O desafio da renovação

Pelo autor convidado Frederico de Barros

Esses tempos li um artigo do site Genius falando sobre a teoria do sexto álbum, o que explicaria o desempenho abaixo de Drake em Views. De fato, o cd não se compara com trabalhos anteriores, que foram primorosos, ainda que contenha certos momentos de excelência, como “Feel No Ways,” “Faithful,” Controlla,” “One Dance,” “Pop Style,” entre outros. O mesmo pode ser visto com relação a outros artistas. Kid Cudi, Lupe Fiasco, entre outros, não mantiveram a mesma qualidade em outros álbuns, ainda que o primeiro tenha lançado há dias atrás um belo clipe (“Frequency”), que lembra de leve o Cudi de antigamente.

Os motivos para que um artista não consiga manter consistência entre um álbum e outro são relativos. Primeiramente, há a expectativa dos fãs, que esperam por um trabalho seguinte semelhante aos antes lançados. O segundo fator é a questão comercial, que pesa bastante. Nos primeiros discos é possível ver uma essência do artista, que não se mantém quando ele chega ao mainstream, pois o sucesso exige um som mais comercial, de forma que o mesmo abranja novos públicos e novos mercados.

Há um terceiro motivo para que isso ocorra: um ser humano é incapaz de reproduzir exatamente um trabalho igual. Isso acontece tanto pela força de trabalho, quanto pela própria natureza humana. O primeiro álbum de um cantor sempre resguarda as suas principais referências, de forma que ele se apresenta cru, sem interferências externas, como o sucesso, a fama, o dinheiro e os fãs. Além disso, há a própria intenção do artista de soar diferente, afinal, fosse essa intenção, ele procuraria um trabalho normal, em que é necessário aplicar a força de trabalho diária e repetir os mesmos padrões.

O desafio da renovação é o que motivo o artista a soar diferente. Veja o exemplo de Mano Brown, que lançou uma música romântica, algo inédito e até singular para a imagem que criou durante décadas nos Racionais. É isso que faz com que um artista nunca consiga repetir o mesmo poema, o mesmo livro ou a mesma música. É da condição humana essa mudança intencional e o que faz com que a arte, de fato, seja arte. Senão, seria somente a cópia de uma cópia.

Em um VH1 Storytellers falou sobre isso. Ele disse que assiste artistas soarem os mesmos em todos os trabalhos e isso passa longe do seu pensamento.

“Muitas pessoas são pegas tentando refazer o seu primeiro disco e é impossível para mim fazer outro College Dropout, mas eu posso fazer o melhor Graduation o melhor 808’s. E é assim que você, eu acho, se mantém como um artista em evolução. Poucos artistas do hip-hop realmente evoluíram: as músicas deles no sétimo, oitavo disco, soam exatamente como as músicas do primeiro. Mais do que um artista, eu sou uma pessoa e pessoas crescem, e eu quero cantar o meu amadurecimento.” – Kanye West, Live From VH1 Storytellers

Foi por essa questão que eu o defendi quando saiu 808’s & Heartbreak’s, que é um dos melhores trabalhos dele, em minha opinião, sendo até superior do que Graduation e College Dropout (mas só ouça 808’s se quer ficar na bad). Ainda que não tenha gostado da mesma forma de Yeezus, Kanye é um dos poucos artistas da sua geração que captou o conceito de arte e, portanto, procura incluir em seus trabalhos.

Vejo da mesma forma “Starboy”, próximo de ser lançado por The Weeknd. Após três ótimas mixtapes, ele lançou Trilogy, um álbum apenas ‘ok’, pois é uma releitura dos três primeiros trabalhos. Em Kissland ele repete a mesma levada com uma pequena diferença e, em Beauty Behind The Madness, faz um álbum diferente daquele esperado. Bem mais comercial, BBTM é um trabalho interessante que não desaponta, pois se percebe uma mudança do artista, ainda que se guarde aquela saudade do Abel de House of Balloons. Mesmo assim, essa saudade se dá pelo fato de, na época, ele ser um artista desconhecido, com poucas fotos, quase nenhuma entrevista ou declarações na mídia. Isso contrasta com o Abel que, anos após o lançamento daquelas três belas mixtapes, fazer uma parceria com Ariana Grande (e ainda soar bem).

Pelas duas músicas lançadas até o momento (“Starboy” e “False Alarm”), dá pra prever um novo trabalho progressivo, extremamente diferente daqueles anteriores, com novas experimentações, que devem resultar em um sucesso comercial e de crítica. Não há fórmula para renovar com sucesso, se não experimentar e arriscar. É isso que faz com que acordemos todos os dias e enfrentemos o mundo: a possibilidade de fazer algo minimamente diferente.

2 Respostas para “O desafio da renovação

  1. Muito bem trazido meu caro! Um grande artista sempre busca a evolução, se ele consegue trazer isto, mas ao mesmo tempo trazendo qualidade, isso mostra o seu potencial. Por isto Kanye para mim ( para mim!!) é um cara diferenciado, sempre antenado com sons atuais e buscando colocar isto no seu estilo e minimalismo perfeccionista que sempre elevam estes sons. Um cara a frente do seu tempo, mas para quem tem visão, enxerga o gênio que ele é. “I love old Kanye, I love new Kanye, I love Kanye!”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s