Top 10 dos Autores: João

Conhecer os gostos mais pessoais de alguém é sempre como visitar um quartinho da mente dela. Principalmente quando se trata de arte, sempre é possível saber bastante da personalidade e do modo de viver e pensar de alguém só conhecendo os filmes favoritos dela, os livros que mudaram sua vida ou os discos que sempre conversam com a alma dela. Acho que talvez esse seja o principal critério usado pra montar o meu TOP 10 de álbuns de RAP. A lista não tem uma ordem de classificação e não levei nenhum critério técnico em consideração, são apenas os discos que fazem parte de mim, que formaram meu modo de pensar, simples e cru.

Seja bem vindo, aproveite o passeio e
look both ways before you cross my mind 🙂

Kendrick Lamar – good kid m.A.A.d city (2012)

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Era fim de 2012, outubro. No ano seguinte, algumas coisas aconteceram na minha vida, era uma época conturbada, jovem de 16 anos se descobrindo, nas palavras dos outros: “diferente, esquisito” e solitário. Foi nesse contexto todo que eu fui apresentado por um amigo ao ‘good kid m.A.A.d city’, disco que me salvou de ter depressão e agravar muitas situações – principalmente mentais. Em um princípio da doença a gente oscila: o dia de hoje é muito bom, o dia seguinte é horrível e a vida vira uma montanha-russa que com o tempo é mais fácil e cômodo só descer. No meio disso tudo, Kendrick Lamar roubou minha brisa de uma forma muito intensa, e eu ocupei todo meu tempo nessa época a estudar esse disco de ponta-a-ponta. Enquanto o garoto de Compton conversava comigo, me disse que eu precisava ser real o tempo todo e me fez ter forças pra continuar um ‘bom garoto’ mesmo em uma ‘cidade ruim’. No fim das contas, graças a good kid m.A.A.d city a depressão não chegou a mim de fato e três anos depois marquei na pele o nome do álbum como forma de gratidão. Hail, King Kendrick! Quero ser que nem você quando eu crescer.

Música favorita: Sing About Me/Dying of Thirsty

Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly (2015)

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Seguindo a onda de Kendrick Lamar, vamos ao segundo disco da lista! ‘To Pimp a Butterfly’ não teve tanto impacto na minha vida quanto o segundo disco de K-Dot, mas eu esperei mais esse álbum ser lançado do que a volta de Jesus. Já haviam se passado três anos do lançamento de GKMC e eu não conseguia mais aguentar de ansiedade, até que em uma madrugada de março de 2015 o projeto ganhou vida. A primeira audição me surpreendeu muito, principalmente por causa da sonoridade, mas a surpresa maior foi o diálogo com Tupac na última faixa e a maravilha que foi descobrir e estudar esse conceito tão foda que foi construído em TPAB. Sem falar também nas diversas reflexões provocadas acerca da minha raça e também a renovação que me deu em fazer minhas músicas, lembrando que ainda é possível ser um artista de sucesso comercial veiculando os valores que você acredita de coração.

Música favorita: Alright

J Cole – 2014 Forest Hills Drive (2014)

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2014 Forest Hills Drive é um caso especial, eu sinto como se J. Cole tivesse finalmente chegado a um lugar estável, famoso e com dinheiro, olhou pro ‘Born Sinner’ e se perguntou: ‘O que eu fiz de errado?’ ‘O que eu faço agora?’. E o resultado foi isso: um disco com bem menos músicas que seu precursor, um disco sem nenhuma participação, um disco livre artisticamente (o ponto mais importante de todos) e hoje, dupla platina. Cru, é apenas Jermaine rimando do jeito que ele quer, sobre os temas que ele quer, nos beats produzidos por ele mesmo. Creio que essa abertura, essa liberdade que ele se deu (sem a pressão de agradar NaS, Jay-Z ou competir com qualquer outro rapper de sua geração) fez com que Cole criasse ‘2014 Forest Hills Drive’ como uma pintura sincera de sua alma, e ouvir as músicas é como se Jermaine o convidasse para conhecer sua própria casa, sua intimidade e te mostrar como ele chegou onde está. Um disco pra se ouvir em qualquer momento: triste, feliz, viajando, etc.

Ponto pra você J. Cole, FUCK GRAMMY.

