Decodificando com Genius: Poetas no Topo 3.1

E ai, rapaziada, tudo certo? Estamos chegando com mais um Decodificando com Genius para uma das sequências mais esperadas deste início de ano, “Poetas no Topo 3.1″. A série de faixas produzidas pela Pineapple Supply e a Brainstorm Studio tem feito sucesso e é inegável a contribuição destas iniciativas para a cena nacional. Há quem não aguente mais os “cyphers”, mas tem muitos MCs que tem se beneficiado desta nova mania nacional. Particularmente, tenho gostado de muitas faixas produzidas nesta linha, sendo que Poetas com certeza é destaque entre elas.

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Falando sobre a faixa, novamente temos a produção do Slim que mesmo influenciado pelo trap traz um ar de tranquilidade na produção devido aos efeitos escolhidos, isto não impede os MCs cheguem em algum momento num tom mais agressivo. Nesta primeira parte de três, temos 8 MCs: Qualy, Rincon Sapiência, Clara Lima, LiFlow, Luccas Carlos, Xará, Drika Barbosa e Don L. Logo de cara vemos  algumas diferenças com em relação aos faixas anteriores, temos duas mulheres, algo que os fãs de rap vinham pedindo para a proposta, e o audiovisual, embora mantenha uma sequência lógica, não traz todos os MCs no mesmo espaço físico.

Lá no Genius em poucos dias, pouco mais de duas semanas, a faixa alcançou mais de 50 mil visualizações e possui até o momento desta publicação 87 usuários envolvidos no conteúdo produzido na página. A faixa ainda não está completamente anotada, mas muitas anotações estão bem completas e com informações que fazem justiça a lírica afiada dos MCs. Vou destacar alguns pontos que me chamaram atenção.

Qualy, Luccas Carlos & “Mathematics”

Dois grupos de artistas atualmente estão em destaque na cena nacional: o coletivo Damassaclan e o selo Pirâmide Perdida. Os motivos são vários, do sucesso dos projetos recentes até o clima hostil entre alguns MCs que pertencem aos mesmos. Qualy representa o DMC, Luccas Carlos a Pirâmide Perdida e ainda que o clima possa estar pesado entre os grupos, os dois MCs rimam em Poetas 3.1 de maneira bastante similar, inclusive, juntos fazem alusão a uma das faixas de rap mais famosas do rap. Vejamos alguns trechos com mais detalhe.

Como se eu tivesse uns 16 anos é assim, oh
Tô achando que isso aqui não é comum
Me disseram que era déficit de atenção
Tão querendo me curar com homeopatia
Tudo que eu encosto vira canção
Deve ser crise de ansiedade ou até princípio de depressão
Velhas desculpas por eu não ser parecido com você, doutor – Qualy

Qualy começa fazendo uma metáfora entre sua habilidade de escrita e diversas doenças que assolam os jovens, muitas delas diagnósticos para a dificuldade de aprendizagem nas escolas. A metáfora também é uma forma dele afirmar que está fora do padrão social, desta forma quem anda pelas regras costuma acusar os desajustados de estarem doentes, a própria escolha pela arte para muitos é sinal de loucura. É um início forte para a faixa que continua por todo seu verso, além de ser uma boa resposta àqueles que questionavam o convite para o MC participar da faixa.

Deus perdoe as pessoas ruins
Elas não sabem o que falam
Deus perdoe MC’s ruins
Eles nunca se calam
E eu nunca vi os cara na vivência – Luccas

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No melhor estilo Pirâmide Perdida, usando a cultura popular atual para compor suas letras, Ccaslu utiliza e atualiza um dos memes mais famosos de futebol – a famosa frase usada pelo Adriano Imperador, vulgo Didico – para responder aos críticos e outros MCs que questionam sua posição na cena, da mesma forma que o jogador usou a frase para responder as críticas ao seu futebol.

