Review: Snoop Dogg – COOLAID (2016)

Depois de anunciado pela primeira vez ao mundo em 2015, COOLAID foi a público no dia primeiro de julho de 2016, sendo o décimo quarto álbum do rapper veterano Snoop Dogg, de Long Beach, California. A lista de produtores é extensa e inclui, além do próprio Snoop, nomes como Timbaland e Just Blaze. Foi lançado pela Doggystyle Records e pela eOne Music, e estima-se que sua produção tenha começado em meados de 2015. A tracklist conta com 20 faixas e tem duração de pouco mais de 77 minutos, contando com participações de Too $hoort, Wiz Khalifa e outros.

O álbum representa a volta do artista para o rap depois de cinco anos se aventurando em outros gêneros, passando por mudanças curiosas de nome e reinvenções artísticas influenciadas inclusive por religião. Já que falamos de nome, vale explicar que “Coolaid” é uma referência a uma marca de suco em pó muito famosa nos EUA, a Kool Aid. Ela é conhecida principalmente pelo seu mascote, uma jarra de liquido vermelho com rostos, braços e pernas.

Montagem de Snoop Dogg e o mascote do suco em pó Kool Aid.

A conexão entre o rapper de Long Beach e a marca levantou inúmeras interpretações, sendo a principal delas motivada pela capa do álbum e confirmada por uma passagem em particular:

The reason that I say that I’m the Coolaid
Look at all the flavor that I gave to the gizzameSnoop Dogg em “Coolaid Man”, COOLAID (2016).

A multiplicidade de sabores do Kool Aid seria uma metáfora para a multiplicidade de talentos e habilidades que atravessam a figura de Snoop Dogg. Outras teorias comparam a longevidade de ambos os elementos analisados, dadas as devidas proporções, associando o tempo de existência da marca – introduzida no mercado em 1927 – com o tempo da carreira de Snoop – já considerada relativamente longa.

De qualquer forma, o rapper de “Gin and Juice” realiza esse retorno ao gênero do rap unindo elementos do seu lugar de origem — a famosa West Coast dos EUA — com a tentativa de fazer músicas mais festivas e comercialmente atraentes. É possível ver, nesse sentido, duas dimensões de Snoop no álbum: a primeira, a mais interessante delas, traz o gangster original, abrindo um diálogo com o passado e buscando uma reafirmação de sua posição consagrada na cena; a segunda traz o artista mais festivo, que dialoga com sua famosa capacidade de se manter comercialmente interessante durante tanto tempo.

Seja por meio de uma dimensão ou de outra, o apelo à reafirmação de status aparece de diversas formas ao longo das faixas. Em “My Carz”, nona faixa, percebe-se a ostentação de posses de bens como indicadores de poder. Em “Feel About Snoop”, faixa doze, é a recorrente relação com as mulheres que constrói uma imagem poderosa. Em faixas mais festivas como “Light It Up”, faixa 13, e “Let The Beat Drop”, faixa 18, é a capacidade de fazer festas que faz esse papel. E a lista continua.

Entretanto, analisando mais a fundo sua primeira dimensão de Snoop Dogg no álbum, é fácil perceber sua tentativa de se comunicar com a nova geração não só de ouvintes de rap, mas também de rappers em si. A marcante linha “A lot of y’all niggas do sound alike”, da faixa “Coolaid Man”, se refere justamente a essa questão. Snoop já tinha, inclusive, manifestado reprovação à forma como alguns raps são feitos nos dias atuais, enquanto entrevistava 50 Cent e integrantes da G-Unit no GGN Talk Show.

Big Snoop Dogg, I do my own thing
And I stays in my own lane
My rap style, is dynamite
A lot of y’all niggas do sound alike — Snoop Dogg em “Coolaid Man”, COOLAID (2016)

Esse diálogo com os mais recentes não se esgota ao apontar uma irritante semelhança entre rappers de hoje. A primeira faixa do trabalho “Legend” serve, nesse sentido, como a faixa mais explícita da tentativa de reafirmação do status de “lenda” de Snoop, como se o artista fizesse questão de relembrar que ocupa um lugar privilegiado e respeitado na cena do Hip-Hop. Apesar das chances de encontrar alguém que negue esse fato serem bem remotas, Snoop não se contentou em deixar seu passado falar por ele mesmo.

