[Opinião] Precisamos escutar o Shawlin/Cachorro Magro

Esse texto não tem a intenção de analisar o single “Adeus, Velha Era!” sob uma visão musical, e farei questão de não entrar nesse mérito em momento algum. Também não me prestarei a fazer uma análise das variadas interpretações do processo de impeachment e tampouco opinarei sobre minhas expectativas do governo Temer, sendo esse considerado pelo leitor legítimo ou não. Darei mais ênfase ao debate que é levantando pelo episódio que será exposto do que ao conteúdo da música ou de acontecimentos políticos em si. Dito isso, começo.


No dia 11 de maio de 2016, o rapper carioca Shawlin/Cachorro Magro lançou um single chamado “Adeus, Velha Era!”. A data não foi escolhida por acaso: foi o dia em que o Senado aprovou o afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff por 180 dias, como parte do rito do processo de impeachment iniciado no mesmo ano. Foi publicada também, junto com a música, uma postagem contendo as opiniões políticas do artista. Veja na íntegra aqui:

Todo esse fato seria comum e passaria despercebido pelos olhos da maioria dos ouvintes se o post não tomasse o lado que tomou no chamado Fla x Flu político que o país tem visto. Não daria nem artigo. Mas é importante aqui olhar para o contexto e analisar as circunstâncias. Shawlin, em meio a um público acostumado a concordar com vertentes da esquerda política, se posiciona de forma diferente da visão majoritária da comunidade Hip-Hop, causando estranhamento e, é claro, rejeição. Enquanto a postagem não é um poço de lucidez política – apesar de apresentar boa argumentação em alguns momentos –, ela não manifesta apoio ao movimento do “Hip-Hop contra o Golpe”, noticiado e divulgado amplamente por vários tipos de mídia e fortalecido por manifestações de grandes nomes do rap. Apesar de festejar o afastamento da presidente, o rapper deixa claro na postagem em questão que não fala de partidos. “As pessoas de mente pequena pensam em partidos, morrem defendendo o indefensável, grandes mentes descutem (sic) idéias, que existem livres de partidos!!”.

Fonte da imagem: Pragmatismo Político

Entre acusações de golpismo e interpretações da Constituição Federal, entre cuspes e exaltações a torturadores, entre minutos de falação no plenário da Câmara e do Senado, entre guerra de ativistas e coberturas midiáticas suspeitas, Shawlin diz escolher o “foda-se”. Diz fazer jus a sua dita postura anarquista frente aos problemas da sociedade. Por expor opinião destoante do grupo de ideias que o público de rap acha que o gênero tem, o rapper vê grande rejeição por parte dos ouvintes. E isso é muito bom.

Não digo que é bom porque eu concordo com todas as ideias expostas no post, tampouco porque tenho essa postura classificada como anarquista. Digo que é bom porque esse episódio possibilita a deliberação sobre um tema que, na minha opinião, vem limitando o progresso do rap como gênero musical há anos. Ficamos presos — e eu me incluo nessa — na constatação de que o rap é de esquerda, de que seu poder acaba quando falamos mal de certos governos ou políticos. Debatemos sobre os problemas que o rap nos traz tomando isso como premissa garantida. O colocamos em esquemas maniqueístas de “nós” vs “eles” em diversos contextos.

Nós sufocamos a forma de arte que dizemos tanto adorar.

Se a Zulu Nation, KRS ONE e Afrika Bambaataa estavam certos ao expor o conhecimento como elemento do hip-hop, acho necessário que a cultura busque expor TODO o tipo de conhecimento possível. Se não o fizer, não estará funcionando em sua máxima potência. Isso sem falar no fato de que o rap é música, portanto arte, e não deve ter restrições políticas ou de qualquer tipo. Por essas questões,  acho incoerente dizer que qualquer uma das artes que a cultura do hip-hop engloba é de esquerda/direita. Penso com frequência: e se alguém um dia acordar, entender o socialismo como um sonho infantil, e resolver fazer um rap de direita? Uma letra que associa sucesso ao dinheiro? Um grafite com mensagens de direita? A favor do sistema? Já era? Vai ser expulso do Hip-Hop? Me parece incoerente com a própria cultura.

Na minha opinião, afirmar o que está em negrito é conscientemente diminuir o movimento, restringir sua criação a lados ideológicos – tanto direita, quanto esquerda, quanto centro, quanto qualquer coisa – que são, por definição imediata, limitados porque conceituados. Me parece que falamos aqui, acima de tudo, de liberdade artística e seus limites (se é que há algum). Shawlin mostra que entende isso em sua postagem e abre a discussão para direções que podem ser muito positivas não só para o gênero, como para toda cultura.

No Brasil onde some 1 Bilhão
E nem com turbilhão o caldeirão explodiu
U.P.P? Podia ser, mas tem só o fuzil
Professor R$2.500, puta de 5 mil — Shawlin, em “Adeus, Velha Era!”

É claro que o rap tem uma história de diálogo muito forte com movimentos minoritários. Impossível falar de Hip-Hop e não pensar no Movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos (1896–1954). Impossível não pensar na luta contra o racismo, contra a opressão de certas classes. Impossível não pensar, é claro, na crítica ao sistema que tanto inspirou canções geniais de artistas importantes para o mundo. Não gostaria de viver em mundo sem as conquistas que o Hip-Hop deu à humanidade. Não terei jamais a ousadia nem a falta de respeito de negar ou condenar nada disso. O rap tem suas raízes históricas muito claras na cabeça de cada um, e já salvou milhares (ou milhões?) de vidas. Por isso merece todo o mérito e é o gênero que todos nós amamos. E justamente por achar que o rap pode mais do que isso, discordo que ele deva se restringir em qualquer grau.

Eu, como jornalista, apoio o esforço e as ideias de Shawlin, artista que já tem um histórico de estar envolvido com mudanças fortes no rap nacional — ou ninguém se lembra do impacto que teve o Quinto Andar? — e que conseguiu contribuir para consolidação da percepção do rap como gênero musical (portanto artístico) e não apena como voz de um lado político ou outro. Já fez mais do que muita gente fará.

Dado o meu apoio ao rapper e à discussão que pode emergir desse caso, termino esse texto opinativo dando evidência a uma passagem, escrita pelo próprio carioca, que resume o ponto que defendo em toda essa discussão. Que digam que Shawlin foi oportunista. Que digam que Shawlin foi ingênuo. Que apontem falhas em seu argumento — e no meu também. Que critiquem e que se faça o debate. Trata-se do mais puro exercício da liberdade democrática mediado pelo rap. Isso, na minha visão, é avanço.

“Pessoal vêm me falar sobre RAP ser da esquerda, porquê? (sic) O RAP NÃO É DE NINGUÉM E É DE TODOS AO MESMO TEMPO!” – Shawlin, em postagem no Facebook no dia 12 de maio de 2016.

Esse é um artigo de opinião e as ideias expostas aqui devem ser associadas somente ao autor.

2 Respostas para “[Opinião] Precisamos escutar o Shawlin/Cachorro Magro

  1. “Se quer miseria entao leva pra casa,
    pra mim tu é cheio de graça… foda se me paga
    Eu tenho que ser um exemplo…
    Faz a sua parada e cada qual com a sua desgraça… foda se me paga”

  2. eu acho que o rap deve ir pra todos os lados mas pra direita não tem como,imagina rap reaça? sei lá pode ser que minha cabeça seja muito fechada nesse assunto,mas isso é minha opinião né respeito as contrárias.
    E o Raplogia mostrando sempre que é um site de alto nível com textos e assuntos fodas e diferenciados,melhor site.

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