Decodificando com Genius: Atleta do Ano (Remix)

Fala rapaziada, estou chegando com mais um “Decodificando com Genius” para uma faixa que bombou lá no site, dessa vez “Atleta do Ano (Remix)” do Mob79, formado pelo Koning e Torres. A faixa ainda traz as participações de peso do BK, Djonga, Don Cesão e Febem. Lá no Genius, temos mais de 40 usuários envolvidos na transcrição e anotações, sendo que quase toda a faixa está anotada.

Este remix, que teve a masterização e mixagem refeita, conta com um sample da faixa “Vida Loka Parte II”, um clássico do Racionais MCs, vem com uma ideia de fazer referências e usar figuras de linguagem baseadas no esporte, dentre elas o futebol, nossa paixão nacional. A faixa original não segue muito essa ideia, mas um dos pontos de destaque do remix é justamente esse. O som, inclusive, chega praticamente junto com o anúncio do desligamento do Febem e do Cesão do Damassaclan, ou seja, durante a modificação de alguns dos “times” da cena de rap nacional.

Referências ao futebol

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Uma das coisas que eu acho estranha é que apesar da paixão pelo futebol do brasileiro isso não se traduz nas letras de rap nacional, diferente do que ocorre na cena americana, na qual os esportes mais populares por lá – futebol americano, basquete e baseball – são utilizados constantemente nas músicas. São inúmeras as faixas que levam os nomes dos jogadores que fazem sucesso na terra do Tio Sam e inúmeras analogias, metáforas e outras figuras de linguagem que se aproveitam de resultados históricos recentes ou mesmo dos próprio estilo de jogo dos atletas – veja este artigo em inglês com 50 exemplos de referências apenas para o basquete. São poucos exemplos de faixas nacionais que segue essa linha, consigo me lembrar de cabeça das faixas “Sou Ronaldo” do Marcelo D2, “Faro de Gol” do Ogi e a recente “Romário” do Pimpo$0 & Raffa Moreira. Talvez até tenham mais faixas com a temática, mas são poucas que ganham expressão na cena. Enfim, esta faixa chega como uma boa referência para este tipo de composição que se aproveita do futebol.

Mob é 79, nós é 7 a 1 sem ser alemão
Nós é a 7 a 1 então faça a reação Galvão
 – Djonga

Começando pelo Djonga, que tem surpreendido positivamente os fãs a cada faixa que lança, temos uma referência a um resulta histórico recente que nós brasileiros gostaríamos de esquecer: o 7 x 1 contra a Alemanha. O MC aproveita o nome da dupla MOB79 para relacionar isso ao placar do time alemão, comparando a qualidade mostrada pela equipe naquele jogo ao seu time, ou o time que forma a faixa. A linha é concluída ainda com um salve ao narrador mais famoso do país, Galvão Bueno, conhecido por algumas reações exageradas. Para quem não notou, a linha ainda é uma alusão ao Bloco7 – note que o número 7 aparece 3 vezes.

Batizado César, nome de imperador
Me mantém em pé na dor
Sonho em ter um milhão, Inter de Milão
Em ter um enterro de vilão
 – Don Cesão

Don Cesão usa seu próprio nome para fazer referência ao imperador romano Júlio Cézar, fazendo assim a conexão com a Itália, lar do time Inter de Milão onde Adriano, conhecido como Imperador, jogou. Este trecho é profundo pelas múltiplas referências e associações que podemos fazer, mas a que eu quero destacar aqui é a do jogador brasileiro. Adriano, que possui uma origem humilde, apesar de ter um início de carreira de sucesso, sempre enfrentou problemas, podemos dizer que se manteve em pé na dor, pois sentia saudade do Brasil quando se transferiu para a Europa e enfrentou problemas familiares, mais especificamente a morte de seu pai. Com contratos milionários, mesmo após cair na depressão e retornar ao Brasil onde abandonou sua carreira de futebol, o ex-jogador continua a usufruir de seus ganhos, mas agora com uma imagem na mídia que muitos poderiam dizer que é a de um vilão, pois não serve como um bom exemplo para os jovens.