Música favorita: G.O.M.D

Nas – Illmatic (1994)

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O que falar desse disco que conheço há uma cara e ainda considero pacas? Illmatic é o clássico entre os clássicos do Hip Hop, se alguém chega hoje, sem conhecer nada da cultura, sem nunca ter ouvido RAP na vida e me pergunta:

– O que é RAP? – eu sem titubear já respondo:
– Escuta Illmatic que você vai saber.

NaS não é o meu favorito de todos os tempos, mas eu o considero o maior rimador a tocar em um microfone. Illmatic é inovador, é visceral, é sabedoria empírica, é real. Ouvir o disco é como se teletransportar pra Nova York dos anos 90: os beats do DJ Premier (entre outros produtores), a presença de AZ nos momentos certos, tudo isso faz com que seja construída uma aura muito forte e a vibe da cidade seja passada através das rimas visuais de NaS. Enquanto as costas brigavam pra saber se Pac era melhor que Biggie ou vice-versa, o rapper do Queens construía seu legado, fazendo o disco mais influente da história do Hip-Hop e ainda unia o liricismo de 2Pac com a técnica de Notorius, se tornando anos depois o incontestável Rei de Nova York. Como profetizado em sua música ‘Nas is like’: cedo ou tarde o tempo provou quem era o profeta. Mesmo com 22 anos no jogo, Nasir ainda cospe barras como um rapper iniciante cheio de fome, mas é uma pena que apesar disso, sua carreira seja um tanto quanto instável e com alguns outros discos monótonos.

Músicas favoritas: Represent / World is Yours / N.Y. State of Mind

Jay-Z – Reasonable Doubt (1996)

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Dois anos depois de Illmatic ganhar o mundo, foi a vez de Jay-Z lançar seu álbum de estréia. Reasonable Doubt é um disco que vai te mostrar os dois lados da moeda. Jigga vai falar de tráfico, dos glamoures dessa vida, o dinheiro, as mulheres, mas também vai te deixar numa brisa muito reflexiva ao falar do preço que se paga, das mortes, as tristezas, as inseguranças e arrependimentos que todos os seres humanos têm, independente de como vivam suas vidas. É nisso que esse álbum é especial pra mim: ouvi-lo é como se Jay-Z sentasse na sua frente e dissesse: “filho, vem cá, vamos conversar um pouco sobre esse lance todo de vida.” Reasonable Doubt me fez entender a dualidade que é viver e também me ensinou bastante sobre resignação e auto-perdão.

“To survive you gotta learn to live with regrets”

Música favorite: D’Evils

Kanye West – My Beautiful Darked Twisted Fantasy (2010)

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Incrível. Majestoso. Sublime.

Seis anos depois eu ainda não tenho palavras para descrever esse álbum. É o próprio audiobook da Bíblia. Se hoje eu apaixonado por mim, apaixonado por criar, apaixonado por arte, muito é por causa de My Beautiful Darked Twisted Fantasy. O nível de beleza que Kanye atingiu fazendo esse disco é algo absurdo. Ouvir ele pela primeira vez explodiu minha mente como se fosse uma supernova. É sério, eu não sei o que acontece, mas as músicas desse disco me passam uma onda celestial, sempre que estou com a autoestima lá embaixo, Ye me lembra que eu tenho minhas qualidades, me lembra que a arte salva, que a loucura é uma grande amiga da criatividade e que está tudo bem em se amar, em pensar e ser diferente. Hoje eu agradeço quando me chamam de louco, inclusive.

My Beatiful Darked Twisted Fantasy soa de uma maneira original e singular de tudo que se costuma ouvir no meio (principalmente ao que se refere à beats), mas as barras também estão lá em excelentes participações como Nicki, Jay-Z, Pusha T… Isso sem mencionar o filme incrível que foi feito junto com o disco. Só vai ouvir/assistir isso agora!

Música favorita: All of the Lights / Monster / Runaway

Don L – Caro Vapor/Vida e Veneno de Don L (2013)

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Vive agora!

É essa a mensagem da mixtape de Don L. Lançada em 2013, eu só fui ouvir em 2014 e entender plenamente em 2015. Depois de escutar as rimas do rapper de Fortaleza e começar a assimilar o que realmente ele queria dizer, aprendi que a melhor maneira de se viver é ter tesão pela vida. É sobre isso que é Caro Vapor / Vida e Veneno: dar valor a cada momento, viver o agora, experimentar o máximo de sensações que estar respirando nos oferece. Como bem definiu meu chapa David em seu TOP 10, “a questão aqui é: não existem fórmulas para viver assim. Cada pessoa tem sua maneira e para cada segundo existem inúmeras possibilidades de ação. Então, sem equações não é autoajuda, é a estrada da liberdade. Caminhar por essa estrada é uma tarefa tão apaixonante quanto aterrorizante.” Don L me ensinou sobre liberdade, sobre ter coragem e encarar o mundão ‘sem temer o fracasso ou êxito, a grade ou o êxtase.’

