Um Viadinho Entre Lobos: 4 Rolês Pelo Hip Hop Em 2016

E aí família Raplogia, que saudade hein?! Faz tempo que não dou as caras por aqui, muito ocupado ultimamente em minhas incursões para entender as masculinidades negras rappers. Nos caminhos que percorri esse ano, além de esbarrar em várias possibilidades para minha pesquisa acadêmica, eu pude me perder um pouco nesse magnífico universo que é a cultura Hip Hop. Decidi então compartilhar com vocês quatro dos rolês mais interessantes que eu dei na cena daqui da Bahia e falar um pouco de minhas experiências etnográficas de imersão cultural por onde andei. Bora?

Rolê #1: Show Ainda Há Tempo, do Criolo – Concha Acústica do Teatro Castro Alves

Criolo além de ser um dos meus rappers favoritos é uma espécie de sacerdote que transforma a cultura Hip Hop em uma seita e seus fãs em discípulos, sacralizando o Rap enquanto uma arte de sublimação e redenção humana. Há algo de excepcional nesse rapper, que fala por provérbios e parábolas complexas, mas fascina e hipnotiza com sua simplicidade e humildade. Despir as vestes dos ídolos e das celebridades tão ambicionadas por rappers em ascensão por aí faz de Criolo um artista em suspensão, mesmo em grande evidência no mainstream não só do Rap Nacional, mas da Nova MPB a qual ajudou a revolucionar. Criolo parece andar tranquilamente sobre as brasas da fogueira das vaidades, na qual muitos rappers cabornizam. Como um de seus seguidores, estava eu lá mais uma vez presente na Concha Acústica do Teatro Castro Alves para o culto ao Hip Hop. Nas minhas contas já é o terceiro show que presencio do Criolo na Bahia, sendo que dois foram do álbum Nó Na Orelha nos quais tive o prazer imenso de entrar em transe e êxtase com os solos de saxofone do grande Tiago França (Metá Metá), além das minhas histórias que soam como absurdas do primeiro show em plena greve da Polícia Militar na Bahia. Mas isso é outro babado. Infelizmente não tive a oportunidade de ter visto o show do álbum Convoque o Seu Buda, mas estava ansioso para ver a execução pública do remix de Ainda Há Tempo, álbum relançado esse ano. De certa forma, estava sem muitas expectativas para o show, principalmente pelo fato de possuir um formato tradicional de apresentação, composto por dois DJ’s e dois MC’s. Se há uma coisa que o Novo Rap Nacional mal acostumou seu público é a inserção praticamente definitiva da banda de músicos para a montagem de seus shows. As sonoridades se tornam mais orgânicas e pulsantes, e no caso da estética musical proposta pelo Criolo e Daniel Ganjaman desde Nó Na Orelha, a banda no palco é praticamente indispensável. É válido ressaltar que a inclusão de bandas no Rap Nacional é um dos fatores que corroboraram para uma maior “aceitação” do Rap enquanto música pela tradicional e elitista MPB. Enfim, acostumado com o formato anterior, o show se tornava para mim uma surpresa. Após a experiência, constatei que retornar ao modelo tradicional DJ + MC era proposital: celebrar os 10 anos do álbum Ainda Há Tempo era uma forma de reviver memórias de como Criolo e DJ DanDan faziam Rap no passado. Ainda Há Tempo é um álbum-documento da difícil trajetória artística de Criolo, sem visualizações, likes e compartilhamentos que transformam hoje a arte do Rap em uma ilusão artificial e efêmera. Um ritual público de recordação de uma história que não se faz com diss ou jogos ambiciosos de ascensão. Um show de celebração da luta pela sobrevivência sendo rapper no Brasil. O palco da Concha Acústica do TCA estava tomado por uma grande mesa de suporte para os maquinários, além dos imensos telões de led que compunham o cenário multimídia do show: projeções explodiam junto com os beats e scratchs de maneira bastante harmoniosa, com o design incrível desenvolvido por Alexandre Órion que compunha narrativas audiovisuais durante a apresentação. Câmeras de vídeo instaladas nas pick-ups dos DJ’s Marco e DanDane projetavam nos telões perspectivas e ângulos de visão das mãos manipulando freneticamente os discos e dispositivos. Criolo e DJ DanDan dominavam cada centímetro do palco com voracidade e as rimas atingiam o público como açoites. Aliás, sob açoites verbais foram torturados vários preconceitos e fobias no palco: racismo, machismo, sexismo, LGBTfobia e questões de ordem política (FORA TEMER!) foram explicitamente posicionados e desconstruídos várias vezes durante o show. Fui para casa plenamente feliz por ser respeitado e amado por meus ídolos, acreditando que o Hip Hop, como qualquer outra cultura, está em processo de transformação. Um show no qual o amor e o respeito mútuo foram pregados como práticas políticas, exercitadas pelo abraço coletivo entre amigxs e desconhecidxs. Foi uma experiência mais do que artística: humana. De crítica negativa só senti falta das rimas do DJ DanDan, principalmente na música Até Me Emocionei: mesmo possuindo um trabalho incrível junto com o Criolo e em projetos como a Discopédia, acredito que DanDan deve produzir um álbum solo enquanto rapper. Amo seu timbre, performance e carisma. Foi lindo demais.

