Hip-Hop e Luke Cage: Destrinchando os títulos dos episódios da série

O ano de 2016 foi muito bom para o hip-hop. No Brasil, tivemos artistas do gênero participando intensamente da promoção para as Olimpíadas que aconteceram no Rio de Janeiro. Lá fora, teremos um grande exemplo da força da música junto com a mais nova produção da Marvel Television e da Netflix: a terceira série original entre as duas companhias trata-se de Luke Cage, que conta a história do herói de mesmo nome que foi criado nos anos setenta por Archie Goodwin, John Romita e George Tuska.

Luke Cage é do Harlem, bairro de Nova York que tem grande popularidade no hip-hop. Saíram de lá artistas como Big L, Cam’ron, Doug E. Fresh, Kurtis Blow, Sean Combs, Tupac, e mais recentemente A$AP Rocky. Mas é de artistas de outro bairro que a série tira um pouco da sua inspiração.

Os 13 episódios que compõem a primeira temporada da série que estreia no dia 30 de Setembro, terão títulos de músicas da dupla Gang Starr, formada por DJ Premier e Guru, como o nome de seus episódios. Os artistas tem sua origem diretamente ligada ao Brooklyn, outro bairro de Nova York. A escolha desse conceito é explicada  da seguinte forma: “Eu queria que cada episódio soasse como um álbum. Como quando o Prince lançava um disco, você desligava tudo e ouvia a coisa toda. Mas agora, com a TV, você aproveita assistindo. Esse programa é feito para aproveitar. A música ajuda, mas é tudo sobre andar passo a passo,” cita o produtor executivo Cheo Hodari Coker, um dos roteiristas do filme biográfico sobre Biggie, Notorious, lançado em 2009.

A ambientação do programa tem o hip-hop como um dos fundos. Coker define Marvel’s Luke Cage como uma mistura de drama obscuro, hip-hop e ação clássica de super-herói.

Procurando estender a relação da série com o hip-hop e ajudar os leigos do assunto, o Raplogia irá destrinchar cada título de episódio do programa, dando dados referentes às músicas usadas neles.

Episódio 1 – Moment of Truth

Moment of Truth” é parte integrante do disco de mesmo nome da dupla, lançado em 1998 pela Virgin Records e Noo Trybe. Como de praxe, ela é produzida por DJ Premier e Guru, e traz o segundo como o único a rimar nela.

Considerada uma das mais influentes faixas da dupla, ela traz rimas introspectivas por parte de Guru. O gênio lírico criava as suas letras de maneira minimalista e conseguia passar a dose de emoção necessária, e “Moment of Truth” é uma das vezes que ele melhor faz isso.

A música usa sample de “Let’s Fall in Love” do recém-falecido Billy Paul, e foi utilizada no filme The Lincoln Lawyer (2011) e no game Dave Mirra Freestyle BMX 2 (2001).

Episódio 2 – Code of the Streets

A música que dá nome ao segundo episódio é parte integrante do disco Hard To Earn (1994), o quarto da dupla. Novamente produzida por ambos, trazendo Guru sem colaboradores.

Em “Code of the Streets” o MC narra a realidade de jovens nos guetos americanos, que acabam sem oportunidades e são taxados como ameaças para a sociedade. Com uma narrativa ampla, Guru não fala apenas de problemas que o atingiram, mas que atingem toda sua comunidade.

A faixa usa samples de “Little Green Apples” de Monk Higgins, “Synthetic Substitution” de Melvin Bliss e “Change the Beat“, do pioneiro Fab 5 Freddy – é usado o lado B da música, que traz a rapper francesa Beside.

Episódio 3 – Who’s Gonna Take the Weight?

Essa é quinta faixa do segundo disco da dupla, o Step in the Arena (1991), e traz uma mensagem bastante pertinente na nossa sociedade atual. A pergunta de Guru é: Quem tomará a responsabilidade para começar a resolver os problemas políticos e sociais?

A música traz um esquema de rimas e flow que ainda bebia muito dos anos oitenta, década do inicio da carreira de Preemo e Guru. Ela estará sempre lembrada por fazer parte do Step in the Arena, considerado até hoje um dos maiores discos da história do rap.

Episódio 4 – Step in the Arena

Parte do disco de mesmo título, a música é uma das que introduziram o grupo ao público em 1991, sendo a primeira faixa do projeto após a introdução.

Guru mostra as suas habilidades de MC de batalha, referenciando grandes guerreiro da história. Esse conceito automaticamente encaixa na música, que fala sobre pisar na arena para provar um propósito.

Step in the Arena usa os seguintes samples: “Never Let ‘Em Say” de Ballin’ Jack; “Bumpin’ Bus Stop” de Thunder and Lighting; “Four Play” de Fred Wesley & os Horny Horns; e “The Day You’re Mine” de Big Daddy Kane.

Episódio 5 – Just to Get a Rep

O quinto episódio traz o título de outra música do disco Step in the Arena (1991), um dos mais marcantes da carreira da dupla. Aqui Guru conta a história de um jovem que acaba envolvido com o crime graças ao ambiente em que vive.

A música tem uma narrativa bastante crua, descrevendo muitos acontecimentos comuns na Costa Leste e em diversos outros guetos e periferias do mundo. Na história o jovem se envolve com o crime graças ao ambiente que vive, fazendo ações ilegais apenas para ganhar reputação nas ruas e ser mais respeitado.

Como samples foram usados “Funky for You” de Nice & Smooth, e “E.V.A.” de Jean-Jacques Perry.

Episódio 6 – Suckaz Need Bodyguards

Nessa agressiva faixa do disco Hard to Earn (1994), a dupla retrata os gangsters de estúdio. Rappers que se dizem os donos do pedaço, mas não saem para as ruas sem seus seguranças.

