Review: Chico Tadeu – O Estado Crítico (2016)

O Estado Crítico (2016) foi lançado em fevereiro de 2016 e é o primeiro álbum de estúdio do rapper Chico Tadeu. Os instrumentais são de Kmkz, Mr Break, F2L e Du Brown, enquanto outras partes da produção ficaram com Du Brown, Suarez e Luiz Café. São 13 faixas que totalizam 44 minutos. Como não poderia deixar de ser, o trabalho formaliza a entrada do artista na cena do rap nacional e faz aparecer um novo nome na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Imagem do clipe de “Ahimsa”, primeira faixa do álbum.

Explorar palavras do mesmo campo semântico de “caos” parece interessante para descrever o início de O Estado Crítico (2016). “Apocalíptico” é um bom termo para fazê-lo. Uma produção agressiva que provoca adrenalina, junto com a temática de ativismo político das letras de Chico, traduz grande poder expressivo. A segunda faixa, a “Estado Crítico”, traz esse aspecto em todos os seus versos, sendo, portanto, o melhor exemplo possível para falar de rap político na obra do artista. Há referências ao caótico momento pelo qual o país passou (passa?) e às mais diversas situações revoltantes do cotidiano.

O racismo, o preconceito e o dialeto da maldade
E arte que difunde latrocínio com amizade
Uma janela sempre aberta para uma porta fechada
E uma arma da polícia pra cada boca calada
Um eleito pelo povo e outro do burguês
Um dia foi comigo e agora, vai é a sua vez — Chico Tadeu em “Estado Crítico”, O Estado Crítico (2016).

Ainda sobre a segunda faixa, é possível ver que ela traz forte influência dos primeiros trabalhos do rapper paulista Criolo, principalmente no desempenho de Chico Tadeu. A primeira faixa “Ahimsa”, nomeada a partir do termo utilizado para se referir ao princípio utilizado por algumas religiões de não fazer mal a outros seres vivos, por sua vez, mostra uma clara influência do rapper niteroiense Black Alien, sobretudo no primeiro verso. Em muitos casos isso pode traduzir uma falta de originalidade do artista, e é essa a impressão de ficou em mim nos primeiros momentos do trabalho.

Essa percepção, contudo, não resistiu aos minutos seguintes. Foi destruída pela individualidade marcante encontrada nas faixas “Trem da Norte (part. Gheto ZN)”, “Toda Malandragem” e “Baile do Viaduto (part. Dubrown e Cappuccino)”, faixas de número 7, 8 e 11, respectivamente. Nelas — em todo o álbum de forma geral, mas nestas em específico — o rap de Chico Tadeu cumpre o seu papel mais tradicional (ou “original”, por que não dizer?): dar voz ao excluído da sociedade. É através de símbolos característicos da Zona Norte — a escola de samba da Portela, os trens que atravessam a área da cidade, o bairro de Madureira e seu clube de futebol de mesmo nome — que Chico constrói mensagens que abrangem da libertação otimista até o caos completo de sua realidade social.

Nessa selva de leões ratos velhos dando aula
E o corpo tá sentindo gosto de uma lágrima da alma
Inocência não se salva nem no início da tragédia
No século 21 não tem acento a minha ideia
Odisseias no espaço e matemáticas que somam
Lógica bem diferente dentro do mesmo idioma –  Chico Tadeu em “Ahimsa”, O Estado Crítico (2016).

Ao meu ver, pontos negativos podem ser vistos: um interlúdio longo e exaustivo faz a transição da parte apocalíptica do álbum para uma energia mais calma, que se aproxima da temática já mencionada da Zona Norte. A faixa é a quinta, chama-se “Interlúdio Transmissão”, e traz uma compilação de efeitos sonoros e um discurso feito com o perfeito vocabulário informal, direto da rua. Trata-se de um símbolo do cotidiano que acontece na margem da sociedade, e por isso é bem verdade que seu conteúdo é indispensável para compor o trabalho. Entretanto, isso não salva o interlúdio de questões relativas ao que me pareceu uma duração exagerada.

Analisando a ordem das faixas, é possível enxergar que “O Estado Crítico” caminha por dois corpos musicais distintos: o apocalipse caótico de uma sociedade em decadência; uma quase idílica visão do lugar de origem do rapper; e a volta rápida a uma mensagem agressiva de superação. Esta última fase é representada apenas pela já mencionada faixa “Sangue Nos Olhos” e, numa análise pessimista, pode ser considerada uma faixa “perdida” no álbum, jogada no final para que houvesse uma sensação de fechamento mais forte. Numa análise otimista, a qual eu me identifico mais, ela é uma mensagem que pode se relacionar bem com os outros momentos da narrativa do álbum justamente por apresentar uma mensagem positiva, apesar de nem um pouco calma, de superação, complementando a opinião exposta ao longo deste segundo corpo ao que me refiro de que “o hip-hop é para nos libertar”.

Tornado real por esforços independentes de muitos, achei que o álbum está longe de ser monótono, chato. Ao contrário, sua musicalidade apresenta um dinamismo curioso e incomum para álbuns de estreia e, sobretudo, independentes. Talvez isso seja o que diferencie O Estado Crítico (2016) de outros trabalhos vindos do underground do rap brasileiro. Destaco as faixas “Ahimsa”, “Trem da Norte” e “Toda Malandragem”. No mais, gostaria de ter mais a dizer sobre o trabalho. Acho uma boa estreia para Chico Tadeu, que já atrai alguma atenção para projetos futuros na comunidade do rap.

Capa oficial do disco.

Capa oficial do disco.

Uma resposta para “Review: Chico Tadeu – O Estado Crítico (2016)

  1. Pingback: Chico Tadeu homenageia Madureira em “Toda Malandragem” – Raplogia·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s