Rolê #2: Shows Gente Bonita, do Fióti, e Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, do Emicida – Concha Acústica do Teatro Castro Alves

– Posso levar Lucas pro show de Emicida na Concha?

– Se ele quiser ir, ele pode sim…

Esse foi um rolê que vou guardar na memória a vida toda. Decidi levar meu sobrinho-neto de 8 anos para o show do Emicida, o primeiro show de Rap da vida dele. Acredito que foi meio que um processo de iniciação: se eu tivesse alguém que me apresentasse o Hip Hop desde criança, acredito que minha paixão iria ser bem maior hoje. Lucas adorou a ideia e aceitou na hora o convite. Foi algo bem mágico, um show no qual Fióti pisava a primeira vez no palco sagrado do da Concha Acústica do TCA com seu trabalho autoral, abrindo o show de um dos melhores álbuns da história do Rap Nacional, cheio de convidados como o icônico rapper Mobbiu e Russo Passapusso (Baiana System). Era como a família estivesse toda reunida para uma celebração. Com ingressos, merenda, ansiedade e muita responsabilidade, lá fomos nós. Através de uma banda composta por um poderoso corpo percussivo coberto por um imenso estandarte no qual se avistava um navio negreiro, Emicida evocava a nossa África ancestral como se abrisse um grande livro no qual as nossas histórias negligenciadas nos currículos escolares começaram a ser recontadas em suas rimas e batidas, insuportavelmente pesadas como o terror e a dor da escravidão das populações negras no Brasil Colonial. Sinceramente, arrepia só de lembrar cada música executada do setlist do show do álbum Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa: na abertura, a famosa cena de Lázaro Ramos e Wagner Moura no filme Ó Paí, Ó funcionou como um interlúdio para Boa Esperança, atingindo com socos e pontapés sonoros o público que entrava em êxtase. Como se fosse uma convocação de guerra, Emicida propunha uma rebelião através do som. Na boca do palco, praticamente cara a cara com os músicos, Emicida era atencioso e interagia com Lucas durante o show, principalmente na música Chapa. Eu, tio-avô babão, só me emocionava e chorava. Emicida se tornou uma espécie de griot-feiticeiro, que usa da magia do Rap para manipular emoções. As versões de Haiti (Caetano Veloso), Marinheiro Só (Clementina de Jesus) e Preciso Me Encontrar (Cartola) foram os momentos mais inusitados do show, além da versão de Mandume com o rapper Mobbiu e Mufete com Russo Passapusso – que transformou a Concha Acústica em um carnaval tocando Playsom, da Baiana System junto com a banda. Para mim, foi o melhor show de 2016. A crítica negativa que eu tenho é em relação à performance demasiadamente intimista do Fióti, que precisa possuir mais desenvoltura, dominar o palco e o público: dava um pouco de aflição a falta de reação e interação da platéia que foi diminuindo no decorrer do show, apesar de uma situação hilária específica que rolou e eu comentei com ele depois via Facebook, risos. Porém, Gente Bonita é um EP sofisticado e de muito bom gosto que devemos prestar mais atenção, além de funcionar muito bem ao vivo.

