O Fenômeno 50 Cent: O Que Aconteceu? (Parte II)

Há quase um ano e meio publicamos uma análise da situação de 50 Cent na cena do rap. O contexto era diferente: nada da mixtape The Kanan Tape (2015), nada de novos capítulos da beef com Rick Ross, e nada de troca de insultos com Meek Mill. Animal Ambition: An Untamed Desire to Win (2014) tinha acabado de sair e, além disso, sua condenação no caso do vídeo íntimo de Lastonia Levinston, publicado online pelo rapper em 2009, não havia sido sentenciada. Tal derrota judicial, somada a outras burradas ocasionais em seu comportamento inconsequente, iria lhe trazer as complicações com dinheiro e o levaria a pedir falência em 13 de julho de 2015. Por isso o rapper tem sido alvo de provocações de seus inimigos — tanto os antigos quanto os mais novos.

Se organizarmos cronologicamente os eventos mais relevantes desde nosso último texto, falaríamos primeiro da estranha recepção do já mencionado Animal Ambition. Em setembro de 2014, o álbum já começava a colecionar críticas e notas discordantes e variadas. A revista Rolling Stone, por exemplo, lhe deu três estrelas de cinco. A XXL o classificou com quatro estrelas de cinco, enquanto o site HipHopDX chegou ao resultado de duas estrelas de cinco. Um desempenho não muito diferente — ou talvez ainda pior — do que Curtis (2007) e Before I Self Destruct (2009). Algo bem distante do que o colocaria de volta ao topo do jogo. Ainda mais em 2014, com J. Cole, Schoolboy Q e Freddie Gibbs lançando excelentes projetos.

Capa de “Animal Ambition: An Untamed Desire To Win”

Falaríamos, em segundo lugar, das principais complicações jurídicas que circundam o nome Curtis James Jackson III. Seu comportamento inconsequente faz com que essa sessão não possa ser devidamente explicada sem que se produza um artigo enorme. Nesse caso, portanto, vale o resumo: são dois processos perdidos no tribunal que somam uma dívida de 25 milhões de dólares.

O primeiro processo tem a ver com uma complicação entre a empresa Sleek Audio e a empresa do businessman, chamada SMS Audio. Em 2011, 50 Cent e Sleek Audio fecharam um acordo para a produção de headphones especiais para a marca G-Unit. O nome do produto seria “Sleek by 50” e seria a principal concorrente de outro fone conhecido “Beats by Dre”. Entretanto, a empresa de áudio cancelou o acordo, devido ao desejo de se concentrar na melhoria e distribuição de seus fones. 50 Cent, então, fundou a SMS Audio, que produziu o que hoje é o “Sync by 50”. Sleek alegou que o produto era uma cópia pois tinha basicamente o mesmo design e funções mecânicas, e decidiu processar o rapper, acusando-o de quebra de seu dever de fiduciário à Sleek, participação de conspirações civis, quebra de acordo de confidencialidade, e enriquecimento injusto, segundo a MTV!. O tribunal concordou e ordenou o rapper a pagar 18 milhões de dólares.

Rick Ross, Lastonia Levinston e 50 Cent: principais envolvidos no caso

Outro processo o condenou a pagar 7 milhões de dólares para Lastonia Levinston, ex-mulher de Rick Ross. O caso é relativamente simples, mas se arrastou por muito tempo até que o tribunal fizesse o veredito. A moça processou Fifty por ele ter lançado na internet um vídeo íntimo dela em 2009, com algumas provocações — ele adiciona sua própria música à montagem e narra os acontecimentos em tom depreciativo. 50 foi ordenado a pagar 5 milhões de dólares por violação dos direitos civis da moça e mais 2 milhões por danos punitivos. A história toda também merece um artigo só para ela, mas não cabe nos alongarmos em detalhes aqui.

 

Somando, portanto, 25 milhões em dívidas, despesas de um estilo de vida ousado, e nenhum sucesso em vender sua mansão em Conneticut, 50 Cent pediu falência. Ao falar sobre, o rapper foi seguro e declarou para a E!News que o pedido foi feito para a reorganização de suas finanças: “Estou tomando as precauções que qualquer outro bom homem de negócios tomaria nessa situação. […] Walt Disney já pediu falência. Donald Trump já pediu falência. Significa que você está reorganizando suas finanças, mas impede o avanço de certas coisas que você não quer que avancem”.

Mansão de 50 Cent em Conneticut: residência está à venda e pertenceu ao ex-boxeador Mike Tyson.

