Orelhas por detrás das orelhas: nota para reflexão sobre multiplicidade de ritmos

O homem começou a falar em verso, não em prosa. Suas frases iniciais eram curtas, cadenciadas, muitas vezes repetindo sons e criando, com isto, a rima. Até hoje, grande parte de pensamentos adota o verso. Se elaborado com destreza, um punhado de vocábulos abarca inúmeras filosofias. A fala em prosa viria mais tarde, quando conjuntos de palavras foram levadas a explicar tudo e o homem precisou de uma lógica para lidar com o dia-a-dia.

No começo, era a natureza com seus ruídos – o vento nas folhas, o canto de pássaro, uma pedra rolando no morro – que se encarregava de fornecer um ritmo compassado e contínuo que os primeiros habitantes da terra absorviam para usar no que desejavam dizer. O poeta e ensaísta Robert Graves, em seu livro “The White Goddess”, enumera ritmos que se transformavam em versos. O ferreiro que batia três vezes na forja primitiva de então, levava a frase a surgir também em medida trinaria; o cair dos remos na água criava uma cadência binária; o galope do cavalo era espaçado, e as frases nele inspiradas se espraiavam com mais largueza.(1)

Contudo, há infinitas inspirações ao ritmo. O português falado no Brasil, por exemplo, foi amolecido e acrescido de musicalidade devido a profunda influência africana no período escravocrata. A forma manhosa de falar, as colocações pronominais e até mesmo os diminutivos usados na linguagem cotidiana provêm, de acordo com o sociólogo Giberto Freyre, de traços psicológicos do escravos, como brandura e alegria, que foram acrescidos à língua.(2) Pode-se discordar disto: talvez a moleza tenha vindo do tronco e da peleja, da dissimulação na lida com o senhor de engenho e não da bondade do negro. Todavia, nossa língua não se manteve atada à casa-grande, tampouco rendeu-se completamente à senzala e o influxo africano é sólido como uma pedra ao sol.

Ao atualizarmos este prefácio para o contexto do rap, podemos analisar a musicalidade de várias regiões do nosso país ou do globo longe de um olhar preconceituoso. De onde vêm aqueles sotaques e flows? O que inspira MPC’s e sintetizadores daquele beatmaker? As respostas para essas e outras perguntas, quando bem elaboradas, são componentes indispensáveis para que o estilo e a história de cada músico sejam entendidos, o que acaba por ampliar e até ressignificar nossa visão.

Longe de querer encerrar o assunto, os breves exemplos têm o intuito de fomentar novas percepções/indagações. Em tempos de discussão veemente sobre pluralidades, é importante que entendamos de forma cada vez mais abrangente o estilo como produto de diferentes aspectos que vão de cultura a clima e saibamos repeitá-los.

Referências Bibliográficas

1 http://www.academia.org.br/?infoid=1951&sid=391&tpl=pr

2 FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. 51ª Ed. São Paulo: Global, 2006.

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