma quantia considerável para a gravadora se manter em seus pés – a gravadora também seria comprada pela News Corporation em 1998.

James-Murdoch-007

Se não fosse por James Murdoch, a Rawkus Records provavelmente não aconteceria. Ele hoje é CEO da 21st Century Fox, grupo dona do grupo Fox, e da Sky. Sua fortuna é de 2.7 bilhões de dólares.

Em 1996, o primeiro lançamento: Attempted Mustache, pelo grupo Dystopia One. Mas tudo viraria um ano depois, quando os artistas pessoalmente assinados por Jerret e Brian, lançariam seu primeiro projeto pela gravadora. Era o grupo Company Flow, formado por Bigg Jus, Mr. Len e o hoje famoso por Run the Jewels, El-P. O Funcrusher Plus é um trabalho adicional a primeira obra do grupo, lançada em 1996 pela Official Records. Provocador e agressivo, o disco acumulou notas altas pelos críticos. A grana feita com o disco do grupo, foi diretamente para outro artistas, ao contrário de voltar como investimento ao próprio Company Flow. Tal ação da Rawkus deixou os membros do grupo bastante irritados. Em entrevista anos após sair da gravadora, El-P revelou que prefere ser “estuprado por nazistas inconsciente do que assinar com a Rawkus novamente.” No mesmo ano, 1997, a gravadora iniciava uma das mais interessantes formas que trabalhou, que foram as suas compilações.

Soundbombing foi a primeira compilação de artstas da Rawkus, e que apresentou ao mundo ninguém menos do que Mos Def e Talib Kweli. Esse trabalho traz na sua grande parte, artistas relacionados à gravadora. Já a segunda, Lyricist Lounge, Volume One, nos traz uma inúmera variedade de artistas como De La Soul, Q-Tip, Ras Kass, Common, Pharoahe Monch, Reflection Eternal, Rah Digga, Jurassic 5, KRS-One e Zack de la Rocha. A forma conceitual do disco era mostrar muitos rappers, seguindo o mostruário de artistas de mesmo nome fundado nos anos 90 em Nova York. As duas primeiras compilações foram um tremendo sucesso nas ruas, provendo assim, a chance da gravadora trabalhar os seus artistas com uma ampla forma de divulgação.

Leia também: Os maiores discos de Rap vindos do Queens

company-flow

O grupo Company Flow foi quem ajudou a colocar a gravadora no mapa. Eles sairiam da gravadora anos depois a acusarem de negócios negligentes e de serem desonestos financeiramente. El-P hoje faz sucesso com Killer Mike no Run the Jewels.

Com nome no jogo e um plantel de artistas novatos e promissores, a Rawkus trabalhou muito nos anos de 1998 e 1999. Com Lyricist Lounge Vol. 1, seriam oito projetos em dois anos, sendo três deles clássicos do hip-hop: Black Star; o disco de estreia solo do prata da casa, Mos Def, Black on the Both Sides; e o primeiro disco solo do ex-Organized Konfusion, Pharoahe Monch, Internal Affairs.

Def viraria um dos maiores artistas do cenário nos anos seguintes, mas nunca mais lançaria um projeto pela Rawkus. Talib, a outra parte do Black Star, seguiu com o selo em trabalhos como o primeiro disco do Reflection Eternal, e seus solos, Quality (2002) e The Beautiful Struggle (2004). Monch ficaria até 2005 na gravadora. No mesmo ano, o disco Home Field Advantage da dupla The High & Mighty traria a primeira faixa entre Eminem e a gravadora.

The Last Hit é parte do projeto Home Field Advantage, e tem uma história curiosa. Os dois fundadores da gravadora, Brian e Jarret, souberam de um rapper branco de Detroit com o qual estavam impressionados sobre o que ouviam. Eles o trouxeram para o estúdio com High e Mighty, onde ele gravaria o seu verso, que apenas seria lançado após Eminem soltar The Slim Shady LP. Mesmo o disco do rapper tendo sido lançado antes, muitos creditam o verso em Last Hit como a primeira aparição do alter ego de Em’, Slim Shady. Ainda em 1999, ouviríamos Any Man, uma faixa exclusiva de Eminem para a gravadora. A mesma é referenciada em Stan, clássico do segundo disco do artista.

download

Dupla de fundadores da gravadora, Brian Brater e Jarret Myer.

Any Man fez parte do projeto Soundbombing 2, uma outra compilação da Rawkus. Dessa vez mais extensa e com mais artistas. Dilated Peoples, Sadat X, Diamond D, R.A. The Rugged Man, além de Eminem, são alguns dos artistas que aparecem no projeto.

Nos anos de 2000 e 2001 foram nada menos do que 12 trabalhos, sendo boa parte deles bem recebido por crítica e pelo público. Destaque inicial para mais uma compilação, dessa vez, Lyricist Lounge 2, que traria novamente uma grande quantidade de artistas e agora, rompendo algumas barreiras, como faixas de artistas em alta dentro do cenário mainstream na época, como Redman, Ghostface Killah e Nate Dogg. Esse último participou da música Oh No, com Pharoahe Monch e Mos Def, single que ficou no topo do chart Hot Rap Singles. O projeto soou mais comercial, o que deixou muitos fãs desapontados. Hip Hop for Respect também chamou atenção pela sua premissa, que foi organizada por Talib Kweli. Se hoje, ao lermos o Twitter do rapper, veremos ele impondo sua opinião sobre muitos assuntos de cunho social, podemos dizer com certeza que isso não é algo de agora. Esse projeto foi concebido após a morte de Amadou Diallo, um jovem imigrante de Guiné que foi alvejado 41 vezes por policiais da polícia de NYC. Diallo estava tentando pegar sua carteira, e estava desarmado. Kweli chamou 41 rappers, uma analogia ao número de tiros, para participar do projeto.

