Review: YG mostra evolução no disco “Still Brazy”

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YG mostra em Still Brazy como a costa oeste está se restabelecendo como formadora de grandes artistas de Rap após um grande tempo vivendo dos trabalhos de lendários rappers que não conseguiam mais tanta atenção do público geral.

Desde 2011, a quantidade de artistas que apareceram na Califórnia foi gigante, sejam eles do gênero gangsta rap ou não. A trupe da Odd Future estremeceu o jogo anos atrás, assim como o coletivo Black Hippy, que traz dois dos angelinos que estão tomando o cenário: ScHoolboy Q e Kendrick Lamar. Mas na mesma época surgiu YG, rapper vindo de Compton que tinha um currículo recente com mixtapes e trazia como trunfo também o produtor DJ Mustard. O primeiro disco dele, My Krazy Life foi lançado nessa parceria em 2014, sob a tutela da Def Jam e CTE World, gravadora de Young Jeezy.

Dois anos e muitos acontecimentos depois, o rapper lança seu segundo disco – caso você considere a soundtrack para o curta Blame It On The Streets então é o terceiro – Still Brazy, uma amostra do amadurecimento que YG teve durante esse tempo. Desde o disco anterior, ele usa o artifício de narrativas cinematográficas pelo decorrer das suas faixas, o que não é diferente em Still Brazy. O rapper te transporta para o cenário que ele narra, seja ele um drive by com gangsters ou uma festa na piscina.

yg mustardO primeiro fato para destacarmos nesse trabalho é a ausência de DJ Mustard. Antes uma dupla inseparável, pelo menos musicalmente, ele e YG se desentenderam em meados do fim de 2014 por falta de pagamentos do produtor no My Krazy Life. A treta começou e “terminou” no Instagram, e os dois voltaram a ser amigos, mas Mustard não está o disco. Para Still Brazy, isso é extremamente positivo, e chegaremos nesse ponto posteriormente.

Em minha opinião, YG é o rapper que mais lembra o trabalho dos antigos artistas de gangsta rap, seja no flow ou nas letras. Nesse disco, ele é ameaçador como o estilo tem de ser, trazendo suas histórias de vida e gangbangin’. Logo de início ele mostra o que está por vir, com “Don’t Come To L.A.”, uma música que respira a influência das gangues, sendo esse o assunto principal da música.

Mas é na segunda música que YG nos mostra o amadurecimento que está ainda em processo com ele. Com “Who Shot Me?” o rapper faz a pergunta de um milhão de dólares para o seu público: quem atirou nele? No meio do ano passado, ele foi alvejado três vezes na cintura. O rapper não cooperou com a polícia, mas reflete na música todos os pensamentos que passaram em sua mente durante e após o ocorrido. A paranoia é uma parte do clima da música, sendo que as questões surgem inúmeras vezes nos versos, mostrando um YG ainda sem respostas. Produzida por DJ Swish, a faixa ainda traz uma ponte feita pela cantora Paloma Ford que dá o clima perfeito para a paranoia do rapper.

“Staring out the window
Smoking on this indo
Cause I don’t know who did it but I know this
Bullets don’t just go where the wind blows
So I’m looking under my nose
And it always comes from up close
But they can’t stand me though” 
– Paloma Ford em Who Shot Me?

Em “Twist My Fingaz”, YG nos relembra dos clássicos do g-funk. O primeiro single do disco foi produzido por Terrace Martin, que trabalhou em To Pimp a Butterfly de Kendrick Lamar. Quando a música saiu, em Julho de 2015, a influencia de YG no disco do rapper da Top Dawg era clara, mesmo assim, a faixa não soa como cópia do recente trabalho mas sim uma homenagem ao gênero que fez muito sucesso nos anos noventa. Com uma temática mais dançante, ela traz linhas bem sólidas, com destaque para uma delas: “sou o único que saiu do oeste sem o Dre,” diz ele falando do apoio que não teve de Dr. Dre, diferente de uma grande quantidade de artistas da Califórnia.