Isso sem mencionar sua enorme influência na forma como eu faço meu RAP. Salve também pra Mixtape Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa!

Música favorita: Morra Bem, Viva Rápido / Sangue é Champagne / Beira de Piscina

Emicida – Pra quem já mordeu um cachorro por comida… (2009)

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Um clássico do Rap Nacional moderno. Emicida virou o jogo de cabeça pra baixo com o lançamento dessa mixtape, popularizou o conceito no Brasil e mostrou que o Hip Hop também tava na pista pela vitória, pelo triunfo. Um projeto que com certeza dividiu águas no rap nacional e marcou o início de uma nova era, além de elevar o nível das rimas em nosso país. Sem falar que abriu muitas portas – principalmente na questão do empreendedorismo – para praticamente todo mundo que começou no RAP depois. As músicas tocam em temas importantes, como autoestima negra, pobreza e outros assuntos do gênero, mas Emicida também rima sobre amor, esperança e até conflitos pessoais, o que abriu minha mente sobre a liberdade de criação que o RAP Nacional, assim como o gringo, também deve ter.

Música favorita: Triunfo

Racionais MC’s – Nada como um dia após o outro dia (2002)

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Como Deus é bom, né não, nego?! Aconteça o que aconteça, nada como um dia atrás do outro dia!

Um álbum duplo, um total de 21 faixas, um conceito muito foda e clássicos atrás de clássicos. Vida Loka pt.1 e pt.2, Nego Drama, Eu sou 157, A vida é um desafio, 1 por amor 2 por dinheiro, Da ponte pra cá, entre outras. ‘Nada como um dia após o outro dia’ abre com a voz potente de Brown que injeta diretamente uma dose de autoestima e disposição em qualquer um que ouvir. Esse disco duplo é o pilar que formou a minha mentalidade do que é o RAP. O que me causou encanto pela forma de organizar a poesia aliada ao ritmo da batida. As letras fortes, a realidade de São Paulo, as narrativas que criam um filme dentro da sua cabeça e esse conceito de disposição de fazer do hoje e do amanhã dias melhores são o que fazem do penúltimo álbum do Racionais MC’s essa obra-prima da música brasileira que influenciou milhares de vidas no início no início do século XXI.

Música favorita: Eu sou 157

Parteum – Cortexiphan (2012)

Capa

‘Deve ser terrível você não poder confiar na sua mente’

Ouvir Parteum é como acessar o zelador da sua mente. Sempre que tenho algum problema mais sério a resolver comigo mesmo, eu coloco os discos do rapper no fone e vou caminhar. Cortexiphan é metade beat, metade rima, literalmente: haverá períodos em que você só vai ouvir batidas, até entrar um verso de surpresa falando o que nenhum rapper já falou, ou dizendo coisas que outros já disseram, mas de uma forma que nunca disseram. Entende?! É incrível o poder que as músicas de Parteum têm de estimular seu pensamento, abrir a sua percepção das coisas. E “a percepção é a chave para transformação”. Cortexiphan me ajudou a me conhecer, a começar a reformar o meu mundo e o meu caos interno pra a partir daí tentar ser agente na transformação do mundo do próximo.

Música favorita: Cortexiphan 05 / Cortexiphan 09

Um salve especial para:

Channel Orange (Frank Ocean), Goblin (Tyler, The Creator) e Because The Internet (Childish Gambino), pela forma em que me ajudaram a me aceitar – qualidades e defeitos – e também por me mostrarem que há outras maneiras de se viver como homem sem os estereótipos e limites da masculinidade.

Summertime 06’ (Vince Staples) por ser tão visceral e me colocar frente a frente com meus próprios medos e demônios, sempre.

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Uma resposta para “Top 10 dos Autores: João

  1. Acreditaria se eu dissesse que sua lista é 90% igual a minha? haha. A única diferença é o disco do Parteum que no lugar eu colocaria Take Care do garoto canadense, mais se temos um gosto tão parecido então ouvirei esse do Parteum, grandes chances de eu gostar
    Grandes análises de cada um deles mano parabéns. Fiquei curioso pra ouvir seu trabalho agora

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