O Retrato da Infância no Rap e no Cinema

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Num dia desses passei com um camarada num cineclube pra assistir ‘Infância Nua’, filme de Maurice Pialat, e pelo incrível que pareça, assim que acabou a película ela meio que substituiu o filme que era até então meu predileto sobre infância, Os Incompreendidos. Fazia tempo que não via um filme que dava vontade de escrever sobre, então pensei em falar aqui, ainda que o blog seja sobre rap, mas como o pessoal sempre buscou fugir do senso comum, por que não escrever?
Então decidi aliar o rap com cinema nesse post, realizando uma lista com alguns de meus filmes e raps prediletos sobre a infância. Em relação ao cinema foi mais fácil já que muitos títulos estavam frescos na memória, enquanto o rap tive que pesquisar mais, pois já tinha me esquecido das músicas com essa temática, e garimpando bateu uma nostalgia forte de muitas pérolas que curtia. Enfim, chega de enrolação e vamos logo à lista!

Legacy – Eminem

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Em ‘Legacy’, o Eminem realiza de forma detalhada a reconstituição da sensibilidade de uma criança, sendo que o artista mergulha em seu próprio âmago com o objetivo de apresentar todos os tormentos, anseios e sonhos que possuía em sua infância. É necessário destacar que o rapper utiliza-se de uma tonalidade vocal que lembra a de um menino, inclusive rimando pausadamente, para que assim, sua narrativa torne-se crível e consequentemente o ouvinte percorra junto com o artista as estradas do passado. A única coisa que podia ser mudada na música era o refrão, que ficou meio farofa.

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Laure (Zoé Héran) é uma menina de dez anos que acaba de mudar novamente de casa com os pais (Sophie Cattani e Mathieu Demy) e a irmã caçula, Jeanne (Malonn Lévana). Cabelo curto, jeitão de moleca, ela explora a nova vizinhança e procura fazer amigos. É então que Laure decide apresentar-se como menino, usando o nome de Michael. Com o passar do tempo a farsa vai exigindo dela cada vez mais esforços.
A película francesa é de longe umas das melhores desses últimos anos quando o assunto se trata de Infância e também de identidade sexual. Seu ponto forte habita na delicadeza e naturalidade com que a história é contada. O filme poderia ter sido um dramalhão cheio de clichês, mas ainda bem que é totalmente o contrário disso. Outro ponto positivo é que algumas lacunas são construídas para que o próprio público decida fazer o que deseja com elas.

Relíquia – Cone Crew Diretoria

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Em ‘Relíquia’, temos como introdução o relato de uma das mães do componente da Cone, especificamente a mãe do Batoré, Dona Ana, relembrando a infância e a personalidade de seu filho. Com essa introdução já dava pra saber o que viria pela frente em termos de temática. Batoré e Maomé rimando sobre os tempos de infância, tudo com uma pegada de nostalgia. O som foi um dos melhores do ‘Com os Neurônios Evoluindo’, provavelmente o melhor trampo da Cone junto com ‘Ataque Lírico’. Aliás, se não me engano tá pra rolar um Relíquia parte 2, basta esperar pra ouvir…

 

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Talvez ‘Os Incompreendidos’ seja o maior ícone de filmes quando o assunto se trata de infância, se não for, pode ter certeza que é um dos mais respeitados e lembrados. Pra quem curte Truffaut, já sabe que o protagonista do filme foi muito baseado na vida do próprio diretor.
A película foi uma das primeiras do movimento da Nouvelle Vague, que ia na contramão das superproduções. Aqui a tônica era fazer um cinema mais autoral, sem grandes orçamentos. ‘Os Incompreendidos’ tratou sobre muitos temas, entre eles a solidão, a falta de compreensão para com as crianças por parte dos adultos e da escola, a perca da inocência, amizade, abandono, enfim, o que não faltava eram assuntos para se refletir. Tudo ali tinha um jeito meio melancólico, sendo que algumas coisas eram carregas até mesmo de um humor meio inocente. Muitas cenas ficaram gravadas na memória, principalmente pelo lado mais poético. Como não se lembrar da cena final do filme? Truffaut fez um filme perfeito pra conquistar e emocionar o mundo e no fim conseguiu isso com grande êxito, chegando a ser premiado no Festival de Cannes.

Projota – Meninos

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Projeção é um dos meus trampos favoritos do Projota, pena que com o tempo ele foi decaindo em termos de letras e meio que caiu pra um lado comercial ruim. A proposta era falar somente sobre as faixas, mas como escutava bastante o cara e via ele como uma das grandes promessas, fica difícil não pensar de modo mais amplo. ‘Meninos’ era umas das tantas faixas boas daquela mixtape, que certamente vale ouro. Aliás, a indicação vai além de Meninos, se não conhece Projeção, tira um tempo pra escutar a mixtape do começo ao fim.

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Primeiramente, muito amor pelo Miyazaki!!! ‘Meu Vizinho Totoro’ não podia faltar na lista, se fizesse isso estaria cometendo uma heresia. Há tanta coisa que gosto na obra que fica difícil enumerar. O senso de gravidade que ela possui faz qualquer um ficar aflito e criar uma empatia imediata pelas crianças. Não estou falando apenas da possível perda de um ente querido pelo qual as meninas passam, mas também o sumiço de uma delas na floresta, enquanto a irmã corre desesperada para achá-la. A cena da sandália encontrada no lago e a expectativa pra saber se pertencia a menina desparecida deixa qualquer um com um nó na garganta.
Outra coisa que sempre faço ao rever a película é pausar inúmeras vezes pra contemplar as imagens, tudo feito de modo artesanal, o modo como a natureza é retratada é um show à parte. E o que dizer de Totoro? Desde a primeira vez que vi há película gostei de como ele aparece pouco, o que dá um tom muito mais enigmático e especial à sua figura. Miyazaki é certamente um cara que mora no coração de todos que amam cinema, seus filmes são meio que portais que às vezes você quer adentrar pra sentir novamente um pouco do gosto de seus tempos de infância. Não é à toa o fato que tanta gente tatua seus personagens na pele.