Rolê #3: Festa Som da Rua, do coletivo Quinta Esquina e do Coletivo Zumbeat – passeio público do Centro Cultural de Santo Antônio de Jesus

Descentrar a metrópole dos grandes shows e eventos de Rap e cultura Hip Hop é bastante complicado, pois a vida cultural no interior ainda é muito estagnada e negligenciada pelo poder público municipal, mesmo com o fato de Santo Antônio de Jesus (cidade na qual eu moro) estar próxima de Salvador e ambas estarem localizadas na região do Recôncavo Baiano, não sendo portanto tão interior assim. Porém, há alguns anos que um coletivo de meninos instaurou a cultura Hip Hop em minha cidade não somente através do Rap, mas desenvolvendo a prática dos elementos básicos que a compõem, como o Break e o Graffiti. O coletivo Quinta Esquina, formado na Quinta do Inglês – bairro do Centro de SAJ, é hoje uma das principais potências artísticas não só em produção musical (como a mixtape Radioatividade lançada essa semana na web), mas também em agitação cultural e promoção da assistência social para a juventude. Projetos como o Expande Graffiti, Quilombeat e Hip Hop Nas Quebradas propagam a cultura Hip Hop no interior do Recôncavo Baiano através de atividades artísticas e culturais gratuitas e financiadas com apoio popular, movidas pela filosofia “nóiz por nóiz” que evidencia a face política e ativista do Hip Hop e ainda continua transformando vidas e emancipando os sujeitos. Batalhas de MC’s, mutirões de graffiti, oficinas culturais, distribuições de livros, dentre outras atividades fazem do Coletivo Quinta Esquina mais que um coletivo de rappers na cena underground disputando um lugar ao sol do mainstream. Junto com o Coletivo Zumbeat, especializado na estética do “bota som” e da cultura Sound System, o Quinta Esquina realiza mensalmente a festa Som da Rua, que possui como principal objetivo a ocupação de espaços ociosos para atividades e eventos culturais. Localizada principalmente no passeio público do Centro Cultural de SAJ, a festa se tornou um protesto simbólico permanente ao grande descaso do poder público municipal em relação à cultura e juventude, além da negação e bloqueio do acesso livre dxs artistas ao Centro Cultural, prédio histórico abandonado há anos e restaurado recentemente. É na festa Som da Rua que a juventude se encontra, socializa e consome sonoridades, além de ser uma espécie de ponto de cultura dxs artistas santoantonienses: poetisas, poetas, artistas plásticxs, fotógrafxs, músicxs, atrizes, atores, dentre outrxs colaboram nas edições com mostras de seus trabalhos, apesar da cultura Hip Hop ser privilegiada no evento. Vale destacar a circulação de MC’s e rappers da região na festa, a exemplo do coletivo Direto Do Hospício, o qual Baco Exu do Blues integra enquanto uma promessa da nova geração do Rap Baiano, apesar de minhas divergências com o trabalho desenvolvido por ele. A festa Som da Rua é minha preferida, pois além de me sentir em casa, sempre encontro minhas amigas e meus amigos para curtir um som de qualidade e se afogar em beijos, abraços e cervejas. Val Rep é uma referência pra mim, Bardo e DaReal já foram meus alunos (tô ficando velho! risos), Róccki Emissí é um grande talento de nossa cena e Vagabundo Social é um hit que o público canta em uníssono. Meu extremo respeito e vida longa aos coletivos Quinta Esquina e Zumbeat!