Além da resposta aos críticos, fãs e sociedade, algo recorrente nos cyphers, afinal é um momento de reafirmação dos MCs, estes dois versos fazem em um determinado momento uma alusão clara a famosa faixa “Mathematics” do Yasiin Bey (Mos Def). Colocamos aqui em ordem para você verificar isso melhor:

Um verso pra fazer valer
Dois passos e eu caio nesse precipício
Três chances e o jogo volta pro início
Quatro balas e eu atiro pra nunca morrer
Pentágono me emocionou
Igual Qix Hexagon
Igual Pia, Brota, Bloco 7
Marcos Dexter Oitavo Anjo Luccas Carlos/Qualy

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Ambos MCs utilizam a enumeração, Luccas para afirmar estar afrente do jogo do rap e Qualy para fazer uma homenagem para alguns elementos famosos na cultura. Note ainda que o MC do Haikaiss presta homenagem ao Bloco 7, outro coletivo intimamente ligado à Pirâmide Perdida. Sabemos que os artistas do DMC e da Pirâmide já trabalharam antes, porém dado o clima entre os artistas dos grupos no momento que a música foi lançada, não era esperado uma ligação tão forte. Vale destacar ainda que há no audiovisual o número 9 em graffiti no muro exatamente quando Pedro Qualy está rimando esta parte. Faltou apenas o número 10 para termos a mesma contagem usada pelo MC novaiorquino.

As mulheres

Muitos pediam por mulheres no movimento Poetas no Topo e os pedidos foram atendidos. Logo de cara temos duas das MCs que tem se destacado na cena: Clara Lima e Drik Barbosa.

Batalhava, nunca pra provar
Só pra confirmar que eu tava no topo
E que a inveja mata e eu mato de inveja
Por ser natural, escolhida entre poucos
Problemas demais, geração elevada – Clara Lima

Para quem ainda não conhecia Clara Lima, a MC do grupo DV Tribo, era MC de batalha na cena de BH e uma das mais nervosas. O sucesso recente da DV no rap nacional é de fato motivo para inveja. Sabemos também que a inveja é um problema que pode acabar com a vida de uma pessoa, pois a mesma vive uma busca em ser igual ao outro. A junção destas duas ideias contraditórias estabelece as consequências de Clara ser referência neste momento na cena, estar no topo como o próprio título da música sugere.

Querem ser quem? Quero ver quem se mantém zen, hein?
Eu tô marcado nego
E hoje a carne preta é a mais cara do mercado negro
Querem ser quem? Quero ver quem se mantém zen, hein?
E eu tô marcada nego
E hoje a carne preta é a mais cara do mercado negro – Clara Lima

A MC ainda termina o verso fazendo uma referência à faixa “A Carne” de Elza Soares. Clara modifica a frase original – “a carne mais barata do mercado e a carne negra” – colocando em evidência o negro. O trecho ganha mais significado ainda pela utilização de mercado negro ao invés apenas de mercado, pois este é um tipo de mercado fora da lei, no qual, por exemplo, artefatos raros e exóticos são extremamente valorizados. Podemos ainda verificar uma leve alusão à faixa “Negro Drama” do Racionais MCs“Querem ser quem?” faz alusão a famosa frase “Seu filho quer ser preto, ha! Que ironia”. Ou seja, um belo exemplo de valorização do negro.

Estrela além do tempo
Avisei pra não esquecer
Já fazem 10 anos que ouvindo Stefanie
Entendi meu porque
Eu luto pro sistema não me fuder – Drik Barbosa

Drik, assim como Clara Lima, continua com a temática de resistência social do negro. Neste trecho inicial a MC faz referência ao livro/filme sobre as funcionárias negras da NASA que tiveram seu trabalho por muito tempo desvalorizado devido ao ambiente machista e preconceituoso em que viviam, embora a contribuição destas mulheres ter sido essencial para o pregresso científico. Em seguida, a ideia de resistência continua com uma homenagem a Stefanie, uma MC que, embora não tenha tanta expressão na cena, sempre participou de trabalhos importante para o progresso do rap nacional. Fica evidenciado a luta constante das mulheres negras contra o sistema.