Isso é um flow de anjo, verdadeiro som de placa
Isso é um flow de anjo, verdadeiro som de placa

(…)
Então entrei em campo, eu dominei a bola
Meus gols são minhas linhas na sua memória
 – BK

Talvez o MC da música mais acostumado a fazer referências sobre o futebol, BK é um dos que mais explora a temática de esportes. Com relação ao futebol destaco dois momentos, a referência inicial ao Fio Maravilha e ao gol de placa – os gols com essa denominação são os mais bonitos que um jogador pode fazer, digno de receber uma placa no estádio em que ocorrem, o primeiro foi feito por ninguém menos do que Pelé. Ele já usou o futebol para exaltar seu flow em outra oportunidade, na faixa “O Próximo Nascer do Sol”“Bk flow Zidane/inimigos que se dane/Quer tentar, não se engane/Seu sistema entra em pane” -, essas referência não são à toa, afinal essa é um aspecto técnico que ele domina, inclusive nessa música. Depois, mais para frente no verso, ele faz uma analogia entre um a habilidade de um jogador de futebol e seus gols com suas composições. Não podemos ignorar que o MC carioca tem sido um astro dentro do campo do rap nacional, um verdadeiro artilheiro.

Eu vou ser grande igual Garrincha e depois morrer de cirrose
Tipo Didico, só jogador caro
Só que eu bebo fora e dentro do trabalho

Acelerando o passo, valorizando o passe
Então passe! Vesti a 79 e fui pra ataque
 – Torres

Por fim, no último verso da música, Torres faz boa parte de suas rimas referenciando e usando analogias sobre o futebol. Usando jogadores da seleção, Garrincha, o famoso “Anjo das Pernas Tortas”, e Adriano, que tem o apelido de Didico, ambos jogadores conhecidos pelo problema com álcool, o MC destaca a diversão que o “jogo” do rap proporciona. A referência é complementada ainda por uma analogia ao número utilizados pelos jogadores no futebol, tanto o 7 quanto o 9 se referem as posições de atacante, ocupada por jogadores valorizados, ou seja, por vestir a 79 do seu grupo, seria ele um jogador com passe alto, uma multa rescisória de respeito.

A importância das linhas para Marta e Serena

São constantes as críticas ao rap pelas letras misóginas e machistas, Lívia Cruz tem sido uma MC que tem fomentado essa discussão. E no esporte não é muito diferente, o machismo também é um problema grande. Contudo, os artistas tem tomado consciência deste problema e isso tem sido traduzido letras. Neste remix temos dois bons exemplos de como poucas linhas podem ser positivas se tratando deste assunto.

Igual a Marta melhor que esses cara tudo, vem que é funeral – Djonga

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Incontestável nos gramados, Marta tem sido uma jogadora de futebol cujo o sucesso fez com que ela fosse colocada junto aos melhores jogadores de futebol do Brasil sem que ninguém pensasse no seu sexo. Nas Olimpíadas de 2016, por exemplo, diante do fracasso inicial da seleção masculina, muitos desejaram e pediram a jogadora na seleção principal masculina que era muito questionada pelo comportamento e falta de comprometimento em campo. Djonga, portanto, se compara a jogadora cujo sucesso fala por si só. Esta comparação inclusive contraria aquela ideia de “jogar igual menina/mulher” que as pessoas adoram fazer.

Os menino são jogador no sereno
As meninas jogadora igual Serena
 – BK

A comparação entre homens e mulher continua com BK, que dessa vez faz referência a uma das atletas mais famosas do mundo, Serena Williams, que domina as quadras de tênis com maestria. Estas linhas mostram a valorização pela mulher negra, temática recorrente no rap recentemente. Cabe lembrar que mesmo sendo a tenistas com mais Grand Slams no currículo, são 23 troféus que a tenista já ganhou em sua carreira, Serena sofre constantemente com críticas e racismo. Sendo assim, o MC mostra que enquanto os meninos continuam a jogar diante de dificuldades como o sereno, as meninas estão espertas como a atleta citada, que corta com precisão todos estes comentários negativos para obter suas vitórias.

