Querido Baco,

Essa carta poderia ser mais um desses artigos sensacionalistas que começaram a circular pelas mídias Hip Hop envolvendo e manipulando seu nome e do Chinaski. Realmente, depois de Sulicídio a vida artística de vocês deve ter virado de cabeça pra baixo. Muitas tretas rolaram, posições no tabuleiro do rap game foram tomadas e isso tem me incomodado muito, não é de hoje. Comentando várias fitas com uma amiga minha, ela me deu a ideia de escrever um e-mail pra você, que decidi virar essa carta aberta.

A primeira vez que tive contato com seu trabalho foi por indicação do meu amigo Val Rep, do coletivo Quinta Esquina daqui de Santo Antônio de Jesus – BA, há algum tempo atrás. Estávamos trocando umas ideias e sons pelo Facebook e ele me enviou um single seu. Achei bastante interessante e desde então tenho prestado atenção em seu trabalho através do coletivo que você integra que é o Direto Do Hospício. O underground ainda continua sendo um país das maravilhas no qual muitos seres fantásticos habitam, e você é um desses seres. Grandes talentos brotam do asfalto das ruas e isso me faz crer que a cena Hip Hop, principalmente quando se trata de Bahia, pode se renovar. Tenho muito pouco tempo nessa aventura que eu me meti que é me tornar um crítico de Rap e cultura Hip Hop, mas as fortes experiências de imersão nesse universo, sejam elas acadêmicas ou a partir da família Raplogia que me adotou, me coloca em uma situação semelhante a você. Meninos novos querendo ser gente grande no mainstream, que existe bem antes de nós. Abordo isso por ter a consciência de que se não fosse o trabalho e a resistência histórica da old school do Rap BA, acredito que a cena que nós estamos imersos seria bem diferente e com certeza mais difícil para que nossos trabalhos pudessem se estabelecer e ter alguma visibilidade. Uma pá de artistas estão trabalhando há anos nas quebradas pra que nós possamos chegar e nos posicionar no jogo. A primeira coisa que aprendi, não com o Hip Hop mas com a cultura negra diaspórica, foi a noção de ancestralidade: nós não seríamos nada sem as pessoas que nos antecederam, e devemos sim reconhecer, respeitar e saudar sempre quem veio antes de nós. Antigamente não existia internet nem redes sociais como hoje e Rap para as grandes plataformas midiáticas era ruídos de seres marginais e subalternos. A estrada não começa do ponto que nós estamos localizados, muito chão já foi percorrido e acredito que estamos em uma encruzilhada, Exu do Blues. Tenho observado que não há um compromisso da dita nova geração do Rap brasileiro com nossos ancestrais do Rap, e há o estabelecimento de uma certa postura de desrespeito e negligência. Tenho dialogado com vários rappers baianos que estão aí há 10, 15 anos fazendo a cultura Hip Hop acontecer na terra do axé music e o sentimento que percebo é mais ou menos esse. O primeiro ponto que trago para reflexão é: a nova geração do Rap precisa dialogar com a velha geração, pois devemos muito a esta. Conflitos, atritos e tensionamentos por ego e disputas de poder tendem a desestruturar a cena, que pode ser bem maior e potente se o fechamento e a união forem estabelecidos. Em uma coletiva de lançamento do álbum solo do Mano Brown perguntaram pra ele o que achava da rivalidade entre Nordeste e Sudeste no Rap, e ele declarou que não tem tempo para essas discussões. Isso pode ser um sintoma da ausência do respeito e diálogo entre gerações.