Ainda assim, curiosas informações sobre a vida de 50 Cent foram reveladas com essa história. Em uma das audiências oficiais do caso, o rapper revelou que seu estilo de vida de ostentação nas redes sociais era uma ilusão. Grande parte dos carros luxuosos e as joias brilhantes são alugados para divulgação. O vídeo abaixo foi produzido pela Business Insider e, apesar de um tanto sensacionalista, traz alguns detalhes do que aconteceu no julgamento:

A coisa estava feia para 50 Cent, que passou a ser alvo de todos os seus antigos inimigos e mais alguns novos. Sua infeliz atitude de soltar o vídeo íntimo, somado à derrota nos tribunais, marcou um novo capítulo em sua beef com Rick Ross, que começou lá em 2009. Enquanto atenção de grande parte da cena se concentra nos dois, provocações e xingamentos mútuos voltam a aparecer na mídia. Faixas como “Mafia Music”, de Ross, e “Officer Ricky” de 50 Cent, marcam a interminável briga. Em 2016, o rapper de Queens prometeu “falar menos e fazer mais” em um dos tweets. Esse é outro capítulo da história recente de 50 que merece um artigo por si só. Enquanto não sai no Raplogia, acesse essa linha do tempo da beef, desenvolvida pelo site DJ Booth.

Como se não bastasse tudo isso, 50 ainda tem que lidar com outro obstáculo. Nesse ponto da história entra um nome que esteve bem presente na cena dos últimos meses, sendo lembrado principalmente pelo nome de sua mulher e pela forma como foi arrebentado por Drake em “Charged Up” e “Back To Back”, depois de um notável episódio sobre ghostwriting. Talvez para defender o chefe de sua marca MMG Rick Ross, Meek Mill ataca 50 Cent em “Gave ‘Em Hope”, no seu mais recente EP 4/4 (2016). O ataque foi respondido através de fotos e montagens em redes sociais, o que rendeu o atual clima de guerra entre os dois artistas.

Foi essa troca de gentilezas com Ross e Mill que levou 50 Cent a tirar uma foto emblemática, em resposta às acusações de “falido” (broke):

Paralelo a isso, 50 Cent preparava o projeto The Kanan Tape (2015), que conta com participações de artistas como Young Buck e Sonny Digital. Produzida por nomes como Alchemist e London On Da Track, a mixtape conta com sete faixas inspiradas em um personagem da série “Power”, da qual 50 é protagonista e produtor executivo. Ela foi mencionada pelo site HipHopDX como “as melhores músicas que [50 Cent] tem feito em anos”, sendo classificada com quatro estrelas de cinco pelos críticos do site e com uma nota de 4.21/5 pelos usuários. The Kanan Tape pode não ser o trabalho que devolverá a 50 o topo do jogo, se é que tal trabalho um dia virá. Mas seu nome com certeza representa um grande e cheio respiro renovador para a discografia do rapper, que se via afogada na pressão de lançar trabalhos tão bons quanto seus primeiros. Ouça em stream:

No final de tudo, a impressão que dá é que 50 Cent não aprendeu nada com a falência que pediu. E sejamos francos: improvável que aprenda. Curtis James Jackson III é de uma geração do rap que cresceu rodeado de violência — vendo nomes como Tupac e Biggie morrerem em prol de uma disputa que até hoje ninguém sabe direito como surgiu — e a atmosfera urbana caótica em que cresceu o obrigava a comportar-se de forma a sempre afirmar-se como o melhor, não importa por quais meios. Muitas vezes nos esquecemos que 50 Cent, antes de ser rapper, é produto perfeito do gueto americano dos anos 80-90, estruturalmente abalado pela epidemia do crack. Esquecemos que foi exatamente com esse tipo de atitude que ele chegou onde chegou e conquistou o que conquistou. Como foi dito, lá em 2005, em “Hustler’s Ambition”: America got a thing for this gangsta shit, they love me. Resta saber se, 11 anos depois, esse thing ainda é forte em território americano.

O Raplogia, como sempre, fica ligado nos próximos acontecimentos para que esse artigo tenha outra continuação.

2 Respostas para “O Fenômeno 50 Cent: O Que Aconteceu? (Parte II)

  1. Parabéns! Vocês têm evoluído constantemente. O site está atingindo uma qualidade inédita neste seguimento! Acompanhando…

  2. Interessante como voces abordam os assuntos, usam uma linguagem técnica aliada à uma linguagem simples (popular), aqui em Moçambique existem bons rappers porem faltam excelentes analistas Hipopisticos, tenho acompanhado o vosso trabalho com tanta frequência sempre que eu puder claro, o que eu posso dizer sobre 50, é que ele é o “cara” como dizem brasileiros, desde 2003 acompanhando o tipo uma das coisas k saliento é k ele é resistente e persistente diferentemente de vários k estão parados no tempo, desde ja proponho vos a trazer rappers que fizeram sucesso e que hoje é contraste de sucesso.

    Melhores cumprimentos!!!!

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