Essa viagem ao passado também passa necessariamente pelos Crips, gangue americana conhecida por suas vestes azuis, sua brutalidade e a rivalidade com os Bloods. É possível ver, no canto direito da capa do álbum, uma sombra de uma mão humana fazendo o símbolo de “C”, característico dos integrantes. O envolvimento de Snoop com a gangue não é segredo, e é justamente essa relação que ele escolhe evidenciar em “Super Crip”, quarta faixa do álbum. Associar-se novamente com o grupo, principalmente vinculando uma noção de super herói, fala de tudo que Snoop conquistou com o gangsta rap.

Now I’m sttin’ on my throne, on my bad phone
I’m talkin’ to Iron man, smokin’ on fireman
Look up in the sky, it’s a bird, it’s a plane
Walkin’ through the clouds with a Crip stick cane — Snoop Dogg em “Super Crip”, COOLAID (2016).

O ouvinte perceberá, no final do álbum, uma guinada para músicas de festa. Não há muito a falar sobre que seja interessante para esta resenha crítica, mas é importante pensar que Snoop consegue há alguns anos manter-se relevante para o rap comercial. Seja por saber associar seu nome aos artistas certos ou por escolher a melhor estratégia de divulgação, é possível encontrar “Snoop Dogg” em hits musicais principalmente desde os anos 2000. Aqui também pode se ver uma relação com os novos rappers que Snoop criticou, pois ele mostra que é possível fazer música de festa se afastando do formato que traz pronuncias de idiomas quase incompreensíveis e seguindo basicamente as mesmas lógicas de criação, melodia e assuntos abordados.

From the underground to the roof, yall
It’s your friendly neighbor, Big Snoop Dogg — Snoop Dogg em “Let The Beat Drop”, COOLAID (2016).

Em geral, Snoop Dogg tem um desempenho bom em COOLAID, mostrando nas letras que está em boa fase e que consegue escrever com qualidade. Ele é ajudado por uma produção confortável em trabalhar com algumas novas tendências, como se vê com a  influência do funk em “Oh Na Na”, oitava faixa, e a influência do trap em “Legend”, primeira faixa. Seu conteúdo não reflete a falta de algo novo, podendo gerar acusações de “mais do mesmo” entre os mais exaltados. Trata-se, sim, de renovação na maneira como mensagens antigas são expostas. COOLAID é uma coletânea de músicas onde Snoop é bem sucedido em dar nova vida a assuntos que já começavam a se perder na memória das novas gerações.

É claro que a canalização artística desse grito de reafirmação é válida e não necessariamente precisa ser causada por algum evento ou acontecimento prático. Mas questionar e investigar a existência dessa causa não deixa de ser interessante: o que levou Snoop Dogg a reafirmar-se em uma posição na qual a maioria do rap game já sabe que ele ocupa? Seriam esses cinco anos sem lançar um álbum de rap uma causa possível?

Mais uma vez, mentes da nova geração podem responder essa questão. Mas ainda assim, circunstâncias da carreira levam muitos rappers a terem a necessidade de relembrar aos outros que um dia foram grandes e de exigir respeito por isso. Snoop Dogg? Nem tanto. Difícil apontar um período em que o rapper, depois de suas primeiras aparições no gênero do rap, foi considerado um artista sem grande importância. Difícil encontrar uma época na história em que seu nome não gozasse de respeito pleno ou até admiração sincera dentro da cultura Hip-Hop. Além disso, sua posição lendária está mais do que garantida por sua originalidade evidente: apenas Snoop Dogg pode ser Snoop Dogg.

Além disso, cinco anos é dificilmente um tempo longo o bastante para danificar a reputação de uma figura como a do ex-integrante do 213. Mesmo que seus álbuns recentes tenham sido de outro gênero, Snoop Dogg é um rosto presente e ativo na mídia americana (até mundial) e carrega a associação com o rap por onde passa. Não há geração nova possível que se forme em 5 anos que apague o impacto do rapper.

