Sobre umas rimas meia-boca e um ego pra lá de Marraquexe

Há pouco tempo, vi na comunidade Genius Brasil um fórum que perguntava “O que falta para o Rap Brasileiro?” 

Bem, se considerarmos muitos dos MCs que já têm trabalhos sólidos ou que estão num processo consistente de ascensão, a resposta é: não falta nada – inclusive, várias ponderações acerca disso feitas no próprio fórum são excelentes.

Mas e se formos olhar para quem ainda não atingiu maturidade artística? O que dizer?

Falta labor, consciência artística, saber o que se é, onde se quer chegar…

A questão aqui não é ter pouca instrução formal, muito menos fazer um trabalho que ainda não tem profundidade conceitual, mas, sim, o que fazer para mudar isso e, a partir daí, conseguir levar um trampo a outros patamares e, durante esse processo, apresentá-lo de maneira coerente (por que não?!).

Para tanto, é necessário trabalho duro e no Brasil já começamos mal, porque aqui ninguém lê. Isso nos leva a uma conclusão: 1) você lê, expande sua mente e elabora coisas realmente significantes ou 2) não lê, decora umas  punchlines dos jornais e passa a vida no lugar comum de quem não consegue sequer ter autonomia do próprio pensamento, muito menos criar algo decente, achando que só à luz de muita inspiração se faz um bom trabalho. E, possivelmente, esse seja um dos maiores problemas: o senso comum sobre a tal inspiração.

Em entrevista ao Jornal Estado de São Paulo, em 22 de março de 2003, Rachel de Queiroz, primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL), disse:

“A noção comum que se tem a respeito do escritor é que pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas, ou do Espírito Santo, ou de um outro espírito propriamente dito – fenômeno a que se dá o nome de ‘Inspiração’. O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel graças ‘àquele’ dom de nascimento que é a sua marca. Pode ser que existam esses privilegiados – mas os que conheço são diferentes. Não há nada de súbito, nem de claro, nem de fácil.”

Com isso, a romancista cearense não pretende eximir o papel da inspiração no processo criativo, mas desmistificar um conceito cultivado no imaginário popular, o de que a criação artística não está intrinsecamente ligado a esforço e disciplina, mas sim a algo transcendente.

Já Clarice Lispector, em entrevista concedida em 1977 à TV Cultura, dá a seguinte resposta quando o repórter Júlio Lerner pergunta em qual horário a escritora acorda:

“Quatro e meia, cinco horas. Fico fumando, tomando café, sozinha sem nenhuma interferência. Quando estou escrevendo alguma coisa eu anoto a qualquer hora do dia ou da noite, coisas que me vêm. O que se chama inspiração, não é? Agora quando estou no ato de concatenar as inspirações, aí sou obrigada a trabalhar diariamente.”

E o trabalho diário não se resume a escrever. O trabalho é consumir cultura – quantos livros você lê por mês?; é acompanhar mais de um jornal e não consumir só as manchetes; é  conhecer sobre o que se pretende discursar e sair da redoma musical para encontrar conhecimento; é estudar teoria musical, ritmo, compasso, porque um flow não se aprimora do nada. O trabalho diário é foda.

Ainda, somado ao que foi dito pelas duas escritoras, demos espaço a um dos maiores letristas do rap brasileiro. Gustavo de Almeida, aka Black Alien, fala sobre alguns encontros com Sabotage e se posiciona diante de elogios vindos de amigos, músicos e jornalistas:

*Faixas 4 e 8 da mixtape “Mr. Niterói a Lírica Bereta”, trilha sonora de documentário homônimo que aborda a carreira de Black Alien.

Além de comentar sobre a avidez por conhecimento de Sabotage – e, mais uma vez, ratificar o que dissemos anteriormente-, Black Alien recusa a qualificação de gênio e esse é o gancho para o próximo tema!

Embora eu discorde do MC (afinal, ele é genial!), é preciso muito pé no chão para não se deixar levar pelo ego. Então, vejamos nós: um dos mais influentes rappers do Brasil recusa tal elogio, mas há quem lance seu primeiro single – que mais parece um cover do CPM 22 – e se ache o Marvin Gaye da parada; ou quem tenha um trabalho péssimo e uma vaidade tão grande quanto sonha que um dia seja sua conta bancária. Calma lá!

Ter dimensão do próprio trabalho e, antes de tudo, de si mesmo, é muito importante, pois todo bom artista é, também, um bom psicólogo. E não adianta enfeitar um trabalho e tentar dar a ele uma profundidade que não seja própria dele. Isto é como pintar um quadro barroco. Além do mais, é importante que uma ideia realmente complexa, quando existir, venha acompanhada de uma expressão simples, do contrário, o texto acaba perdendo boa parte da sua função.

E, além da falsa complexidade atribuída ao trabalho, há as traduções erradas (erradíssimas!) de cenários estrangeiros para o nacional. Mais uma vez, com a palavra, Black Alien:

E aí não dá pra agir como se seu home studio fosse a sede da Ruthless Records ou da A$AP Mob, só porque as amizades dizem que é, certo?! Mas se esse for o pensamento, voltamos à conversa sobre ter dimensão do próprio trabalho e de si mesmo.

Diante disso, não dá pra fazer um som de qualquer jeito, escrever qualquer coisa pseudo-complexa como release e sair tentando fazer com que escutem seu som como se você fosse o novo Tupac se você não o é. Um bom trabalho requer tempo, um discurso sólido requer estudo, vivência.

E eu nem falei do hype que faz a cabeça de uma geração inteira . Isso é papo pra outro dia.

Uma resposta para “Sobre umas rimas meia-boca e um ego pra lá de Marraquexe

  1. Acho que oque mais falta hoje no rap nacional é a falta de originalidade por artistas, é muito artista procurando inspiração/influencia na mesma fonte, e geralmente essa fonte é um outro grupo ou mc, entao logo acabam virando uma cópia barata de um outro, são poucos os que procuram fontes de inspiração diferentes, como em artistas de outros genêros ou como a falta de leitura que vocês mesmo citaram. Geralmente os que realmente podem receber o título de artista, que são aqueles preocupados com sua arte, procuram uma constante evolução, sempre atras de novas fontes, enquanto esses outros que são as copias uns dos outros, geralmente estão mais preocupados com a imagem, nos primeiros 15 segundos de fama se enchem de tatuagem, se vestem como superstar e sempre que possivel querem deixar claro que fumam maconha. Não sei se consegui deixar claro meu ponto de vista, mas enfim, parabens pela matéria. É por vocês abordarem esse tipo de tema que me faz acompanhar o site!

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