O segundo ponto que venho abordar aqui é em relação ao impacto do lançamento de Sulicídio, que realmente deixou a cena underground do Rap brasileiro em combustão em 2016. Meus colegas e amigos que compõem a equipe do Raplogia sabem o quanto eu odeio diss. Brigas internas frequentes acontecem, e depois de Sulicídio se tornaram mais fortes. O combate através das rimas antecede o próprio Rap, e no caso do Brasil – e principalmente do Nordeste – temos uma forte tradição ancestral de combates orais, como o caso dos repentistas, emboladeiros e poetas populares, que compõem a forte tradição da oralidade que herdamos da Diáspora Africana. Isso não é novidade pra nós. Minha opinião em relação às diss sempre esteve estreitamente ligada às masculinidades e como o Rap pode ser uma territorialidade de emasculação, algo que pesquiso no mestrado. Para mim, diss são espécies de espelhos para rituais narcísicos das masculinidades rappers, e transformam o Rap em uma guerra de testosterona e virilidade. Afirmo isso pois a cultura Hip Hop, mesmo com a atual invasão de mulheres e LGBT’s rappers, ainda é uma cultura de pleno domínio masculino. Mesmo propondo uma afronta do Nordeste contra o Sudeste, Sulicídio é uma diss de combate entre homens, e você e o Chinaski manipulam códigos da masculinidade heterossexual como armas extremamente nocivas e tóxicas. Eu enquanto homem negro gay nordestino fui situado mais uma vez em um entre-lugar que me fez repensar várias questões provocadas por vocês. No país no qual o índice de genocídio transexual é um dos maiores do mundo, além do índice absurdo de pessoas com HIV positivo que lutam diariamente para sobreviver biológica e socialmente, rimas como “Não é comendo ‘traveco’ que se vira fenômeno” e “Meu rap é agressivo/Mandei algumas fãs soropositivo pro seu camarim” atingem de maneira agressiva e violenta comunidades inteiras. No último Natal um vendedor ambulante morreu defendendo uma travesti, assassinado por dois homens por crime de transfobia. Rimas como essas alimentam o imaginário coletivo que é extremamente LGBTfóbico. Como diz um antigo provérbio africano, as palavras tem poder, Baco. As palavras é o nosso domínio sobre o mundo, como dizia a Clarice Lispector. Você deve saber isso desde cedo, pois sua mãe professora de Literatura deve ter lhe ensinado. Várias pessoas do underground souberam da minha indignação em relação a tais rimas e preferi parar para refletir muito sobre tudo isso. Poderia ter ganhado muitas visualizações, curtidas e compartilhamentos escrevendo uma crítica pesada lhe acusando e expondo a partir da perspectiva do gênero e da sexualidade distorcida em suas punchlines. Mas percebi que estaria manipulando a situação a meu favor, produzindo mais sensacionalismo como muitos sites por aí. Esse não é o meu objetivo: meu objetivo é o diálogo, que não foi permitido e subestimado da vez que você veio aqui em SAJ, impossibilitando de certa forma uma possível discussão olho no olho. Após isso tudo, fiquei bastante feliz por saber que você tem se preocupado com as críticas que foram feitas e tem procurado modificar sua postura enquanto artista e ser humano. Suas linhas na mixtape do Quinta Esquina é um bom resultado: “Hilário é ver Feliciano não gostar de Nárnia só por ver leões saindo do armário” é um sinal de amadurecimento.

Porém, a rivalidade entre Nordeste e Sudeste no Rap é um forte refluxo das hierarquias de poder estabelecidas na história de nosso país: nosso processo civilizatório através da colonização foi estruturado pelo Nordeste, centralizado no passado enquanto matriz social, econômica e cultural do Brasil. Após a queda do império colonial português e a instalação da república, a Bahia e o Nordeste foram transformados em territórios de arcaísmo e atraso. O projeto republicano e elitista de modernização e industrialização do Brasil, concentrado na região Sudeste a partir do século XX, é o principal responsável pelos mitos e estereótipos sobre o Nordeste. O discurso sobre a seca, a fome, a miséria, o analfabetismo ainda é extremamente manipulado pelas políticas partidárias desde a era dos coronéis para ganhar votos e dominar a máquina pública estatal. Fita de historiador é foda, é chato, mas é necessário. As raízes do discurso travado por você e pelo Chinaski são bem mais profundas, complexas e preocupantes: vai muito mais além da monopolização das plataformas midiáticas e do mainstream pelo Rap do Sudeste. Somos atravessados por um campo de forças e estamos agarrados só na ponta do iceberg. Porém, fiquei muito satisfeito por esse levante verbal. A jogada de vocês no tabuleiro foi muito foda sim. Acredito que essa questão deve ser levada mais a sério, sem artificialismos e superficialidades, não como instrumentos de marketing e autopromoção. A bandeira da nordestinidade enquanto identidade possui uma potência que nem imaginamos ter, por isso é necessário estar sempre atento.

Escrevo essa carta aberta, Baco, enquanto fã de verdade e para dizer que o underground precisa de você, do Chinaski, de toda essa nova geração do Rap, mas tem que saber chegar. Seu talento é incrível e seu trabalho é como uma respiração boca-a-boca na cena do Rap Bahia, oxigenando os pulmões da cultura Hip Hop nordestina. Tenha certeza que desejo que seu trabalho vingue a cada dia e possa tomar proporções bem maiores e mais interessantes, fato que me fez demorar tanto a me posicionar (se é que meu posicionamento tem alguma relevância para a cena) e isso poder te prejudicar de algum modo. Fazer Rap na Bahia não é fácil e você sabe muito bem como é. Termino essa carta aberta pedindo licença para te dar um conselho. Muito cuidado com os fascínios que as plataformas midiáticas, a fama e a popularidade virtual podem proporcionar: se importe com o que de fato você pode oferecer enquanto contribuição para a história do Rap Nacional. O efêmero pode ser uma escolha, mas é o desejo do eternizar-se que faz o artista se superar sempre. Como o rapper Kendrick Lamar já refletiu no álbum To Pimp a Butterfly, o mainstream, a mídia e a indústria fonográfica prostituem os artistas em função do capital, e no final o vencedor estará sempre só. Que um dia a gente se esbarre e possamos trocar mais ideias sobre isso tudo. Sucesso, com respeito:

DanDan.

PS:

Bate cabeça, ladrão

As bicha e as sapatão

Bate cabeça, ladrão

As trans e os travecão

Fotografia de Fernando Baggi.

