“A luta também se revela quando falamos do amor”- Entrevista com LARINU

“Quantos microfones ao longo da vida são abertos para expormos nossa voz? A luta também se revela quando falamos do amor” – Poesia não só nos versos, mas na voz e na essência dessa mulher. Larissa Nunes, com o alterego LARINU, lançou seu primeiro single “Refúgio” há menos de um mês mas já nos mostrou todo o brilho que há dentro de si. Caminhando de mãos dadas com o R&B e o rap, o som foi lançado sob o selo da Carranca Records, distribuidora independente de São Paulo, com a produção de Dé no Beat (Adonai, Quinta Dose) e gravação, mixagem e masterização de Mud@Lodo Studio.

Num bate-papo sobre arte, empoderamento feminino e negritude, trocamos uma ideia sobre a sua participação no Hip Hop. Confira abaixo a entrevista e não se esqueça: sexta-feira (05/05) tem o lançamento do EP de LARINU! Pega a visão:

RAPLOGIA: Como foi o início da sua caminhada no Hip Hop? O que despertou a sua paixão por ele?

LARINU: A música preta sempre esteve na minha vida, desde criança. Minha mãe me influenciou muito a conhecer os artistas da Black Music, do Soul Train, até chegar no movimento Hip Hop. Foi importante como formação, como mulher negra. Sempre gostei de cantar, mas foi a partir dos 15 anos que escolhi levar mais a sério. Na época, tocava numa orquestra e escrevia uns poemas. Até encontrar o teatro! Hoje vejo como as coisas sempre foram interligadas e é isso que me permite criar.

R: Quais são suas inspirações pra fazer suas músicas?

L: Não consigo com clareza dizer de onde vem minhas inspirações. Elas partem de mim, do que penso, sonho, quero – mas precisam ser mais do que isso. Tenho que sentir se tal coisa precisa ser compartilhada, reinventada. Basicamente, transformo sentimentos muito pessoais em algum tipo de “experiência universal” – que faça alguém se relacionar, se identificar. Pode ser sobre o amor, o medo, os encontros…

R: Você também é atriz, né? Como que surgiu isso na sua vida e como isso se relaciona com sua caminhada no Hip Hop?

L: Já muito imersa na música e na escrita – mas com muitas dificuldades de me relacionar – na escola que estudava, me indicaram fazer teatro. E aos 14 anos fiz uma oficina aqui em São Paulo. O teatro me ensina a lidar não somente com a narrativa, mas também com a linguagem, com a forma. Me ensina a organizar meus pensamentos e minhas escolhas diante do mundo. Esse aspecto ajuda profundamente no que tento compor na música.

R: Vi também que você se interessa muito por poesia, fotografia. Como isso se encaixa na sua vida e no seu trabalho autoral?

L: Apesar de não me considerar poeta ou fotógrafa, amo muito lidar com essas linguagens. A arte em geral possibilita essas relações. Quando quero compor algo, vou me arranjando nas linguagens que são disponíveis, não consigo desvincular uma das outras.

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Foto por: Marco Aurélio

R: Como é ser mulher num meio predominantemente masculino como o Hip Hop? Você já passou por situações machistas? Como encara essas situações?

L: Nunca encarei diretamente uma situação machista no Hip Hop, mesmo sabendo que vivo numa sociedade machista sistematicamente e que sempre estarei sujeita à prova nesses meios. Ainda é difícil, apesar dos nossos levantes. Sou a única mulher do coletivo independente que faço parte, o selo Carranca Records, por exemplo. Temos uma ótima parceria mas sei do meu compromisso enquanto mulher e respondo por tudo que penso. Se quero falar sobre o machismo, o racismo ou algo relacionado, não meço esforços pra me colocar. Daí sim podemos avançar nossas discussões.

R: Você vê seus trampos como uma forma de resistência? Qual mensagem você tenta passar através dele?

L: Acredito que sim. Quantos microfones ao longo da vida são abertos para expormos nossa voz? Tenho uma responsabilidade com isso e tento escrever o que me movimenta de várias formas. A luta também se revela quando falamos do amor. Mas em alguns casos, a luta se revela apenas por ela mesma. Ao longo da caminhada, encontramos formas para se posicionar, não importa sua ocupação.

R: Qual a melhor forma de empoderar as minas, em sua opinião?

L: Costumo pensar no empoderamento como um primeiro passo – não se trata do único. Uma vez que você se vê dona da sua própria história, você ganha noção da sua experiência no mundo. Começa a perceber quais violências já passou, quais medos foram superados, de que forma você escolhe se posicionar.  Para uma mulher, isso é inquestionável. Mas o mundo tá sempre mudando e uma vez que você se descobre, mais exigências e desafios virão.

R: Quais os nomes de minas no Hip Hop nacional que você aponta como estrelas do presente/ futuro?

L: Bom, o Hip Hop é um universo (risos). Se pensarmos no Rap, temos mulheres notáveis como Tássia Reis, Yzalú, BrisaFlow. Se pensarmos na música negra nacional, Liniker será um dos grandes nomes do futuro, não apenas pelo sucesso que tem feito agora. Todas tem me inspirado bastante.

R: Quais são seus sonhos e planos para o futuro?

L: Estudo teatro na Escola de Arte Dramática (USP) e enquanto estou em formação, tenho um trabalho que estou desenvolvendo, uma montagem. Com o lançamento do EP, volto pro estúdio e finalizo alguns “pedaços” de músicas que tenho. Ainda sigo experimentando para um possível CD. Quero ter tempo necessário para viver minha experiência no teatro e na música. Isso é o que mais quero.

R: Para finalizar, deixe um salve para as minas que estão começando na caminhada de seguir seu sonho no Hip Hop.

L: Assim como eu, iniciante por completo nessa caminhada, digo que não estamos sozinhas. Que cada mina se sinta apoiada, acolhida e que amadureça no seu corre. Seguimos juntas!

Saiba mais:

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Carranca Records

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