Review: Cacife Clandestino e Costa Gold – Cacife Gold (2016)

Cacife Gold é um EP colaborativo feito pelos grupos Costa Gold, de São Paulo, e Cacife Clandestino, do Rio de Janeiro. Foi lançado pela gravadora Medellin Records no dia 10 de agosto de 2016. A produção é de Pedro Lotto, tem 7 faixas e dura 26 minutos e 16 segundos. A única participação de um artista de fora é de Luccas Carlos. Trata-se do primeiro trabalho que simboliza a união entre os dois grupos de maior ascensão na história recente do rap nacional, que anunciaram junto com a parceria uma turnê de shows pelo Brasil.

É também um dos primeiros títulos a serem associados com a já mencionada nova gravadora/selo Medellin Records, criada recentemente por membros do Cacife alguns outros artistas. É preciso dizer que, no contexto da data de lançamento, tanto o grupo carioca quanto o paulista atravessam momentos marcantes na carreira, conseguindo atenção o suficiente na cena para se tornarem referência no rap mainstream. O Cacife Clandestino foi criado em 2010 e ganhou atenção nacional pela primeira vez em 2012, com a faixa “Beija Flor”. O Costa Gold, por sua vez, foi criado em 2012 e ganhou atenção nacional com a faixa “N.A.D.A.B.O.M. (parte 2)” e outros hits.

Cacife Gold (2016) é uma criação que já nasce com a intenção de ser um tipo particular de rap: aquele que, na grande maioria das letras, fala de crime, mulheres e comemorações. Percebe-se, por isso, forte influência do gangsta rap. Das 7 faixas do trabalho, apenas uma — a última delas, chamada “90’s” — parece ao ouvinte algo que foge um pouco desta temática cansada que já tanto foi vista na discografia dos dois grupos.

E ela é um refrão da Alicia Keys, com a Missy Elliot e a J. Lo
E a Lauryn Hill nos tempos de Fugees
Chamando a Eve de Pin-up de Monroe
Eu sou bem pior, tipo o flow do Xis
Ma nigga Yann Kuhn, trouxe o marrom
Eu sou Bada$$, ou Jadakiss
Rimas sinceras, eu to na paz do Senhor — Predella em “Miss”, Cacife Gold (2016)

O disco é marcado por letras que tem bons momentos e constroem cenários singulares, quase sempre trazendo referências interessantes de influências do rap americano, como mostra o trecho exposto. Mas elas quanto as produções são incapazes de fazer o que todo grande artista é forçado a fazer se quiser continuar relevante na cena: reinventar, renovar. O Cacife Clandestino faz a mesma música e produz o mesmo conteúdo artístico há quase 5 anos e seu público finge que não percebe porque afinal “essa é a proposta”. Isso nos faz mergulhar de cabeça numa discussão de extrema pertinência no campo não só do rap, mas da música em geral: até onde um artista pode prender-se a uma só proposta musical de modo que seu som não fique repetitivo? Claro, este limite é subjetivo e depende de cada ouvinte. Eu, por exemplo, acho que já deu. E isso também se aplica ao caso do Costa Gold, que apesar de demonstrar uma prolífica produção musical desde antes do lançamento de .155 (2015), já começa a sinalizar sinais de mesmice em suas mensagens.

Isso é perceptível em Cacife Gold, e se torna particularmente confuso quando você pega esse trecho de “Uma Na Agulha”, quinta faixa.

E eu não sei como os otários tá na música ainda
Com a mesma batida, e não muda, não vira
Por isso que eu fiz esse disco com o Felp
E pra quem ouvir é um vício, é coquetel
Cada Rap aqui é um Hit, é um troféu
Se meu Rap não fosse tão crime, era um Nobel – Nog em “Uma Na Agulha”, Cacife Gold (2016)

Enquanto as primeiras duas linhas podem ser interpretadas como um ataque direto ao grupo Terceira Safra – haja vista o complicado histórico entre eles e o Costa Gold -, me parece pouco convincente a ideia de que um disco feito pelos integrantes do Cacife e do Costa possa transbordar diversidade musical – um “coquetel”, para respeitar a metáfora usada pelo rapper. O que eu ouvi no trabalho é justamente o contrário: músicas que todos já ouviram, beirando igualdade de ideias já expostas  na discografias de ambos os grupos e sendo sustentadas por uma produção pouco inspirada.

Falando nisso, outro ponto interessante a ser mencionado é a notória ausência de produções do talentoso TerrorDosBeats, sendo todos os instrumentais (com exceção da “Intro”, primeira faixa) produzidos por Pedro Lotto. Uma pena. Penso que alguns valiosos toques de Terror dariam muita qualidade para Cacife Gold, que não tem em seus instrumentais um ponto forte. Entretanto, pelo EP se tratar da primeira parte de uma aparente longa parceria, é justo supor que veremos mais instrumentais do produtor no futuro. Ainda assim, quem (assim como eu) é muito fã de seu trabalho sentirá uma gritante falta de seus beats.

Os vocalistas Nog e Predella, do Costa Gold (esquerda) e o vocalista Felp 22, do Cacife Clandestino (direita).

Se nada disso importar ou interessar ao ouvinte, resta apenas dizer que achei a musicalidade boa, com alguns momentos de maior brilho — destaco “Miss” e “90’s”, quarta e sétima faixa respectivamente — e outros nem tanto — falo de “Não Há!” e “Controverso (part. Luccas Carlos)”, terceira e sexta faixa, respectivamente. Além disso, as rimas foram escritas com boa técnica e a habilidade para fazer internas e multissilabicas é notável, o que configura um ponto forte do trabalho. O EP prova que, para falar do que sabem, Cacife e Costa são os melhores da cena sem sombra de dúvidas.

Alguém me disse: “Fica na disciplina
A vida é cruel, se resolva lá em cima
Melhor não existe, sepá o que determina é
A sua liberdade contra a justiça divina”

Paguei pelos pecados de viver que nem louco
Sobrevivente, sempre amante do jogo – Felp em “90’s” , Cacife Gold (2016)

Analisando as produções de Costa Gold e Cacife Clandestino, é possível ver que ambos têm qualidade artística o suficiente para buscar inovações em sua própria arte e tomar o protagonismo da cena. Infelizmente, não foi dessa vez. É triste que a primeira união formal em um trabalho colaborativo entre cariocas e paulistas da “nova escola” seja representado por este EP, cujo maior ponto positivo seja talvez a paródia de “Vice City (ft. Kendrick Lamar, Schoolboy Q e Ab-Soul)” do Jay Rock. Cacife e Costa, com todo o seu potencial de criação artística, gravaram um EP decente, mas que só mostrará novidade a ouvintes novos ou pessoas que acabaram de chegar na cena do rap. Aos que já conhecem o trabalho dos grupos, Cacife Gold (2016) pouco acrescenta qualquer coisa.

Capa oficial do disco.

2 Respostas para “Review: Cacife Clandestino e Costa Gold – Cacife Gold (2016)

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