Raplogia Entrevista: Preta Rara

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Preta Rara é uma artista que tem essência, que acima de tudo, enxerga que a composição é o elemento mais importante do rap. Parece algo simples e que todos sabem, mas se formos parar e refletir sobre algumas músicas que tem saído nesses últimos anos, infelizmente percebemos que muito som fraco tem feito sucesso. Infelizmente basta um refrão pegajoso e muitos ouvintes já julgam que a música e o ‘artista’ são excelentes.  

Quem ouviu Audácia, álbum de nossa entrevistada, sabe do peso que suas letras possuem, como por exemplo:  questões como o combate ao racismo e sexismo estão lá, paralelos entre o passado e o presente, referências as raízes africanas, empoderamento, enfim, Preta Rara dá uma aula em seu projeto, já que todos os temas foram explorados com bastante profundidade. A artista musical/professora de História está no corre desde 2005, ou seja, sua caminhada é calcada na palavra resistência. São mais de dez anos de amor para com o rap. Mas amor não basta, e quem acompanha sua caminhada sabe disso, pois Preta Rara além de ser uma amante da música, é uma estudiosa da mesma, sendo que em algumas de suas entrevistas notamos o quanto ela enfatiza a importância de se olhar para o passado e saber respeitá-lo e também reverenciá-lo. Enfim, para o Raplogia, é uma honra ter essa troca de ideias com a artista musical.    

1- Preta Rara, primeiramente gostaria de saber algumas de suas influências na música e como foi seu primeiro contato com o rap?

R: Meu primeiro contato com o Rap foi através do meu pai, ele sempre escutava música preta americana e nacional.

O meu primeiro disco que lembro de ter ouvido foi do Kool Moe Dee, eu era bem pequena, mas as batidas pesadas já faziam eu mexer a cabeça, lembro também do disco da Salt- N- Pepa, eu amava e pedia para a minha mãe colocar sempre na vitrola.

2- As expectativas que você tinha com o Audácia foram cumpridas? Aliás, ele saiu na lista do RND de melhores álbuns de 2015, meus parabéns.

R: Sim a repercussão foi  e está sendo além do que eu podia imaginar.

Eu achei que o disco não sairia de SP, mas fui cantar em vários estados e para a minha surpresa tinham pessoas cantando junto comigo.

A primeira vez que isso aconteceu fiquei de queixo caído sem saber o que fazer e esqueci até o próximo verso da letra.

Fiquei mega feliz quando eu vi que o disco saiu na lista da RND e em diversas listas, saiu também em um site chileno em uma lista de discos revolucionários.

3- Sempre fui um fã de projetos e músicas com uma pegada mais pessoal, e em seu álbum, há uma faixa em particular, chamada ‘Graças ao Arauto’ que tem esse estilo, aliada é claro com sua vertente crítico/social. Não tem como eu deixar de perguntar, quando realizou a composição da música você logo mostrou a escrita para o Arauto ou esperou até que a música fosse gravada, para daí sim mostrar a ele? E como foi a reação dele a essa bela homenagem?

R: Então, na real o Arauto é um mensageiro que tanto pode trazer paz ou guerra.

Não é nenhum personagem real, algumas pessoas perguntaram se eu era evangélica ou se a música era gospel e tal.

Porque essa palavra é desconhecida mesmo do nosso vocabulário.

4- Com o tempo tudo muda, inclusive no rap. O que antes era meio que uma obrigação todo rapper ser politizado e ter uma voz ativa em relação ao combate ao racismo, hoje em dia é visto com naturalidade por muitos se algum rapper não é ligado a essas questões, e na verdade, alguns nem fazem questão de ser, nem na música, entrevistas e redes sociais. Gostaria de saber como enxerga essa questão?

R: Bom o Rap tem várias vertentes e mudou muito desde os anos 80.

10928728_4978999128243_132052840_nJá teve seu auge, uns dizem que já decaiu e o momento atual é de independência para o que se quer fazer, porém com sabedoria, pq o Hip Hop não é bagunça não!

Penso que tudo o que nós fazemos tem um sinal de contestação, estou escrevendo uma música que se chama “Dançar é um Ato político”.

Ou seja, podemos abranger várias ideias em nossas composições musicais.

Eu  escolhi botar o dedo na cara dos racistas, nas pessoas que acreditam em meritocracia, nos gordofóbicos e vários outros opressores. Mas, tenho total liberdade pra falar o que eu quero.

Só tenho um pouco de receio se todo mundo resolver escrever sobre várias coisas e deixar a reivindicação de lado.

O hip hop nasceu protestando e espero que não morra nunca essa ideia inicial.

5- Sua formação acadêmica é em História, o que te fez escolher o curso e como ele mudou sua visão de mundo?

