“I’m a classic man!”: Jidenna e a Masculinidade Negra

As masculinidades, como toda identidade de gênero, são construídas principalmente através dos corpos. O corpo é o que determina os lugares e a posição dos sujeitos no interior dos grupos sociais, a partir dos padrões e referências das normas, valores e ideais de uma cultura. No artigo anterior, vimos como a melanina, a crespitude e principalmente a gordura são aspectos que não configuram o padrão estético hegemônico de beleza, fazendo com que alguns corpos se importem mais do que outros. Segundo o pensamento de Judith Butler, grande intelectual das questões de gênero e sexualidade, os discursos habitam nossos corpos como se fizessem parte do nosso próprio sangue. É através das práticas discursivas compreendidas em processos históricos socioculturais que os aspectos materiais dos corpos são convertidos em definidores de raça, gênero, sexualidade, dentre outras categorias identitárias que consequentemente acabam definindo também os indivíduos, como nos faz compreender o rapper Jidenna, músico que integra a Wondaland Records – gravadora da consagrada Janelle Monáe, e seu controverso estilo Classic Man que reinventa a estética Hip Hop e as masculinidades rappers de nosso tempo.

Geralmente conhecemos um rapper norte americano a partir da configuração de sua estética, e como o mesmo constrói sua corporeidade e performance: os rappers são profundamente marcados por alguns elementos e aspectos-chave, como roupas demasiadamente largas de marcas e grifes famosas no mercado, joias extremamente caras (como correntes, medalhões, relógios, brincos, anéis e até mesmo dentes de ouro), carros importados, corpos musculosos tatuados, robustos e sarados, a prática de atitudes transgressoras como sexismo, agressividade, violência, desordem, consumo de drogas e sempre acompanhados de mulheres belíssimas para ressaltar seus “instintos” eróticos, lascivos e viris. Jidenna é um rapper que se opõe a todos esses aspectos: Ternos bem cortados, cabelo e barba impecáveis, acessórios sofisticados, carros de luxo e ambientes vintage que nos transportam para os anos 1920 entram em colisão com as sonoridades do Rap contemporâneo. Desde os tempos do Harlem Renaissence, nos quais a arte negra pulsava violentamente em Nova York e os poetas recitavam ao som de jazz (para mim os primeiros rappers da história), homens da estirpe de Jidenna são como alienígenas no universo da cultura Hip Hop. Pesquisador do século XIX e da Era Jim Crow, Jidenna através de sua música e estilo propõe o resgate das masculinidades negras do pós-abolição nos Estados Unidos conectando o ser/estar homem negro na América com a estética masculina nigeriana, personificada na imagem de seu pai Oliver Mobisson, sua grande inspiração.

O homem negro ocidental do século XX desenvolveu um intenso processo sistemático de ressignificação de imagens e projeções de si forjadas pelos mitos e estereótipos racistas a partir da eclosão dos movimentos de ativismo negro por direitos civis, que possuíam como maiores influências as trajetórias e ações dos movimentos negros dos Estados Unidos surgidos a partir da década de 1960 e liderados por lideranças como Malcolm X e Martin Luther King Jr. Os Panteras Negras e o movimento Black Power instalaram na sociedade norte americana uma espécie de estado de permanente prática de enfrentamento ferrenho ao racismo e à exclusão etnicorracial, que dentre outros efeitos mais profundos e significativos, como a conquista gradativa de direitos civis e oportunidades iguais para a população negra, acabaram provocando um processo eficaz de descolonização mental da população ainda atormentada pela tradição herdada das Jim Crow e da One Drop Rule, legados do pós-abolição da escravatura nos Estados Unidos que configuraram um regime de classificação bi-racial reconhecendo negros e brancos como únicos componentes da população, excluindo, por exemplo, indígenas e imigrantes latinos.

A instituição e promulgação da legislação de segregação de negras e negros norte americanos conhecida como leis Jim Crow no final do século XIX acabaram interferindo de forma extremamente decisiva na vida e no cotidiano do pós-abolição nos Estados Unidos. Ônibus, trens, lavatórios, bebedouros, cinemas, restaurantes, lojas, lanchonetes, escolas, bairros residenciais, utensílios, dentre outros, eram disponibilizados de forma separada e exclusiva para a população negra com a finalidade de não promover a integração sociocultural desta com a população branca. Dentre as leis segregacionistas, estava previsto e determinado que homens negros não poderiam se casar e nem manter relações afetivo-sexuais com mulheres brancas, por exemplo. Assim, a sociedade machista e patriarcal norte americana, que compreendia a mulher como objeto de posse e propriedade exclusiva do homem branco, evitava ao máximo o processo de hibridismo e miscigenação étnicorracial a partir da ideologia One Drop Rule (única gota de sangue), que constituía uma forma de regra sociocultural segregatória norte-americana para identificar os indivíduos submetidos ao processo de miscigenação na sociedade dos Estados Unidos, a partir do fim do século XIX. Segundo tal regra, a pessoa com antecedentes familiares negros e indígenas, mesmo possuindo fenotipicamente a epiderme branca e traços e formas anatômicas não características de tais etnias, era considerada não branca socialmente. Dentre tais leis, destaca-se a Lei da Integridade Racial, criada no estado da Virgínia, em 1924, que serviu como modelo para outras legislações racistas de estados norte americanos:

“Será ilegal, de agora em diante, que qualquer pessoa branca case-se com qualquer um que não seja uma pessoa branca ou com uma pessoa com uma mistura de sangue que não seja de branco e de índio americano. Para a finalidade dessa lei, o termo ‘pessoa branca’ deve-se aplicar somente àquele que não tenha traço algum de qualquer sangue senão o caucasiano; mas as pessoas que tenham 1/16 ou menos de sangue de índio americano e não tenham nenhum outro sangue não-caucasiano devem ser definidas como pessoas brancas.”