Apesar de não haver nenhuma ameaça direta à sua posição de ídolo, essa reafirmação, por mais sem causa lógica que possa parecer, conseguiu dar a Snoop novos ares, casando uma produção inspirada com boas letras, preenchendo COOLAID com uma musicalidade que, apesar de não ser exatamente renovada, não se via há alguns anos na rap da discografia do rapper. Snoop Dogg, como sempre, mantém sua capacidade de fazer música boa, seja sobre as esquinas quentes de Los Angeles onde a vida nem sempre é gentil, seja entre quatro paredes de boates e comemorações festivas. COOLAID é mais uma demão na pintura da credibilidade e qualidade de Snoop Dogg como rapper. E cá entre nós? Nem precisava.

 

5 Respostas para “Review: Snoop Dogg – COOLAID (2016)

  1. Antes de tudo, parabéns pelo texto. Conseguiu pontuar de forma clara e crítica exatamente o que esse disco ou o Snoop Dogg representa. É cada vez mais difícil encontrar textos sobre o Snoop que não trate ele de forma pejorativa, citando de forma desprezível os seus projetos paralelos ou as suas colaborações com artistas pop, então eu fico bem feliz quando isso ocorre o contrário.

    Sobre o Coolaid, eu gostei. Ele passa por várias fases do Snoop, isso foi meio nostálgico, principalmente a primeira parte que tem mais músicas gangsta rap, mas pelo fato da longa duração, se torna cansativo. Se ele tivesse retirado algumas faixas, o disco seria melhor.

  2. Mesmo sendo suspeito pra falar, adorei o review.
    Tenho algumas pontuações sobre esse trabalho, impressões bem pessoais mesmo.
    Vai ser um texto repetitivo por ser didático demais rs. Mas tu levantou questões que eu também não sei responder, então vou começar a escrever pra ver o que sai de ideia.

    “Legend” é do cacete e acho, inclusive, que é uma forma de super-ação de várias maneiras do Snoop sobre essa molecadinha toda da nova geração do trap. Primeiro, se o flow deles é arrastado, o Snoop também arrasta (com muito mais estilo) em “even if I diiiiie” ou “I can die right nooow”, por exemplo, mas não cai no clichê, muito pelo contrário, ele arregaça o beat com vários flows. Segundo, ninguém é rei ou lenda no rap porque fez alguma grana, colocou uns dentes de ouro, umas tatuagens e tá no mainstream posando de mau: “1996, I beat a 187 (murder was the case)/ 80 million sold, and I ain’t check the records/ Checked a couple rappers, told ‘em not to test me/ Ask me who am I? Motherfucking legend”

    (Lá em Supercrip é a mesma coisa, mas o papo de gangue é potencializado, claro: “What’s up, what’s happening?/ Big Snoop in this bitch, get it crackin’/ Dickies creased up and they saggin’/ Gat in the right side, left side flag”.)

    E não adianta um visual agressivo/extravagante que não é elegante, não tem glamour, que soa muito mais caricato. “50 bitches naked/ Nike ain’t my preference/ Khaki with the Chucks/ Now look how they dressing”

    E então ele evoca o maior ícone da estética pimp: “Perfected my profession/ Someone call the reverend (Nate Dogg nigga)/ Bury me alive, living legend”

    Eu encaro tudo isso como uma forma de superação, que é muito mais que autoafirmação, saca?! Até uma chamada de atenção, porque tá todo mundo igual nesse bagúi. O segundo Verso segue a mesma pegada e evoca outras duas lendas, Dre e Tupac. Ele realmente não precisava de tudo isso, mas ele arregaça todo mundo.

    Kanye West tem o ego de que tamanho mesmo?! rsrs Não dá pra ninguém. Snoop atravessou os anos 90, sobreviveu e continua no topo. Daí, Ten Toes Down segue explicando porque ele é uma lenda…

    No The Art of Rap, ele diz que encara rap como um esporte, que se alguém enterra, ele vai lá e faz um 720º. Acho que esse disco é isso. Por que tanta agressividade? Porque ele é um Motherfucking legend! É isso que as lendas fazem, não?! rs

    Pra completar:

    Ele diz,”Came up with the Doc, been around the world with ‘Pac”, enquanto os outros:

    https://raplogia.com/2016/07/06/gucci-mane-reutiliza-verso-de-tupac-em-novo-single/

    • Considerações pontuais, grande amigo. Obrigado pela sua contribuição. Talvez caiba, no caso de “Legend”, um artigo de aprofundamento. Abraço!

  3. Pingback: Month to Month: os lançamentos de Junho – Raplogia·

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