R: Sim, sou historiadora e professora, descobri a minha profissão através da cultura Hip Hop, pois sempre ouvia alguns raps que contavam a história dos pretos e pretas.

E nas minhas músicas sempre procuro colocar alguma informação histórica, por exemplo, foi depois que eu escrevi Falsa Abolição que eu resolvi enfrentar a universidade.

E foi difícil essa época, eu era empregada doméstica e não tinha tempo de estudar, mas como pra mulher, preta e periférica nada é fácil eu venci e contrariei as estatísticas.

6- Desde a sanção da lei 10.639 no ano de 2003, as instituições educacionais têm a obrigatoriedade de trabalhar a História e Cultura Afro-brasileira e Africana. Gostaria de saber se há apoio do governo em relação a materiais didáticos ricos em relação a esse conteúdo, assim como também o oferecimento de cursos e especializações para os educadores? Ah! Claro que não poderia deixar de perguntar se você também trabalha com o tema através de letras de rap?

R: Olha, hoje existem muitos materiais didáticos, alguns fornecidos pelo governo impresso e outros em arquivo online.

RAPBasta também o professor ter interesse de buscar as informações, costumo dizer que quando houve a mudança ortográfica na Língua Portuguesa, vários professores correram atrás da informação.

Falta vontade por parte de alguns trazer o conhecimento da nossa real história brasileira.

Em minhas aulas eu passo o que está no livro e depois fecho o livro e desminto vários assuntos e costumo trabalhar com letras de outros rappers em minhas aulas.

Trago um diferencial para que eles saiam da escola gostando de estudar sobre a História Geral e principalmente do nosso país.

7- Quando uma rapper é entrevistada, quase sempre rola a famosa pergunta ‘Como é ser uma mulher no meio do Hip-Hop?’. O que você acha dessa questão? Ela já passou do prazo de validade ou ainda deve ser realizada?

R: Olha, depende para que público será a entrevista, pq se for pra galera que conhece e está inserida em nossa cultura, eles já estão ligados na resposta.

As mulheres já conquistaram várias coisas, hoje eu posso cantar de mini saia, top e com a roupa que eu quiser graças as mulheres que no passado tiveram que se masculinizar como Sharylaine, Rúbia, Mc Rose e tantas outras.

Mas, o machismo ainda existe, pq ele está na sociedade inteira e infelizmente o Hip Hop não está imune.

A mulherada tá chegando de igual pra igual, não quero competir com homem nenhum, só quero ser reconhecida pela minhas ideias.

8- Faz um bom tempo que guardo uma dúvida em minha cabeça e se puder me responder eu agradeço. Quando rola matérias listando minas do rap que os fãs precisam ouvir, será que essa perspectiva, de enquadrar as mulheres como se todas formassem unicamente um gênero específico dentro do próprio rap, não seria um erro?

R: Ah depende, se a lista for pra mostrar que existem sim mulheres no Rap acho válido.

É que essas listas têm que existir, pois nunca colocam o nome das mulheres nessas tantas listas que saem sobre rap.

9- Sabemos que os fãs de rap tem um pé atrás em relação a alguns temas trabalhados, como por exemplo quando um rapper fala sobre amor, muitos caem matando em cima. Em seu projeto, a música ‘Conto de Fadas’ mostrou que rompeu com essa amarra. Você sentiu algum tipo de dúvida ou medo sobre acrescentar essa faixa ao álbum, por causa de uma possível rejeição dos fãs de rap mais conservadores?

R: Na real quando eu escrevo não fico pensando nas críticas, pois elas sempre existem.

Eu tive dúvida de colocar esse som no cd pq eu escrevi de zuação, pra “homenagear” um babaca do passado. Mostrei para algumas pessoas e elas cascaram o bico e disseram que eu deveria colocar sim, como são pessoas que eu confio assim acreditei e coloquei.

10- O pessoal aqui do blog é bem viciado em cinema também, você poderia deixar por gentileza alguma indicação de filme para nossos leitores?

R: Opa, assisto muito filmes, mas com a correria em ter que dar conta de dar aulas e cantar, já é difícil conciliar tempo pra tudo isso.

Mas, segue aí alguns clássicos e outros nem tão conhecidos.

*O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (escrevi vários raps ouvindo a trilha sonora desse filme que é phodástica)

*Hotel Ruanda

*Vênus Negra

*Vida de Maria (curta-metragem)

*A Onda

11- Preta Rara, agradeço pela troca de ideias. Toda equipe do RAPLOGIA te deseja progresso na caminhada! Pode contar sempre conosco. Se quiser deixar uma palavrinha final, sinta-se à vontade.

R: Poxa, muito obrigada pela oportunidade e espero ter sempre esse canal para poder me expressar.

Saudações Africanas a todas as Rainhas e os parceiros.

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