O pesadelo metaficcional de Vince Staples em ‘Prima Donna’

As perigosas consequências de cafetinar uma borboleta ilustradas no novo visual de Vince Staples.

No dia 26 de agosto desse ano Vince Staples lançou o seu segundo EP, intitulado ‘Prima Donna’. O projeto tem partipações de Kilo Kish, A$AP Rocky, produções de DJ Dahi, No I.D e outros, e até agora tem sido bem recebido pelos fãs e pela crítica especializada. Mas nosso assunto hoje é o curta-metragem lançado uma semana depois, que retrata muito bem as músicas e a vibe do disco, nos dando uma dimensão maior sobre o que Vince quis dizer nesse último trabalho.

Você pode ler nossa review do EP clicando aqui.

O curta-metragem ‘Prima Donna’ é dirigido pelo talentosíssimo Nabil, novo nome do audiovisual gringo que está a frente dos clipes de diversos grandes artistas do RAP, como Travis Scott, Kanye West, Nicki Minaj, entre outros.

O vídeo começa no meio de um set de filmagens em que Vince Staples está rodeado de dançarinas e gravando o suposto clipe de ‘Big Time’, última faixa do projeto. Quando as gravações terminam, o rapper de Long Beach deixa o local e pega um táxi até o ‘Prima Donna Hotel’: é aí que o pesadelo começa. E as referências também.

Logo no caminho aparecem personagens tribais que lembram ‘The Jungle’, um dos episódios do seriado Twilight Zone. Ao entrar no elevador que dá acesso a recepção do ‘Prima Donna Hotel’, percebemos que o papel de parede do mesmo é igual ao tapete do Overlook Hotel, cenário onde se passa ‘O Iluminado’. Levando em consideração que o filme de Stanley Kubrick é sobre um homem que enlouquece devido ao excesso de trabalho e a solidão, podemos começar a imaginar os temas que serão tratados ao decorrer do curta-metragem.

danny

Cena de ‘O Iluminado’

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Trecho do curta ‘Prima Donna’

Assim que Vince chega ao hotel e passa por uma recepção estranha, ele segue acompanhado até o seu quarto, localizado no fim de um corredor. As portas dos outros quartos estão abertas e, até chegar ao seu, Staples tem a visão dos outros hóspedes em seus respectivos aposentos: ele passa por Kurt Cobain assistindo TV, Jimi Hendrix com sua guitarra, Tupac, um homem branco de terno com duas mulheres que parecem prostitutas e Amy Winehouse. Na minha interpretação, o homem desconhecido representa a indústria, pois ele é o único que parece estar se divertindo naquela situação, já que ele aparece sozinho. Já os outros personagens que aparecem no clipe eram todos artistas reais, que falavam dos seus próprios conflitos na música e que o mercado fonográfico usou ao máximo até que – excluindo Tupac – todos se suicidaram. Vince está claramente dizendo: artistas também têm problemas pessoais que se negligenciados, podem resultar em tragédia.

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Representação de Jimi Hendrix no curta-metragem ‘Prima Donna’

Após o rapper entrar no seu quarto, ele tem alguns momentos de conflito consigo mesmo até deitar na cama e a cena cortar pra uma floresta em que ele está deitado olhando para o alto. A sensação que tive é que aquilo era um sonho, interrompido por batidas na porta e um funcionário do hotel dizendo que era a hora de Vince subir ao palco. Ao acordar do sonho, o rapper de Long Beach levanta-se da cama e atira contra uma imagem sua refletida no espelho, que se quebra e dá de frente pra uma platéia que aplaude. O último plano é o Vince Staples do sonho sangrando sozinho na floresta.

deade

 

Há diversas interpretações possíveis pra esse final mas eu compreendi que ao dar o tiro no espelho, Vince matou a figura pública dele, a figura que os fãs e a mídia vê nos palcos. Toda vez que ele sobe pra fazer um show e cantar suas músicas – que falam sobre seus conflitos, seu passado conturbado e o envolvimento em gangues – grande parte do público consumidor se esquece que, apesar de ser arte, Vince Staples está colocando parte de si mesmo em cada música.

Prima Donna também é sobre solidão. Se sentir tão sozinho como se ninguém mais no mundo pudesse entender o que você sente e às vezes nem você entende. Tão sozinho que tudo que o artista tem no momento são palavras, ou uma guitarra, uma câmera como companhia.

Todos grandes artistas que são compromissados em serem verdadeiros têm problemas reais que não podemos ignorar. Muitas vezes para produzir temos que fazer uma jornada de auto-conhecimento, atirar contra o espelho e encarar nossos demônios pessoais para materializar em arte.

Prima Donna é uma bela alegoria sobre o preço que se paga por ser grande, por ser um artista genial. Vince Staples é um desses.

“Não diga que sente minha dor, porque nem eu mesmo sinto
Sangue correndo pelo meu cérebro, às vezes eu quero me matar
Às vezes eu sinto vontade de desistir”

– Vince Staples em ‘Smile’

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