Rolê #4: Shows do Nova Era e dos Racionais MC’s, Cores e Valores – Concha Acústica do Teatro Castro Alves

Esse último rolê foi no domingo passado (18), meu primeiro show digamos “clássico” de Rap. Há tempos que cobro de mim mesmo um show não só dos Racionais, mas de “dinossauros” do Rap Nacional, como RZO, Thaíde, Dexter, MV Bill. Mas nem sempre a agenda bate e as obrigações deixam. Morar no interior é outra merda. Dessa vez tudo conspirou ao meu favor, mas ainda havia algo que me deixava apreensivo: na maioria dos shows de Rap da old school brasileira o público em peso é masculino: o ambiente é contaminado por altos níveis de testosterona de machos alpha super altivos e marrentos, e isso pode ser não muito interessante para um viadinho como eu. Confesso que tinha preconceito com esses shows de Rap mais cru e pesado que se transformam em ambientes de emasculação, nos quais a heterossexualidade compulsória grita. É algo bem estranho e que me incomoda até hoje, tanto que é um dos motivos que me levou a pesquisar masculinidades negras no Gangsta Rap. É diante do outro que sua diferença se materializa. Já menti para não ir a shows como do Facção Central mesmo achando foda, mas é onde nós gays nos sentimos meio que sufocados. O show estava sendo divulgado desde outubro, e até a semana de realização ainda estava bastante indeciso. Tentei convidar amigos, todos tinham programações. Vi que deveria desconstruir isso dentro de mim e me permiti à experiência: tomei coragem, comprei o ingresso, postei foto no Facebook, disse a todxs que iria. Parece uma besteira, mas não é. Um viadinho curtir Racionais é algo muito estranho, atípico. Os Racionais são muito importantes para mim e para a história de vários homens negros do Brasil, sejam eles héteros ou homossexuais. O Rap é uma espécie de psicanálise das masculinidades negras, e os Racionais são especialistas nisso: se você quer saber o que é ser homem negro no Brasil é só escutar a sua discografia. Foi uma experiência muito foda e libertadora para mim. Apesar de ter encontrado alguns amigxs, estar no meio daqueles homens negros cantando os clássicos, que hoje em dia tocam no MP3 dos carros dos playboys brancos fetichistas, foi incrível. Estar em um entre-lugar no qual você simultaneamente pertence e não pertence. É meio complexo de explicar o subjetivo de um homem negro gay e não caberia aqui essa discussão. Bebi, fumei, cantei, dancei, gritei pra caralho minha negritude. Porém, me senti um viadinho vulnerável no meio dos lobos. Entretanto, fiquei impressionado também pela experiência estética que tive: além da aparelhagem de sonorização da Concha Acústica, os Racionais montaram uma espécie de trincheira de caixas de som no palco proporcionando uma experiência sonora de uma intensidade absurda: os graves batiam no fundo da alma, causando terremotos na carne e no corpo. Fiquei hiper impressionado com a potência e perfeição vocal de Lino Krizz, cantando os refrões como em O Mal e o Bem e That’s My Way. A abertura do show foi comandada pelo Nova Era, coletivo de Rap de Salvador que passei a conhecer melhor. Contando com participações e performances impactantes de Nego Freeza (OQuadro) e Mobbiu, tomaram minha atenção de assalto e ganharam mais um fã com os beats e discursos potentes.

Pois é família Raplogia, por enquanto é isso. Peço desculpas a vocês por escrever pra caralho e aos amigos do Rap Bahia por na maioria das vezes estar ausente nos eventos de Hip Hop, que são inúmeros. A gente faz o que pode. Obrigado pela paciência de sempre e até a próxima, amiguinhxs!

Daniel Dos Santos (DanDan) é licenciado em História pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), mestrando em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), membro fundador e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Africanos e Afrobrasileiros (AfroUneb) e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade (CuS), nos quais desenvolve o #TheGangstaProject: Masculinidades Negras nos Videoclipes dos Rappers Jay Z  e 50 Cent. É apaixonado pelo Drake e Kanye West. Os boxeadores negros são suas principais inspirações.

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