Real é o que sentimos, somos: impressões de um rolê em Fortaleza

“Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer ‘não’, eu canto”

Belchior

 

Em agosto de 1882, entre os dias 8 e 24, Nietzsche enviou à escritora e psicanalista Andreas-Salomé algumas cartas nas quais estabeleceu regras estilísticas acerca da escrita. Poucos mais de 20 anos depois, em um livro que leva o nome do filósofo, Andreas-Salomé publicou o conteúdo sob o título Rumo ao Ensino de Estilo. Numa dessas regras é sintetizado que “o Estilo deve provar que alguém acredita em uma ideia; não apenas que acredita, mas também a sente”. Partiremos disto para falar do trabalho do Carlos Gallo e de uns rolês que demos com ele.

Na primeira vez que conversamos pessoalmente, Gallo falou sobre sua inquietação artística, sobre como a música possibilita externar o que acontece no seu universo e como esse universo se relaciona “com tantas outras formas de viver e ver a vida, sem necessariamente envolver a violência”. As vezes, essa relação com o outro é bem simples. Por exemplo, na costa oeste de Fortaleza, onde Gallo mora, um dos hotéis mais luxuosos da cidade divide lugar com uma das favelas mais quentes, separados apenas por uma avenida. Da costa oeste pode-se cantar a cidade, o bairro, a avenida, mas as semelhanças entre o discurso do Gallo e o de qualquer passante param nos referenciais concretos, pois “cada mente é um mundo” e a forma de sentir a brisa do mar pela sacada do hotel é completamente diferente da forma de sentí-la de cima do morro. Através dessa percepção social – que é di/tri/policotômica – a relação entre artista e ouvinte ganha várias dimensões e é aí que os universos interagem. No decorrer da conversa ele me questiona: “Você sentiu o feeling?!” e logo responde que “Temos Manhatann e Brooklyn bem aqui”, seguindo  com risos.

Mas não é só para dizer que todo gueto é igual em qualquer lugar que a narrativa do MC vive. Fala-se de amor e, principalmente, fala-se das várias formas que esse substantivo possui. Um desses formatos perpassa no campo social, é o amor pelos seus iguais. Dizem os mais românticos que se percebe que alguém ama o outro quando, ao dar forma à sua expressão, o interlocutor perde a voz, treme as pernas e realmente fica frio. E isso tudo aconteceu do outro lado da cidade, na orla da costa leste, Praia do Futuro, Don L side, durante uma apresentação do Gallo. A história é a seguinte: ocorreu uma chacina em Fortaleza, 2015, doze pessoas foram mortas durante uma madrugada, a maioria era formada por jovens entre 16 e 19 anos e a motivação para a barbárie era, até então, desconhecida. Somado a isso, há tudo o que ocorre no cotidiano, na vida dos seus amigos, a vivência com uma dor que, de tão recorrente, se torna banal, mesmo não devendo ser. No meio de tudo isso, aconteceu Missão, uma faixa que brinda a vida, o momento presente, esse tão importante, e diz, como o Costa a Costa sempre fez, “É bom viver, chapa!”.

Foi quando o Dj Willian pôs essa track no show da Praia do Futuro que tudo aconteceu: o rapper perde a voz, amigos no palco choram, alguns se solidarizam e o tempo fecha. Nesse momento, acontecem duas coisas fantásticas que só quem entende o quão transformador é o discurso do hip-hop consegue captar: a primeira é que a platéia entrou num silêncio uníssono, porque não é uma narrativa ficcional, é real, não existe um eu-lírico diferente de cada ouvinte e do próprio rapper; vive-se a mesma cidade, é a nossa vida que caminha num fluxo finito; em segundo lugar, o fim do sepulcro. Se, por um lado, o rapper não tem mais voz, por outro lado o MC se agiganta. Gallo fala sobre as perdas, sobre a vida, sobre a importância daquela festa enquanto re-união e existência compartilhada. Depois disso a música volta e todos são Carlos Gallo durante os minutos que seguem a música.

Envolto no emaranhamento “meu universo-seu universo”, na lida com a dor do outro que também é sua, Gallo diz que “Fortaleza não é bem um mar de rosas, mas hoje se canta mais do que o óbvio, aqui se canta e se sorri, é nisso que consiste a afronta“. E por esse caminho empondera-se o artista a si mesmo, numa jornada que também é de fé em dobro.

Assim, além de sentir, o estilo deve provar que alguém é essa ideia e como o rapper mesmo diz “eu sou Costa a Costa, me chamam Carlos Gallo”.

Para conferir outros sons do MC, basta apertar o play:

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3 Respostas para “Real é o que sentimos, somos: impressões de um rolê em Fortaleza

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