A agressividade da faixa pode condizer com o episódio (será?) e traz três versos de Guru. Com vocais adicionais, temos Melachi the Nutcracker.

Os samples usados são “Put Your Love (In My Tender Care)” da Fatback Band e “It Takes Two” de Rob Base.

Episódio 7 – Manifest

Direto do primeiro disco da dupla, No More Mr. Nice Guy (1989), a faixa é a mais diferente na lista, tendo um estilo extremamente diferente dos sons que ditariam a carreira de Guru e Premier.

A letra é bem politizada, como já podemos perceber pelo título. Tecnicamente é um som perfeito, Guru traz uma bela construção de rimas.

Os samples utilizados foram “A Night in Tunisia” de Charlie Parker & Miles Davis; “Bring It Up (Hipster’s Avenue)” e “Ain’t That a Groove (Part 1)” de James Brown; “Papa Was Too” de Joe Tex; e “Word to the Mother (Land)” de Big Daddy Kane.

Episódio 8 – Blowin’ Up The Spot

Se alguém que pode arrebentar com lugares, esse é Luke Cage. Um dos títulos mais semelhantes com o que a série promete, vem de uma faixa do disco Hard to Earn (1994).

É uma faixa bem típica do Gang Starr. Agressiva, instrumental intenso e as rimas caprichadas de Guru.

Os dois samples utilizados são de George Clinton: “All Night” e “I Didn’t Come Rhythm“.

Episódio 9 – DWYCK

Originalmente lançada como B-side do single “Take It Personal” em 1992, a música reapareceu no disco Hard to Earn (1994).

Com a colaboração do duo Nice & Smooth, o título da faixa é um acrônimo para a frase “Do What You Can, Kid“, que por sinal, não aparece na faixa. Repleta de rimas bacanas e com um bragadoccio inteligente, a música não tem um tema estruturado.

DWYCK” é construída sobre inúmeros samples: O cover de “Hey Jude” de Clarence Wheeler & the Enforcers; “Synthetic Substitution” de Melvin Bliss; “Bumpin’ Bus Stop” de Thunder e Lightning; “Side One” de Redd Foxx e alguns elementos de “Funky for You” e “No Bones in Ice Cream” da própria dupla Nice & Smooth.

Episódio 10 – Take it Personal

A faixa do disco Daily Operation (1992) é o título do décimo episódio da série logo após o seu B-side, “DWYCK“. Ela foi lançada em 1992.

Take It Personal” é uma mensagem aos ex-amigos de Guru, que o esfaquearam pelas costas durante a vida. Com rimas rápidas, o rapper leva os três versos com a destreza de sempre.

Os samples utilizados na música são “It’s a New Day” dos Skull Snaps e “Step to the Rear” do grupo de rap Brand Nubian.

Episódio 11 – Now You’re Mine

Mais uma do disco Hard to Earn (1994) que havia sido gravada anos antes – mais precisamente em 1992.

A música foi feita após uma briga feia entre Guru e DJ Premier, algo que deixou marcas – que no caso são cicatrizes nas juntas do dedo da mão de Preemo. “Now You’re Mine” traz referências a basquete por fazer parte da segunda trilha sonora do filme White Men Can’t Jump, estrelado por Wesley Snipes e Woody Harrelson.

DJ Premier conta que apesar da briga, ele e Guru tiveram de fazer a música, que já havia sido paga pela gravadora. As agressivas punchlines na música são direcionadas ao produtor, mas são disfarçadas com referências de basquete.

Now You’re Mine” usa samples de “Feel the Heartbeat” do pioneiro grupo Treacherous Three e de “Rock Box” do Run-DMC.

Episódio 12 – Soliloquy of Chaos

Na rápida faixa do disco de 1992, Daily Operation, Guru conta a sua insatisfação com a violência causada nos seus shows da época, narrando situações das quais os concertos do Gang Starr fossem cancelados por brigas entre os fãs.

A música é curta, mas isso não quer dizer que DJ Premier não possa criar um grande instrumental. Samples usados são: “Misdemeanor” de Ahmad Jamal e “Strictly Business” do duo EPMD.

Episódio 13 – You Know My Steez

O primeiro e último episódio da primeira temporada da série usam títulos de faixas do disco Moment of Truth (1998). Dessa vez, “You Know My Steez” serve como o nome do episódio.

A primeira faixa do disco Moment of Truth é traz três grandes versos de Guru, que rima sobre o cenário do hip-hop na época e o caminho que ele está tomando. A música é como uma carta para os MCs fracos e figurões da indústria.

Como de praxe na carreira de DJ Premier, o uso de samples de dentro do rap como pequenos cortes usados em scratches é comum, tendo uma grande quantidade dessa técnica em “You Know My Steez“. São usadas no instrumental: “Flash It to the Beat” de Grandmaster Flash & The Furious Five; “Real Hip Hop” dos caras do Das EFX; “Opening/Crickets” por Chris Rock; “Drowning in the Sea of Love” do cantor Joe Simon; “Shadowboxing” de GZA; “Usual Suspects” de Big Noyd e “B Side Wins Again” do Public Enemy.


Espero que tenham gosto do post. A série sai no próximo dia 30 de Setembro no serviço de streaming Netflixe algo que a companhia nos ensinou, foi esperar ótimos trabalhos quando ela se junta com a Marvel – é só assistir Demolidor e Jessica Jones. Até lá fique com nossas dicas musicais!

2 Respostas para “Hip-Hop e Luke Cage: Destrinchando os títulos dos episódios da série

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