5 Respostas para “Querido Baco,

  1. Sobre o respeito a velha escola, creio que os rappers que entraram em destaque neste último ano, dentre eles o próprio Baco, tem demonstrado respeito nas músicas fazendo diversas referências, agora se isso se traduz nas relações dos bastidores é outra coisa. Me surpreende ouvir que o Brown teve esse tipo de reação, geralmente todos os membros do Racionais são bem progressistas com a nova geração.

    Nos segundo ponto, a questão LGBT, o próprio Baco e Diomedes falaram das linhas polêmicas e mostraram consciência com relação ao que escreveram e o impacto que isso causou após. Me fez lembrar um vídeo bem consciente da Lívia Cruz, não lembro qual, que ela diz que independente deste tipo de escrita continuar acontecendo, que eu acho que não é o caso deste e de vários artistas da nova escola, o fã também tem que mudar a forma de “consumir” e encarar este tipo de música, tem que questionar e mostrar que não aceita mais isso. Não adianta uma mudança só da parte do artista, o público aceita muita música com esse tom preconceituoso e misógino. Nós temos que mudar e não apoiar mais esse tipo de artista e música também.

    Enfim, acho que o que aconteceu com Sulicídio e a ascensão do rap do norte e nordeste era o que a cena precisava pra sair do conformismo. Junto outras cenas como BH e Curitiba também começam a entrar no jogo. Espero que continue a diversificar e exigir cada vez mais dos artistas. Sem dúvida, pela qualidade que vem mostrando, Baco vai ser essencial para isso.

    • Kleber, beleza? Pois é cara, seria hipócrita da minha parte criticar de maneira pesada e sensacionalista o trabalho do Baco e do Chinaski e continuar a consumir muita rima preconceituosa, machista, sexista e LGBTfóbica que vem lá dos Estados Unidos, por exemplo. Eu sei separar bem as coisas e estruturar a minha crítica musical de uma outra maneira. Baco e Chinaski fizeram rimas preconceituosas e transfóbicas sim, mas Sulicídio em termos musicais é do caralho, bem como o que eles vem produzindo ultimamente no Direto do Hospício e no Chave Mestra. Acredito que a crítica de relevância é aquela que procura não destruir o trabalho do artista a partir de suas fraquezas, e sim fazê-lo refletir sobre elas para que seu talento não possa ser desperdiçado à toa e acabe virando mais um otário na cena.

  2. Belo texto, as ressalvas são importantes, principalmente em relação a nova geração do rap, a essência passa bem distante da maioria, agora um ponto que eu acho que podemos ter uma interpretação ambígua é essa questão dos palavrões, vou dar exemplo pra deixar mais claro, quando você faz uma música tirando o famoso estereótipo playboy, você está contestando aquele pensamento que alguns indivíduos levam de achar que existe superioridade em ter uma melhor condição financeira, e não tem preconceito com quem tem uma condição financeira superior a sua, não é essa a questão, a palavra traz uma ideia sintetizada (lembrando que depende o contexto e no caso da música o contexto te faz entender muito bem), ou até mesmo quando você cita a palavra “bixa” (geralmente está se referindo não ao homossexualismo e sim faz referência a uma atitude fraca,a falta de coragem, de um homem hétero ou não), eu insisto nessas ideias porque se o rap se tornar politicamente correto, todo certinho, vai perder um pouco a graça, tem Mc’s que ressaltam a palavra preto, e outros negro, ainda há uma discussão sobre qual termo denomina melhor o homem que tem mais melanina na pele, então eu diria que os termos podem ser usados, pois o contexto sempre deixará claro o que foi dito, a mensagem que foi passada..

    • Alexandre, beleza? Todo discurso é polissêmico, ou seja, pode ter várias interpretações e quando se trata de arte é bem mais complexo ainda. O Baco e o Chinaski podem não ser LGBTfóbicos, mas utilizaram expressões preconceituosas em suas rimas sim. Isso pode não ter lhe incomodado principalmente por você não ter a mesma perspectiva de interpretação que nós LGBT’s temos. Todo discurso é interpretado a partir do nosso lugar na sociedade: ser negro, branco, pobre, rico, mulher, transexual, favelado, playboy, dentre outros marcadores identitários fazem com que nossas leituras em relação ao mundo sejam diferenciadas e diversificadas. E sobre a questão do Rap ser “politicamente correto”, ninguém é obrigado a nada, mas os rappers estarão sempre vulneráveis a críticas sim e o diferencial sempre será o ponto de vista que é tomado.

      • Amigo Dandan essa questão da perspectiva é sem dúvidas real, você tenta se por no lugar da pessoa, mas se não é ela nunca entenderá a situação por completo, mas as críticas ajudam sim, quando feitas dessa maneira respeitosa e com bom senso, dão oportunidade a eles próprios crescerem como profissionais, só ressalvo mais uma vez, que o contexto é mais importante que o termo, pois os palavrões sempre serão usados, é parte integrante da cultura underground “porra”! rsrsrsrsrs.. abraço

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