Leia também: Bring It Back – KRS-One, The Last Emperor, Zack de la Rocha – C.I.A. (Criminals In Action)

Ja falecido há um ano, Big L preparava o seu segundo disco, The Big Picture, para ser lançado naquele fatídico 1999. Após a morte do talentoso rapper, semanas antes de assinar contrato com a Roc-A-Fella, o disco foi lançado pela Rawkus, graças ao seu agente. Ele havia sido dispensado pela Columbia em 1996, e estava com uma gravadora própria. Ao mandar o disco para a Rawkus, o agente de L permitiu uma infinidade de pessoas trabalhando nele. Hi-Tek e Talib Kweli também lançariam o debute do Reflection Eternal naquele ano, o Train of Thought, um dos projetos mais bem recebido feito pela Rawkus. O mesmo ganharia uma sequência dez anos depois, Revolutions per Minute, lançado pela Warner, Blacksmith e pela já inativa Rawkus.

Capa do único single de Kool G Rap para The Giancana Story lançado pela Rawkus

Capa do único single de Kool G Rap para The Giancana Story lançado pela Rawkus

Mas como toda gravadora, a Rawkus teve seus problemas com artistas. Os problemas já citados com o grupo Company Flow foram os primeiros, o outro foi com ninguém menos do que a lenda do Queens, Kool G Rap. Após aparecer nas compilações da gravadora no ano de 2000, entre elas o próprio projeto Hip Hop For Respect, o rapper ganhou seu contrato para o disco The Giancana Story, o primeiro desde Roots of Evil, de 1998. Previsto para o ano de 2000, o disco foi adiado diversas vezes, acabando por ser lançado em 2002, e pela Koch Records – após licença provida pela Rawkus. Essa manobra fez muitas faixas originais do disco serem cortadas, outras inseridas ou re-intituladas. 2002 seria um ano mais calmo para a gravadora, com apenas quatro discos. Mad Skillz lançaria I Ain’t Mad No More, e Talib o clássico Quality, com a clássica Get By, com produção de Kanye West. Ye que inclusive era frequentador assíduo dos escritórios da gravadora, e queria muito assinar com ela. No meio daquele, Soundbombing III seria um tanto de uma decepção por trazer faixas que já aparecera em outros projetos dos artistas em questão, e terminando assim a série. Naquele ano a gravadora estava novamente em mudança, após ter sido comprado pela MCA Records, que seria fundido com o grupo Interscope/Geffen um ano depois, 2003, ano em que não teríamos um projeto sequer vindo da gravadora e de seu plantel. Em 2004, Talib Kweli deu as caras com The Beautiful Struggle, projeto recebido de forma dividida pelo público.

Em 2005 a gravadora resolveu celebrar uma década de vida com a compilação Best of Decade I: 1995–2005. O projeto não tem nada de novo, além de uma música de Mos Def, e não serviu para muita coisa. Em 2006, um acordo com o selo RED da Sony, traria uma nova leva de artistas para gravadora, boa parte deles, grupos. The Procussions, Kidz In The Hall, Panacea e Blue Scholars foram alguns dos que tivera projetos lançados pela Rawkus até 2007. Mr. J Medeiros, Marco Polo e Hezekiah foram alguns dos artista solo que tiveram lançamentos na mesma época.

Pratas da casa, Talib Kweli e Mos Def formaram o Black Star na Rawkus. O disco, lançado em 1998, é um dos melhores projetos da década de 90 e até hoje é lembrado.

Pratas da casa, Talib Kweli e Mos Def formaram o Black Star na Rawkus. O disco, lançado em 1998, é um dos melhores projetos da década de 90 e até hoje é lembrado.

A grande jogada após o acordo com a Sony foi a campanha Rawkus 50, feita também como resposta pela venda do catálogo da gravadora em 2004. A campanha consistia em artistas, conhecidos ou não, mandarem discos para a gravadora que seria analisados. 50 deles seriam distribuidos pela Rawkus através do IODA (Independent Online Distribution Alliance) com o selo Rawkus 50 presents. Muitos artistas foram escolhidos, como podemos ver na lista.

A Rawkus Records talvez tenha sido uma das maiores gravadoras da história recente do Hip Hop. Hoje inativa, o fenômeno da gravadora, que tinha um tremendo ouvido para artistas (Company Flow, Mos Def, Talib Kweli), é quase impossível de acontecer novamente. Em uma época que os ternos brilhosos faziam sucesso, James, Jarret e Brian nos trouxeram o melhor do Rap de forma independente. Sentimos sua falta, Rawkus.

2 Respostas para “Garimpando #5: 20 anos de Rawkus Records

  1. Pingback: UnderRated: Reflection Eternal – Revolutions per Minute | Raplogia·

  2. incrível como o rap é um movimento 99% negro,que simplesmente não existiria sem os negros,mas quando a gente vê os donos das gravadoras que tem o real poder e money a maioria são brancos…pensei nisso quando vi as fotos desses caras aí,não que eles não tenham feito algo foda e tal,mas até a maior forma de expressão cultural e status dos negros nos EUA (junto com os esportes claro) não escapa do ‘sistema’ é tenso…
    Como diz o Cole “Still broke compared to niggas with old money/I mean the type of niggas that laugh at Hov money/billionaires with Petroleum and coal money/probably kill themselves if they had Cole money”
    Ok fugi um pouco do tópico da matéria,mas é isso aí hehe.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s