É Nois Mermo, Gustavo Souza!

Para os que ainda não estão familiarizados, essa coluna é feita por textos dos próprios leitores. As regras para participar e mandar seu texto estão aqui

A galera tá chegando com peso. Nossa primeira matéria foi uma tracklist sensacional, um passeio pelos anos 80, ano a ano, feita por um Dj de Floripa. Dessa vez, a matéria é sobre o Me Against The World, aclamado álbum do Tupac, e as impressões de um dos nossos leitores é compartilhada logo abaixo. Se você se identificar ou discordar, fala pra gente, deixa a sua ideia aí nos comentários.

1995. Dentre todas as coisas que aconteceram nesse ano, uma delas em especial é muito importante para o rap. O lançamento de uma das maiores obras do hip-hop . Me Against The World, terceiro álbum de estúdio do rapper Tupac, que é considerado um dos melhores rappers de todos os tempos, e o melhor para este que vos escreve. Este álbum é tido como o melhor álbum do rapper e um dos melhores álbuns de rap de todos os tempos, se não o melhor, e é essencial para qualquer um que curte um rap, especialmente no quesito lírico. Acho que 2Pac dispensa apresentações, então bora pro review.

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Me Against The World é um projeto incrível e na minha opinião, subestimado. É um projeto extremamente pessoal e reflexivo de Tupac. O álbum foi gravado pouco tempo antes da prisão de Tupac decorrente de um processo de assédio sexual, no qual Pac se declarou inocente e muitos acreditam que isso influenciou no processo de criação do álbum, tornando-o mais pessoal e reflexivo do que seus outros trabalhos. Em essência, Me Against The World pode ser definido pelo seu próprio título. Trata-se de Tupac desabafando sobre os recentes acontecimentos em sua vida, a perseguição que sofria da mídia, recordando com nostalgia de seu passado. É nesse álbum também que o lado “paranóico” de Tupac começa a surgir, com músicas tratando de sua possível morte e traições, o que posteriormente gerou a ideia de um álbum profético, extrapolada no álbum the Don Killuminati: The 7 Day Theory.

O álbum abre com a faixa Intro, constituída de trechos de reportagens comentando sobre acontecimentos da vida de Tupac, como os tiros que ele levou no estúdio em New York, tema muito comentado durante o álbum. A faixa também serve para mostrar como a mídia explorava sua vida de modo a mostrá-lo como uma figura controversa, o que fazia 2Pac se sentir perseguido. If I Die 2Nite fala sobre os tiros que Tupac levou no incidente do assalto no estúdio em New York, insinuando que ele foi traído por motivo de inveja de seu sucesso, se perguntando o que aconteceria se ele morresse nessa noite. Depois temos a sensacional Me Against The World, com participação do grupo Dramacydal (futuro Outlawz), a faixa que dá nome ao álbum é sem dúvida uma das melhores.

Nela, Tupac relata de forma crua a violência e pobreza presente nos guetos, se colocando na posição de alguém que vê tudo desesperado, mas, no último verso, ele passa uma incrível mensagem de superação para que mantenha a cabeça erguida e não se deixe abalar pelos problemas que a vida coloca em seu caminho. 2Pac e os membros do Dramacydal estão afiados no flow sob uma produção muito boa e a letra é incrivelmente bem escrita, casando perfeitamente no flow, mesclando algumas metáforas com uma ótima crítica e mensagem social. Em seguida temos So Many Tears, na qual Tupac se mostra cansado da vida nas ruas, de sofrer e ver pessoas próximas morrendo, de certa forma inclinado a aceitar uma morte precoce para que possa fugir de todo esse sofrimento, afinal, ele já derramou muitas lágrimas. Temptations é uma música sobre mulheres, onde ele diz que é difícil resistir à uma certa mulher, embora ela queira um relacionamento sério. Em Young Niggaz ele narra um pouco de sua juventude, onde era ambicioso e estava sempre atrás de ganhar dinheiro, mesmo que por meios perigosos e no último verso, depois de adulto, muda sua perspectiva e dá conselhos para os jovens não se envolverem com gangues e com o crime, fazendo da faixa um tributo aos jovens negros. Em Heavy In The Game, Tupac traz Richie Rich para rimarem sobre o “jogo” e jogá-lo direito, sem arrependimentos e com ambição. Particularmente considero essa uma das faixas mais fracas liricamente do álbum. Lord Knows é uma música mais depressiva. Mostra como Tupac foi afetado por tudo que via e vivenciava enquanto tentava manter sua mente sã, usando inclusive de álcool e drogas para aliviar o stress. Em seguida temos a melhor música do álbum e possivelmente a melhor música de toda a carreira de Tupac, Dear Mama. Nela, Pac fala sobre como sua infância foi difícil por crescer sem um pai e em meio a pobreza, falando sobre algumas decisões erradas que tomou na juventude, mas que sempre pôde contar com sua mãe. Ele nos mostra como sua mãe batalhou para dar-lhe uma vida digna mesmo em meio a todas as dificuldades, e transmite todas as mensagens com muito sentimento e nostalgia. Simplesmente perfeito

