Os Temas que Morreram no RAP

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Existem temas que não deveriam ser rimados?

Que tipo de tema poderia ser considerado imaturo?

O que faz com que um escritor seja respeitado?

De uns dias pra cá tenho me feito essas perguntas, na verdade elas surgiram após eu escutar um rap sobre um tema que jamais imaginei ser abordado. Afinal o rap é um gênero que carrega um peso enorme nas costas, sendo que muitos ouvintes já imaginam um monte de coisas atreladas à palavra, até mesmo sobre os temas que podem ou não ser feitos. E quando o rapper se liberta e fala sobre o que realmente quer, muitas vezes ele não é considerado relevante.
Quer ver quando o rap tem como temática o amor, daí pode ter certeza que o pessoal vai cair matando. E então penso, será que Drummond era um poeta menor por falar sobre amor? E Pablo Neruda?
É claro que não dá pra comparar todo mc que fala sobre amor com um Neruda ou Drummond da vida, pois alguns sons sobre esse tema específico são abordados de forma superficial. O cara vai no youtube e observa diversos trabalhos mal desenvolvidos atingindo uma quantidade gigantesca de visualizações e ao mesmo tempo vê trabalhos a frente de seu tempo não ganhando o reconhecimento e a popularidade que tanto merecem.
Fazer o quê, não é mesmo? Na história da humanidade o que não falta são injustiças para com os talentosos, basta nos lembrarmos de que Vincent van Gogh vendeu apenas um quadro em vida: ‘O Vinhedo Vermelho’.
Ainda tratando sobre esse tema que gera tanta polêmica no rap, o amor, vale destacar alguns artistas que trabalharam de modo diferenciado, Lívia Cruz, OutKast, Common, Eminem, FRAJ, Makalister, Lauryn Hill etc. Aliás, não tem como deixar de ressaltar novamente o nome do FRAJ, que lançou um dos melhores projetos desses últimos anos no cenário nacional, EKSTSS. O mc é de longe um dos mais diferenciados, lançando trampos herméticos e cheios de referências cults, principalmente em relação a literatura, poesia, cinema e HQ’s.
E voltando a falar sobre o tema do amor, FRAJ (Admirável Mundo de Dionísio) tem uma música em particular com inspiração na HQ ‘Azul é a cor mais quente’ de Julie Maroh, e consequentemente também na versão cinematográfica do diretor Abdellatif Kechiche, que inclusive faturou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2013.
Abaixo você confere o som do FRAJ e também o trailer do filme ‘Azul é a cor mais quente’:

Enfim, também tem outros nomes muito bons que trabalharam com esse tema, do mesmo modo, como também tem muitos nomes que fizeram verdadeiras bombas. Como um belo exercício intelectual, vale a pena garimpar músicas sobre esse tema e ficar comparando uma com a outra, observar como os detalhes e a profundidade fazem de um som uma obra prima e como a falta deles fazem uma música ser fraca.

E além do amor, temos infinitos temas que foram bem trabalhados, na verdade não é um tema que fará com que o artista possa ser considerado imaturo, mas sim o modo como ele o aborda. Me desculpem, mas não consigo chamar de imaturo alguém que construa uma música repleta de detalhes, forneça profundidade para seu som, soa criativo e de um toque original, saindo de sua zona de conforto e quebrando com fórmulas prontinhas. Quer um exemplo de tema considerado ‘bobo ou fútil’ pela maioria, mas que quando bem trabalhado  faz com que se torne um clássico? “Ten Crack Commandments”, faixa de ‘Life After Death’ é a resposta!
E nessa mesma temática que causa tanta polêmica quando trabalhada, ou seja, drugs, podemos nos lembrar que um dos melhores da cena atual ganhou muito de seu respeito e admiração através do modo detalhado e criativo que explorou essa vertente em sua música, na verdade desde os tempos de Clipse, estou falando de King Push. Só que mais uma vez saliento, esses nomes sentaram na cadeira e dedicaram-se ao máximo para construírem trabalhos diferenciados. Mas é claro que nem todo mundo é um Pusha T da vida, assim como um monte de outros nomes que trabalharam com esse tema tão bem, enfim, Jay-Z, Nas, Raekwon, Eminem,  Ghostface Killah, UGK, Criolo, B.I.G, Costa a Costa, Diomedes Chinaski etc.

E não precisamos focar só no rap, vale relembrar de filmes como ‘Trainspotting’ (Danny Boyle), ‘Requiem For A Dream’(Darren Aronofsky) e ‘Enter The Void’ (Gaspar Noé). Um tema julgado por muitos como ‘fútil’, que quando foi bem trabalhado acabou virando cults elogiados tanto pelo público como também pela crítica especializada.

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Mas infelizmente tem se escutado bastante coisa fraca ultimamente relativa a essa temática, sem qualquer tipo de profundidade. Parece que basta o som ter um refrão pegajoso, consequentemente um monte de gente acha a coisa mais genial do mundo. Aliás, Eminem resumiu perfeitamente toda essa situação na música Syllables:

“It is not about lyrics anymore
It’s about a hot beat and a catchy hook

If we gotta dumb down our style and A-B-C it
Then so be it, ‘cause nowadays these kids
Just don’t give a shit ‘bout lyrics
All they wanna hear is a beat—and that’s it
Long as they can go to the club and get blitzed
Pick up some chicks and get some digits
And the DJ’s playin’ them hits
“Oh, this my jam! This my shit!”
We don’t know a word to a verse, all we know is the chorus
‘Cause the chorus repeats the same four words for us
And the song’s ginormous, the whole formula’s switched
‘Cause we don’t know anymore, what are hits?
Is it the beat? Is it the rap?
Is it a finger snap or the same 808 clap?
And how do we adapt and get TRL votes
When 13-year-olds control the remotes?
And Ashley’s got a brand new nose
We gotta put some new em-pha-sis on our sa-lyl-la-bles”

Mas voltemos a focar sobre os temas considerados ‘imaturos/não relevantes’, muitas vezes me pergunto quantos rappers acabaram deixando sua identidade de lado, seus gostos, desejos, referências em troca de ganhar o rótulo de ‘maduro’? Quantos temas morreram, os chamados ‘bobos’ e ‘menores’? Infelizmente muitos, já que a coragem de se libertar, de ultrapassar o que lhe é imposto é certamente uma benção e nem todos se livram das amarras. E alguns até mesmo conseguem esse feito, mas os que realmente merecem ser admirados são aqueles que fazem o que querem a partir da dedicação e profundidade, para que saia um trabalho bem feito e diferenciado. A qualidade do conteúdo trabalhado está acima do tema, essa é uma lição que pode ser aprendida através dos mc’s citados nesse post, além é claro da coragem em se libertar.

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