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Linchamento público de homens negros em 1930 nos Estados Unidos. Inventar as masculinidades negras era inventar a liberdade.

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Homem se refrescando em um bebedouro só para negros em tempos de Jim Crow. Goles sólidos e amargos de ódio.

O homem negro no contexto das colonizações europeias imergiu em uma grande crise de masculinidade, provocada por sua submissão ao sistema escravocrata moderno. O homem branco, monopolizador do poder hegemônico nas sociedades coloniais, apresentava um aparelho de códigos de comportamentos que caracterizava o que podemos chamar de “masculinidade senhorial”: os senhores e seus escravos, como a relação de um pai e seus filhos, acabaram infantilizando os homens negros escravizados, roubando-lhes valores indispensáveis para a configuração de suas masculinidades ostentadas em solo africano. A invenção da liberdade para homens negros no pós-abolição do trabalho escravo em países como Brasil e Estados Unidos significou o resgate dos ideais de suas masculinidades negadas em uma espécie de ritual de (auto) possessão de valores masculinos patriarcais e falocêntricos. O homem negro acabou incorporando aspectos como a força física, proeza sexual, poder de submissão, posse e o controle de propriedades como uma tentativa desesperada de superação e sobrevivência de um passado atormentado e sombrio, marcados profundamente pela secular subordinação masculina do homem negro pelo homem branco.

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Cena do filme 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen. No roteiro, o músico negro livre Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é sequestrado e vendido como um escravo no século XIX.

Aqui se insere um fenômeno nomeado pelo intelectual Stuart Hall de “transcodificação simbólica”: os homens negros, além de incorporarem tais valores patriarcais e falocêntricos, acabaram ressignificando os mitos e estereótipos criados sobre suas masculinidades na experiência da escravidão e do colonialismo em uma dinâmica de subversão e resistência. As suas identidades de gênero masculinas são adotadas como contra discursos transgressores, caracterizando uma atitude de vingança masculina em relação ao homem branco, que os relegou historicamente à impotência, dependência e exploração. As projeções imagéticas transgressoras de homens negros misóginos, sexistas, homofóbicos, agressivos, violentos, desordeiros, eróticos, lascivos e viris, presentes na construção das identidades masculinas dos rappers norte americanos, possuem sua origem nesse processo contemporâneo de (re)invenções dos homens negros de suas masculinidades diaspóricas que se estende até os dias atuais. O código sociocultural Thug Life do lendário rapper Tupac Shakur é um grande exemplo do processo de resistência masculina aos padrões opressores das masculinidades hegemônicas, propondo uma outra configuração de masculinidade rapper presente na história da cultura Hip Hop.

Entretanto, a maioria dos rappers norte americanos continuam a propagar principalmente através de seus videoclipes uma ideologia de estilo de vida que hiperpotencializam as práticas e experiências socioculturais de sofisticação dos homens negros periféricos nas grandes metrópoles urbanas dos EUA, dando origem ao que podemos intitular como “estética da ostentação”: fama, sucesso, poder, luxo, dinheiro, motos e carros importados, joias, mulheres, drogas, roupas de grife, propriedades, empregados, espaços elitizados, luxúria e exibicionismo são fatores equacionados em uma fórmula impressionante de ascensão social de homens detentores de masculinidades não hegemônicas, caracterizando uma dinâmica quase que desesperada de compensação – outra resposta violenta de homens marginalizados pelos ideais supremos de masculinidades presentes na atualidade. Porém, Jidenna procura também se posicionar e dar sua resposta, vestindo seu corpo negro com roupas e valores do passado em tempos pós-modernos. Como as vestimentas e indumentárias, o racismo e as fobias tomam novas cores e texturas fazendo com que o passado seja uma roupa que herdamos e vestimos até hoje. Pensando a história como uma espiral, não como uma linha ou círculo, Jidenna nos coloca em contato com nossos ancestrais e nos faz refletir sobre o árduo desafio que é ser homem negro na diáspora negra.

 

Daniel Dos Santos (DanDan) é licenciado em História pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), mestrando em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), membro fundador e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Africanos e Afrobrasileiros (AfroUneb) e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade (CuS), nos quais desenvolve o #TheGangstaProject: Masculinidades Negras nos Videoclipes dos Rappers Jay Z  e 50 Cent. É apaixonado pelo Drake e Kanye West. Os boxeadores negros são suas principais inspirações.

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