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MC Soffia – Brincadeira de Menina

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A mc Soffia é perfeita pra iniciar a criançada no rap, já que as letras tratam sobre temas importantes de serem refletidos, tudo de um jeito perfeito para ensinar/dialogar com os pequenos. Aos 11 anos de idade, a menina prepara pra lançar seu disco solo. A paulistana começou a cantar realmente cedo, influenciada pela mãe, Kamilah, ela participou de uma oficina de hip-hop aos seis anos de idade e desde então não parou mais. Hoje ela já arrisca compor sozinha e demonstra que tem atitude de sobra nos shows. Nada melhor do que indicar ‘Brincadeira de Menina’ nesse post, já que trata sobre romper com os padrões que a sociedade impõe em relação ao que as crianças podem ou não brincar.

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Kiarostami não podia faltar na lista de jeito nenhum, infelizmente um dos maiores cineastas de todos os tempos nos deixou esse ano, mas seu legado é certamente eterno. O iraniano realizou, acima de tudo, um cinema cerebral, buscando extrair o máximo possível de reflexão por parte de seus telespectadores.
A quantidade de artigos bastante técnicos e profundos sobre sua filmografia é bem grande, e vale sempre a pena correr atrás deles após assistir suas películas. Uma coisa que gostava bastante nele era que deixava em aberto muito de seus trabalhos, inclusive falava que as interpretações para suas histórias dependiam de seus telespectadores e não só dele. Não são muitos autores que pensam dessa forma, nem todos tem essa cabeça aberta.
A indicação que trouxe pra vocês é do seu longa ‘O Viajante’, que conta a história de um garoto em idade escolar, apaixonado por futebol, que utiliza de quaisquer meios para viajar até Teerã e poder assistir ao jogo da seleção nacional. O longa chama atenção pelo fato de Kiarostami acompanhar seu personagem num tom fortemente documental, algo que chegou a chamar atenção de outro lendário cineasta, Kurosawa, que certa vez confessou que o invejava por essa sua habilidade.
O cinema de Abbas Kiarostami é único, portanto faça um favor a si mesmo, se não conhece sua filmografia, CORRA ATRÁS! Aliás, ‘Gosto de Cereja’ tá no meu top 10 de filmes prediletos, e talvez seja o filme mais indicado para quem não conhece a filmografia de Kiarostami e deseja mergulhar nela.

Emicida – Aos olhos de uma criança

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O título não poderia ser melhor, já que o mc personifica a visão de uma criança diante de um mundo que ao mesmo tempo amedronta e fascina. A voz de Emicida é regada por uma melancolia para representar o estado de espírito do personagem de sua narrativa, consequentemente o ouvinte cria empatia pelo menino microscópico perdido na selva de pedra.
A composição é tema do filme “O Menino e o Mundo”, projeto de Alê Abreu que conta a história de um menino que mora com o pai e a mãe, em uma casa no campo, porém com a falta de trabalho, o pai abandona o lar e parte para a cidade grande. Triste e com saudade, o menino faz as malas, pega o trem e vai descobrir o novo mundo em que seu pai se encontra. O filme chegou a concorrer ao oscar, mas infelizmente acabou não levando o prêmio.

 

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‘Os Incompreendidos’ havia conquistado o mundo trazendo as ruas parisienses para a grande tela, fugindo dos artifícios hollywoodianos e também do que estava sendo feito até então na França, consequentemente fazendo um cinema autoral. Aliás, não só ‘Os Incompreendidos’, mas também todo o movimento da Nouvelle Vague, que representava basicamente isso, romper com as superproduções e os clichês. Filmes com orçamento não tão grande foram realizados, consequentemente tinha-se um realismo maior, já que a densidade do perfil psicológico dos personagens ganhava um desenvolvimento melhor. Os caras estavam revolucionando tanto na estética quanto no conteúdo.
19243917-jpg-r_640_600-b_1_d6d6d6-f_jpg-q_x-xxyxxAté que em 1968, um novo patamar seria escalado, ‘Infância Nua’, foi lançado e com ele, se percebeu que Pialat não apenas estava indo na contramão das superproduções hollywoodianas, mas também da própria Nouvelle Vague. Muita gente ao assistir o filme se lembrou do filme de Truffaut, mas os mais atentos perceberam que Pialat havia dado um belo chute no rabo do lirismo de ‘Os Incompreendidos’. ‘Infância Nua’ não é poético, pelo contrário, é visceral ao máximo, e é de explodir a cabeça ao ver isso. Confesso que quando assisti ele, meu cérebro deu uma bugada. Pialat não queria emocionar seus telespectadores, nada de lágrimas. Se em Os Incompreendidos tínhamos aquela cena final super poética, em Infância Nua o que se tem é um anticlímax total. É como se você levasse um soco de surpresa. Você espera que vai se emocionar e Pialat vai lá e entrega um final em seu estado bruto, a vida sem lirismo algum. Nada de artifícios, somente a busca pela verdade.

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