Vim foda em dobro, tipo Tasha e Tracie
Tô que nem Latifah, sou queen
Me reinvento, tão clássica como jeans
Enfática, acordo sua mente, te revoluciono
Tipo fuck the police
Harmonia, somos canção
Bem mais que refrão, rimas e melodias
Minha escola foi Lauryn, Baduh e Dina
Hoje referência, siga Djamila – Drik Barbosa

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Tasha & Tracie Okereke, as gêmeas que comando o blog Expensive $hit

As homenagens não param e apesar de não entrar em detalhes aqui, é importante ressaltar que o simples fato destes nomes serem citados em uma música de tanta expressão neste momento do rap nacional é de suma importância para que os fãs mais jovens de rap busquem saber e conhecer estas pessoas. Com certeza, se não fosse por esses versos, e outros que a MC tem soltado, muitos não iriam nunca ouvir das MCs citadas – Lauryn Hill, Erykah Baduh e Dina Di ou mesmo o coletivo Rimas & Melodias que Drik faz parte -, quem dera ouvir falar de Djamila ou Tasha & Tracie.

Quem está em alta e quem estava esquecido

Poetas no Topo também é uma ótima oportunidade para valorizar os artistas, estejam eles em alta ou esquecidos para o público. Este é o caso do Rincon Sapiência e do Xará, respectivamente.

Hã! Rincon como Lebron
Arremesse o ódio, toco
Tô na moralzinha, na paz
Fazendo umas linha, soco
(…)
Professor, eu assimilo
Opressor, eu aniquilo
Hã! Endurecendo mamilos
O danado sou eu, Ludmillo – Rincon Sapiência

Manicongo tem se mostrado um dos MCs mais irreverentes nos últimos meses. Seu sucesso decorre justamente do fato de suas “linhas de soco”, as famosas punchlines, serem dotadas de um certo humor e simplicidade, seu verso em Poetas 3.1 demonstra justamente isso. Tecnicamente o MC não faz nada de especial, seu esquema de rima é bem simples A-A-B-B ou A-B-A-B em muitos deus seus versos, o que o torna tão atrativo são suas entrega, levada e voz marcante. Aqui destaco dois momentos, um primeiro onde ele afirma ter habilidade na escrita, fazendo inclusive uma comparação com jogador de basquete americano Lebron James, e em seguida faz uma referência bem humorada a cantora Ludmilla. Vale notar quem em ambos os trechos Rincon rima para reafirmar sua luta contra o preconceito, principal temática de todas as suas músicas.

É, o amor é um risco
Eu só rabisquei mais alguns e fiz dois discos
Tudo que eu faço é um lovesong
Eles lobbysong e no final vai tudo pro mesmo lixo
(…)
Na próxima eu volto mais leve, juro
Com várias linhas engraçadas
Vou chegar na tendência do jogo
Como sua punchline piada, ei – Xará

A participação de Xará me pegou de surpresa, eu realmente havia esquecido do trabalho deste artista e acredito que muitos fãs de rap também. Este esquecimento é tratado no verso do MC que faz referências ao hiato longe da música, ou pelo menos dos holofotes, e seu retorno várias vezes. Assim como com Rincon, trago dois momentos bem anotados lá no Genius. No primeiro ele faz uma comparação da sua música, feita com amor, com outros trabalhos que não foram produzidos com o mesmo carinho pela cultura como o dele. Infelizmente, isso demonstra o porquê de esquecermos artistas como ele, afinal a cena hoje é rápida nos lançamentos. Depois, no fim do seu verso, ele continua a falar de seu retorno, fazendo uma crítica a cena atual ao mesmo tempo que referencia um dos MCs mais respeitados pelos próprios MCs, De Leve do Quinto Andar, conhecido bor ser bem humorado nas composições.

Finalizando

Poderia falar também dos versos do LilFlow e Don L. O primeiro se apresentando na cena, um bom verso, e o segundo exigindo o máximo da nossa interpretação, um bom exemplo de como o Genius pode ajudar a compreender o trabalho de um artistas. Convido a acessarem a página lá no site para mais detalhes destes versos e outros trechos que não couberam aqui no texto.

Como sempre, fica o convite para comentarem aqui ou participarem das contribuições lá no Genius. Enquanto isso, continuamos a apreciar boas rimas e começamos a criar expectativas para as próximas partes da série Poetas no Topo. PLOW!

2 Respostas para “Decodificando com Genius: Poetas no Topo 3.1

  1. Que artigo fera! Muito bem escrito, essa série é muito massa. Só queria chamar atenção pra 2 pontos no texto:
    1. Damassa e B7 são coletivos, Pirâmide é selo musical tem vários artistas (pra não dizer todos) que participam do B7, mas ela em si é um selo.
    2. Tem 8 Mcs, não 9

    😀

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