Ele segue a mesma linha de produção em “Gimmie Got Shot”, produzida por DJ Swish, onde o rapper fala sobre as pessoas que querem tirar proveito de sua situação financeira após ele já ter feito muito para elas. “Gimme não é ninguém. Falo de várias situações. Mas nessas situações, são pessoas pedindo coisas. Não dou indiretas para ninguém. São vários. Gimme é alguém que está ao redor, um mano de verdade. Eu sou uma boa pessoa, então fiz ou dei muito para meus manos e pessoas ao meu redor. Então eles se acostumaram e querem que você continue fazendo coisas para eles. Cara, mano, quando você vai parar de fazer isso? Você não é meu filho,disse YG em uma anotação do Genius.

yg always hatin2Lil’ Wayne aparece bem em “I Got A Question”, que não se trata de um som mais comercial, ao contrário, para YG ela tem mais momentos pessoais referentes a toda pressão que ele sofre em sua vida, vindo de familiares, amigos, e até da lei. A parte comercial do disco fica por conta da próxima música, “Why You Always Hatin?” que traz Drake para mais uma colaboração com YG e a rapper de Oakland, Kamaiyah. Produzida por Scoop DeVille,  temos aqui o som que ficou com o cargo de ser o hit do trabalho.

Bool, Balm & Bollective” traz DJ Swish e Terrance Martin em mais uma música com a influencia do funky. Dessa vez o rapper traz situações na qual ele consegue se manter calmo, mesmo que elas sejam um pouco mais tensas.

1500 or Nothin’ traz uma bela instrumental em “She Wish She Was”, também inspirada pelo funk, a música no entanto, não traz nada de interessante. A faixa título Still Brazy produzida por DJ Swish e Ty Dolla Sign, trata-se de uma espécie de g-funk moderno, misturando elementos do trap com o gênero. Rimando sobre os acontecimentos de sua vida, a faixa não chama tanto a atenção como as anteriores.

yg still brazy 1Com dezessete faixas, a segunda metade do disco parece um pouco diferente, procurando um rumo. Na reta final, o disco se torna mais consciente com “FDT (Fuck Donald Trump)”, com Nipsey Hussle e produção de DJ Swish. O hino contra o candidato à presidência dos Estados Unidos é uma música bastante interessante no contexto atual. Ela é seguida de “Blacks & Browns” que fala sobre a descriminação racial no país, junto com Sad Boy Loko, eles mostram como é ser negro e latino em um país com tanta intolerância. E para finalizar, YG toca no delicado tópico da brutalidade policial com “Police Get Away With Murder”, onde mostra que a polícia consegue sair inocente de crimes cometidos por eles próprios. Essa música é extremamente atual, ainda mais nesse mês onde tivemos mais um caso morte pela polícia e Baton Rouge, Louisiana.

Still Brazy é um disco mais atrativo que My Krazy Life, é um pouco mais maduro e consciente, mas é bastante semelhante ao seu antecessor, pois usa a mesma fórmula. A narrativa de YG misturada com as interlúdios e histórias contadas conseguem criar uma atmosfera bastante interessante na qual podemos visualizar enquanto ouvimos o trabalho. O crescimento lírico do rapper é notado nas músicas mais pessoais, acredito que grande parte devido ao que ocorreu com ele no meio do ano passado. Ele mostra-se bastante inseguro em algumas questões.

O principal trunfo do disco é a produção, que dessa vez não contém DJ Mustard. Por mais que ele seja um bom produtor, as características de seus instrumentais são bastante limitadas e ele precisa se provar um pouco mais. YG trouxe um bom time, que com a influência do funky, cria um projeto noventista de gangsta rap em pleno 2016. Há um pouco disso em My Krazy Life.

Como parte negativa destaca-se o tamanho do disco. Still Brazy perde o ritmo no meio. Esse é o maior problema de álbuns com uma quantidade de músicas maior, principalmente quando o trabalho começa em grande nível como esse, espera-se mais dele no final.

Still Brazy tem os seus altos e baixos, mas demonstra ser um forte candidato para disco do ano, sendo que até agora poucos trabalhos mostraram tanta destreza na produção. Caso você queira algo com a cara da costa oeste, ouça agora o novo trabalho de YG.

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