A próxima faixa é It Ain’t Easy, uma faixa de lamentação, onde Pac está aguardando o resultado de seu julgamento, sem saber se ficará livre ou se irá pra penitenciária. Ele se imagina encarcerado tendo que lidar com as dificuldades da prisão ao mesmo tempo que recebe notícias ruins do lado de fora. Além da letra, destaque para a ótima produção dessa faixa, cortesia de Tony Pizarro. Em Can U Get Away, Pac tem uma conversa por telefone com uma mulher que é maltratada pelo seu homem, enquanto tenta convencê-la a deixar esse homem pra ficar com ele. Old School se trata de um tributo à velha escola, que trilhou o caminho para que Pac pudesse fazer tudo o que fez. Em Fuck The World, 2Pac rima sobre a perseguição que sofreu da mídia, dos policiais e do sistema judiciário por conta da acusação de assédio que sofreu, entre outros temas, demonstrando que não se importa com o que falam dele. Death Around The Corner é uma música profética, pois nela, Pac diz que sabe que estão tramando sua morte e portanto precisa ficar esperto, algo que infelizmente se comprovou mais tarde quando ele foi assassinado. O álbum se encerra com a faixa Outlaw, com participação do grupo Dramacydal, onde mostram como as coisas seriam se Tupac realmente fosse um “fora da lei” como foi rotulado pela mídia e pela polícia, e vemos que é bem diferente de como ele realmente era.

Estruturalmente falando, Me Against The World não traz um conceito bem definido, se trata apenas de um desabafo de Pac em relação a tudo que estava acontecendo em sua vida e tudo que já havia acontecido. É um álbum incrível por trazer o lado mais íntimo da personalidade de Tupac. O álbum traz uma incrível descrição da vida nas ruas e como é crescer em meio a pobreza, mostra como o mundo conspira de modo a oprimir quem vive na periferia, como a mídia e a polícia julgam e rotulam as pessoas e como todas essas coisas juntas podem acabar com a mente de uma pessoa. É um álbum sombrio, mas que ainda assim consegue trazer uma linda mensagem de superação. É incrível, pois o álbum foi feito em um momento bem ruim da vida de 2Pac e mesmo assim ele conseguiu entregar uma obra-prima extremamente descritiva e pessoal, sombria e ao mesmo tempo com mensagens positivas. A produção é melhor do que seus álbuns anteriores mas inferior ao All Eyez On Me, e conta com nomes como Tony Pizarro, Shock G, Soulshock e Easy Mo B e traz claras influências do G-Funk. Enquanto All Eyez On Me é um álbum mais comercial, trazendo o conceito de um gangsta que enriqueceu e está aproveitando a vida ao máximo. Me Against The World se trata de um homem que foi oprimido das mais diversas formas e que vê seu povo ser oprimido também, relatando sua experiência de vida. Certamente um projeto que deve ser ouvido várias vezes para que possa ser amplamente entendido, de forma que o ouvinte mergulhe nas reflexões de 2Pac.Por este motivo, pelo menos liricamente, Me Against The World é o álbum definitivo de Pac, e se alguém quiser conhecer o rapper em sua personalidade e pensamentos, é este o álbum que deve ouvir. Acredito que Me Against The World seja um dos maiores álbuns de rap de todos os tempos, ao lado de clássicos como Illmatic, Paid In Full, Ready To Die, Enter The Wu-Tang, etc. Fica a dica para quem não conhece essa obra-prima e queira conhecer mais sobre Tupac.*

Gustavo Vicente de Souza,
São José do Rio Pardo – SP

Confira o álbum completo

*O presente texto não representa a opinião do Raplogia.

6 Respostas para “É Nois Mermo, Gustavo Souza!

  1. Primeiramente parabens pelo trabalho, ótima reflexão e entendimento do trampo do Tupac que na minha opinião tbm acho um dos melhores de todos os tempos, Me against the world sem duvidas é um dos melhores albuns para se ouvir para quem for um amante de Rap… recomendo!!!

    • Total, Rafael! A matéria do Gustavo foi bem certeira quanto ao valor do álbum! A propósito, brother, já pensou em participar dessa coluna com a gente?!

  2. Gostei muito do review! 95 foi um ano movimentado e repleto de hits (Coolio – Gangsta’s Paradise, Luniz – I Got 5 on It, Mobb Deep – Shook Ones Pt. II, Ol’ Dirty Bastard – Shimmy Shimmy Ya, Onyx – Last Dayz, etc.), mas “Dear Mama” realmente se destaca, que som incrível. 95 também foi o ano em que Big L, GZA e Raekwon lançaram álbuns impressionantes, mas novamente 2Pac fica entre os tops com este belíssimo disco.

    • Salve, Herax! Sempre enriquecendo o sistema! Dear Mama sem dúvidas é um dos melhores sons de todos os tempos haha. Para não, cara, que a gente tá no aguardo das tuas listas! Abraço!

  3. Queria agradecer esse espaço fornecido pelo pessoal do Raplogia. Gostei muito de escrever essa review e fico feliz que gostaram e se possível, claro, gostaria de escrever mais para o site kkk admiro muito o trampo de vocês, obrigado pela oportunidade!

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