Outros esportes

Como a faixa não é especificamente sobre futebol, temos também várias referências, algumas bem diretas outras mais sutis, ao esporte em geral e outros atletas, como foi o caso da linha para Serena Williams.

Avancei quilômetros, eles andaram centímetros
Correndo contra o cronômetro (Bolt) – Don Cesão

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Seria até injusto em uma faixa com o título “Atleta do Ano” não haver uma referência ao Usain Bolt. A referência chega no verso do Don Cesão que se aproveita da qualidade nas pistas do velocista jamaicano. O homem mais rápido do mundo faz o tempo parar em suas provas, Don Cesão fez o mesmo com suas linhas nesta faixa.

Nada pessoal, assim é meu Olimpo
Como um Deus me sinto só de tá vivo – Febem

Apesar da linha não estar anotada no Genius, cabe destacar a possível referência aos Jogos Olímpicos, que seria um evento criado por Zeus para celebrar sua vitória diante de Cronos em Olímpia. Sendo assim, a celebração era feita para homenagear os deuses e os campeões das provas, que eram tratados como heróis. Aqui Febem compara a vitória dos deuses, ou dos atletas, no Olimpo ao fato de poder celebrar a vida. Por fim, é bom chamar atenção que apesar de ter feito um excelente verso, o MC ficou bastante fora do tema da faixa.

Todos querem o pódium, mas só pode um
Ódio, episódio comum, come on
– Don Cesão

O pódio é onde os atletas dos mais diversos esportes recebem sua premiação, a almejada medalha de ouro e o troféu de campeão. Cesão faz uma comparação da busca pelo lugar mais alto do pódio e a luta pela sucesso na cena do rap, a luta para ser o melhor dos MCs. Em ambos os casos é comum que isso gere desavença entre aqueles que competem por essa posição privilegiada, as tretas inclusive tem sido constante do final de 2016 para cá. Porém, este ódio é algo quase que natural diante da competitividade, que de um jeito ou de outro acaba elevando o nível do jogo ou, no caso da cena do rap, melhorando a qualidade das letras. O próprio MC no verso desta música mostrou toda sua habilidade técnica na composição e na entrega, se destacando mesmo ao lado de BK e Djonga que estão em uma fase primorosa.

Dropamos medalha de ouro
Enquanto uns no máximo medalha de honra ao mérito
 – Djonga

Almejada em todos os esportes, a medalha de ouro traduz o sucesso. É comum em algumas competições que os atletas participantes recebem uma medalha que simboliza a sua participação mesmo que não tenha ficado no pódio, o ápice da famosa frase: o importante é participar. Djonga vem demonstrando em seus versos e faixas que veio para subir no pódio, ser comparado aos melhores, ou seja, não quer simplesmente ganhar uma medalha de honra ao mérito. Estas linhas podem ser inclusive entendidas como uma crítica aos MCs de qualidade que estão acomodados no “jogo” do rap.

Concluindo…

“Atletas do Ano (Remix)” é uma ótima faixa, um remix que superou a faixa original, não pelas participações, mas pela ideia de utilizar os esportes na composição das letra. É também uma ótima vitrine para o selo da CEIA do Don Cesão, mostrando que temos mais um time de peso no “jogo do rap”. Como fã de vários esportes, não apenas futebol, espero ver cada vez mais referências e faixas que fazem homenagem aos atletas na cena nacional. Enquanto esperamos, cheguem mais na página do remix lá no Genius, ainda tem algumas linhas nesta música que poderiam ser anotadas. Até o próximo “Decodificando com Genius”.

 

2 Respostas para “Decodificando com Genius: Atleta do Ano (Remix)

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